28/05 - GRUPO V
LINGUAGENS URBANAS DE PERTENCIMENTO:
O RAP NACIONAL E AS PRÁTICAS IDENTITÁRIAS
Rosana Aparecida Martins Santos
Docente Mestre do Departamento de
Comunicação Social do Unicentro Belas Artes de São Paulo
Doutoranda em Ciências da Comunicação pela
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
rosanasantosposse@hotmail.com
Resumo: Em tempos atuais o processo de globalização vem fornecendo
novas configurações identitárias levando como modelo de análise na
interpretação das relações entre o global/local. Partindo deste pressuposto, o
objetivo desse artigo situa-se em abordar a construção do rap produzido em
São Paulo, enquanto projeto artístico de resistência ao sistema hierárquico de
poder e prestígio, como componente musical integrado no fluxo global de
produtos, idéias, estilos, ou seja, enquanto linguagem cultural e consumível.
Diante disso, fica proposto reconstruir o sistema de significações simbólicas
que a mensagem produz, caracterizando pela capacidade de reflexão crítica à
ordem social, articulada pelos jovens consumidores desse gênero artístico
musical, na cidade de São Paulo, que são denominados por “manos” e por
“boys”, tentando apanhar a singularidade que há por trás desse processo.
Palavras-chave: Juventude; sociedade de consumo; conflitos sociais
Abstract: The globalization process has been providing new arrangements to
identity issues on its role as a model to interpret the relations between the
global and the local in current times. From this prospect, this project’s purpose
approaches the construction of the rap made in Brazil as an artistic project of
resistance to an hierarchical power and prestige system as well as a musical
component integrated to the global flux of products, ideas and styles, therefore,
as a cultural and marketable language. This project’s goal is an effort to
rebuild the symbolic system of meanings which is passed on by this message
to the specific public, young consumers of this artistic and musical type, in São
Paulo city, who are denomined and use to call themselves ‘manos’ and ‘boys’,
trying to highlight the uniqueness behind this process.
Key words: Youth; consumption society; social conflicts
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A construção poético-musical do rap no Brasil - como um dos principais
pilares de um movimento cultural e artístico, o hip-hop1 -, tem se esforçado na
tentativa de denunciar e buscar soluções para fatores que tendem a paralisar a
pretensão de progresso neste país tais como, a pobreza, a violência urbana, a
violência policial, a discriminação racial, o resgate da auto-estima dos afrobrasileiros,
as altas taxas de desemprego, de desigualdade na distribuição da
renda e no uso das drogas, a falência da rede educacional, chacinas, dentre
outros (Andrade, 1999). É nessa visão opressiva que o Rap Nacional vem
retratando a realidade social numa luta pela consolidação das bases
democráticas.
Numa escala global o rap vem se assentando num discurso (lírico e
musical) afirmativo, reflexivo e narrativo da representação de si próprio, das
suas experiências e das suas convicções. Isto o torna uma fórmula acessível
de prática intensiva da identidade. Encarado como um dos elementos das
estratégias culturais da autodefinição e automanutenção, um tipo de
subsistência ideológico-identitária sobre a relação que um indivíduo
estabelece com o mundo ou, melhor, o modo de existir no mundo.
Percebe-se que no Brasil a desigualdade social se dá não apenas pela
péssima distribuição de renda do país, mas também pela distribuição desigual
de conhecimentos sobre os direitos do cidadão e de acesso à Justiça. A rigor,
as diferenças sociais acabam sendo traduzidas, ora na figura do subalterno
que tem como dever a sua obediência cega, ora no papel do inferior aquele
merecedor da tutela, da proteção, mas jamais dos direitos.
Como seria de se esperar, os habitantes dos espaços empobrecidos das
grandes metrópoles brasileiras são tidos como marginais, ou seja, tudo aquilo
que a sociedade considera como impróprio (Caldeira, 2000). O nãoreconhecimento
do outro como sujeito de interesses e aspirações representa
nada mais do que uma forma de sociabilidade que por hora não se completa,
porque regida por uma lógica de anulação do outro como identidade.
1 De acordo com a cientista social Rosana A. Martins Santos (2002), o termo hip-hop na
verdade designa um conjunto cultural vasto que deriva daí seus quatro elementos
artísticos: MC, master of ceremony, mestre de cerimônia ou rapper, a pessoa que leva a
mensagem poética-lírica à multidão, que acresce às técnicas do freestyling, o livre
improviso e o beat-box, que são sons reproduzidos pelas próprias cordas vocais dos
rappers cuja característica de percussão guarda semelhança de efeito com um toca-discos
ao acompanhar o MC; o DJ, disc-jóquei, aquele que coloca a música para dançar; a dança
break, para aqueles que se expressam por meio de movimentos da dança; o grafite, as
artes plásticas e a arte visual no hip-hop. Ver também: Brake, Michael. 1985. Comparative
youth culture: the sociology of youth cultures and youth subcultures in America, Britain, and
Canada; Rose, Tricia. 1994. Black Noise. Rap music and black culture in contemporany
america.
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Associação Internacional para o Estudo da Música Popular
Como lógica social, “o sistema” apresenta-se simultaneamente como
moralidade (um sistema de valores ideológicos) e um sistema de comunicação.
Pode-se dizer que a mercantilização estandardizada da vida cotidiana constitui
hoje um dos principais cânones de localização do próprio indivíduo no
processo social, à medida que o consumo é visto como sinônimo de “real”
existência e a identidade passa, então, a ser formada e transformada
continuamente pelos sistemas culturais mundializados que nos rodeiam,
fazendo surgir novas identidades.
Nesse contexto, segundo o sociólogo polonês Zigmunt Bauman (1998),
no mercado são colocados à disposição juntos diferenciados elementos da
“identidade do eu” numa ampla gama de identidades que podem ser usados
diferentemente, isto é, que produzem resultados diferentes uns dos outros e
que são assim personalizados, feitos sob medida para melhor atender às
exigências da individualidade como parte de um estilo de vida especial, de
modo que o consumidor em perspectiva possa conscientemente adquirir
símbolos da auto-identidade que gostaria de possuir.
Nesse âmbito, o Rap Nacional produzido em São Paulo procura a seu
modo desafiar a fragmentação deixada pelo establishment, não obstante,
circunscrevendo uma forma de autoconhecimento e (re)ação dos jovens da
periferia capital paulistana aos processos massificadores que atingem o
mundo contemporâneo, no qual cada um é apenas aquilo que qualquer outro
pode substituir.
É dessa maneira, portanto, que o Rap Nacional reafirma visões de
mundo, posições engajadas dentro das quais os indivíduos desenvolvem a
publicidade de sua ação social expressando e questionando os valores
instituídos socialmente numa leitura crítica com base na reversibilidade do
modo de ser desta sociedade.
Na narrativa do Rap Nacional, podemos encontrar um espaço dividido a
partir de duas construções identitárias: o mundo do mano e o mundo do boy,
permeado por códigos morais em referência ao social.
H. Aço
Ser Homem de Aço é resistir
Não posso dar as costas se o problema mora aqui
Não vou fugir
Nem fingir que não vi
Nem me distrair
Nenhum playboy paga pau vai rir de mim
Tenho uma meta a seguir
Sou fruto daqui
Se for pra somar
Hei mano chega aí
(...)
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(DMN. CD. H. Aço. 1998. Cia. Paulista de Hip-
Hop)
Hey Boy
Tiravam tudo de mim
Arrancavam minha pele
Minha vida enfim
Tenho que me desdobrar
Pra não puxarem meu tapete
E estar sempre quente
Pra não ser surpreendido de repente
Se eu vacilo trocam minha vaga
O que você fizer
Aqui mesmo você paga
(...)
Você faz parte daqueles que colaboram
Para que a vida de muitas pessoas
Seja tão ruim
(...)
Seu egoísmo ambição e desprezo
Serão os argumentos pra matar você mesmo
Então eu digo Hey boy...
(...)
(Racionais MC’S. LP. Raio X Brasil. 1993. Zambia)
Nas duas letras temos exemplos de personagens pertencentes do mundo
paralelo marcado pelos efeitos da violência urbana cujo território, o lugar onde
se mora, emerge na valorização da própria identidade, do caráter, da
dignidade que ainda resiste diante da invisibilidade do mundo. Na verdade,
ocorre duas maneiras de empregar a dicotomia boy e mano: uma consiste em
usar as palavras rico e pobre e sua oposição; a outra, em agregar adjetivos,
advérbios, de modo a estabelecer diferenças. De um modo geral, temos aqui:
Ø manos (geralmente são negros e pobres)
São molestados constantemente pela polícia; sentem-se subordinados,
desprezados; são discriminados pela forma como se vestem; são vistos
como favelados e, por conseqüência, criminosos; são humildes; não são
individualistas; são simples; espertos; valentes; são solidários; são
companheiros.
Ø playboys (geralmente são considerados como sendo ricos e
brancos)
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Geralmente são tratados, na narrativa do rap, por diminutivos no sentido
pejorativo; são vistos como covardes e arrogantes; são aqueles que
ostentam futilidades; são alienados do mundo que os cercam; são
indiferentes; não são incomodados pela polícia; acham que podem tudo;
possuem carros importados; não trabalham; acham-se superiores, melhores
que os outros; individualistas; medrosos; não são solidários, nem
companheiros; orgulhosos; podem consumir tudo o querem; desconhecem
as dificuldades da pobreza; tem poder; protegido pela
sociedade/impunidade; tem facilmente tudo na vida.
Aqui as comunidades imaginadas de manos e boys enquanto existência
individual e social de configurações múltiplas representa os novos
agrupamentos inseridos numa multiplicidade de espaços e tempos prestes a
desdobrar na quebra da sua uniformização. Em todo o caso, os objetos
simbólicos como a música rap, por exemplo, pode servir nesses grupos como
mecanismos através dos quais a identidade passa a ser definida.
Na verdade, a noção de estilo de vida conota uma forma de autoexpressão
e uma consciência de si estilizada, a tendência no qual o indivíduo
reage ao nivelamento social (Featherstone, 1995). O Rap Nacional além de
marcar sua importância na contestação voltada à problemática urbana sugere
um novo espaço de reflexão e denúncia reivindicando para si espaços de
sociabilidades nos quais os indivíduos, impulsionados por interesses diversos
se soldam numa unidade distintiva dentro do corpo social.
A definição desses sujeitos se dá mais por aquilo que se diz deles na
narrativa do rap, ocorrendo a partir daí um conjunto de controle do próprio
discurso. E é por adotar os valores dos boys que o mano aos poucos perde o
controle da sua própria definição de identidade, o abandono das origens e do
projeto histórico de política cultural. A sociedade é assim considerada como
violenta, desigual e injusta. A idéia de uma realidade é construída pela
experiência cotidiana e o tipo de conhecimento do qual a mídia é portadora é
vista como pouco confiável. Ao mesmo tempo em que os rappers atacam a
mídia – nas músicas, nos discursos durante os shows e no dia a dia - eles
precisam dela como canal de divulgação de sua arte e de suas idéias (Santos,
2002).
O rap tenta retratar uma realidade particular tal de onde estão os rappers
paulistanos, de acordo com o contexto sócio-espacial em que se vive e com a
visão de mundo que se tem. A autenticidade refere ao “real” Rap Nacional
aquele cuja construção musical é percebida como tendo uma direta conexão
com o social expressado por uma comunidade de manos.
Portanto, a importância de uma comunidade imaginada segue daí: ela
evidencia um “nós” necessário para constituição de cada ser humano
individual, processo que dá testemunho ao fato de que vidas individuais não
se formam apenas de dentro das estruturas burocráticas institucionais, mas
principalmente de fora, das arenas interacionais, dos espaços públicos de
argumentação.
Nesta perspectiva, a identidade é referência, é o ponto original
relativamente ao qual se define a diferença. A afirmação da identidade e a
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marcação da diferença implicam sempre, as operações de poder, de incluir e
de excluir, significa demarcar fronteiras, significa fazer distinções entre “nós” e
“eles”. Por esse prisma, cada um dos atores enquanto espectadores
desempenham em seus trajetos cotidianos papéis que se mostram
inseparáveis do espetáculo que demarcam para si.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Andrade, Elaine Nunes de (Org.). 1999. “Hip-Hop: movimento negro juvenil”.
Rap e Educação - Rap é Educação. São Paulo: Summus, p. 83-91.
Bauman, Zygmunt. 1998. O mal estar da pós-modernidade. Tradução de
Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Brake, Michael. 1985. Comparative youth culture: the sociology of youth
cultures and youth subcultures in America, Britain, and Canada. New York:
Routledge.
Caldeira, Teresa Pires do Rio. 2000. Cidade de muros: crime, segregação e
cidadania em São Paulo. Tradução de Frank Oliveira, Henrique Monteiro.
São Paulo: Editora 34/EDUSP.
Featherstone, Mike. 1995. Cultura de consumo e pós-modernismo. Tradução
de Julio Assis Simões. São Paulo: Studio Nobel. (Série Megalopolis).
Rose, Tricia. 1994. Black Noise. Rap music and black culture in contemporany
america. Hanover, London: University Press of New England/Wesleyan
University Press.
Santos, Rosana Aparecida Martins. 2002. O estilo que ninguém segura: Mano
é Mano! Boy é Boy! Boy é Mano? Mano é Mano? Reflexão crítica sobre os
processos de sociabilidade entre o público juvenil na cidade de São Paulo na
identificação com a musicalidade do Rap Nacional. 274p. Dissertação
(Mestrado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes
de São Paulo, Universidade de São Paulo, São Paulo.
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São Paulo em PerspectivaPrint ISSN 0102-8839
São Paulo Perspec. vol.18 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2004
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doi: 10.1590/S0102-88392004000400011
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Segregação socioespacial e violência na cidade de São Paulo: referências para a formulação de políticas públicas
Pedro Javier Aguerre Hughes
Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, Coordenador do Programa "URB - AL Rede 10: luta contra a pobreza urbana" da Prefeitura de São Paulo
RESUMO
O artigo apresenta a questão da violência, enfatizando a elevada incidência de homicídios nas áreas periféricas da cidade de São Paulo. Analisa o processo de periferização e as formas como o Estado atuou historicamente nessas regiões e indica questões relevantes para a formulação de políticas públicas voltadas à redução da violência e à ampliação da cidadania.
Palavras-chave: políticas sociais; urbanização; criminalidade.
ABSTRACT
This article focuses the subject of violence, emphasizing the high incidence of homicides in the outskirt areas of the city of São Paulo. It analyses the out skirting process and the ways the State historically had acted in these areas and indicates relevant points to the public politics of reducing violence and expanding citizenship.
Key words: social politics; urbanization; criminality.
Poder e violência são opostos; onde um domina absolutamente, o outro está ausente. A violência aparece onde o poder está em risco, mas, deixada a seu próprio curso, ela conduz à desaparição do poder. [...] A violência pode destruir o poder; ela é absolutamente incapaz de criá-lo.
Hannah Arendt
A evidência da expansão da violência nos contextos metropolitanos, nas últimas duas décadas, em íntima associação às questões sociais, desvela o percurso histórico de ampliação da desigualdade social, apresentando características diversas de acordo com as especificidades territoriais e urbanas. Por isso, torna-se fundamental ampliar a compreensão a respeito desses espaços urbanos e da complexidade envolvida no fenômeno da violência urbana.
A título de exemplo da expansão da violência,
no Brasil, as mortes por causas externas afetam desproporcionalmente os jovens na faixa etária de 15 a 24 anos, tendo sido responsáveis por 71% das mortes de homens e 34% das mortes de mulheres, nessa faixa etária (ESCOSSIA, 2003).
O indicador de mortes violentas de jovens (provocada por assassinatos, acidentes de trânsito ou suicídios)
aumentou de maneira generalizada em todo o país, entre 1991 e 2002. No Estado de São Paulo aumentou em 51% (233,95 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes) (RAYMUNDI; KAWAGUTI, 2003).
A situação é mais grave ainda: de acordo com a Organização Mundial da Saúde,
o Brasil é o campeão mundial absoluto em número de homicídios, com uma pessoa morta a cada 12 minutos, ou um total de 45 mil por ano. Com 3% da população mundial, o Brasil responde por 13% dos assassinatos. Em 20 anos, a taxa de homicídios cresceu 230% em São Paulo e no Rio de Janeiro (LOPES, 2003).
Diante dessa realidade, colocam-se em evidência as causas desses fenômenos e, conseqüentemente, as formas de combater as manifestações da violência. Estudo do Ipea intitulado Criminalidade: social versus polícia conclui que
a tendência de crescimento do número de assassinatos no país observada nos anos 80 e 90 somente será revertida se houver uma queda da desigualdade de renda no país [...]: no Estado de São Paulo, uma redução de 2% ao ano na desigualdade da renda faria o número de homicídios cair 11,6% de 2001 a 2006,
resultado muito superior do que se fossem ampliados progressivamente os investimentos para o aparato policial (GRABOIS, 2003). Com relação a esta constatação, vale acentuar a distinção entre pobreza e desigualdade social, diferenciação que interfere na avaliação da violência. Segundo Pochman (2003), de fato,
o país pode até continuar apresentando queda na taxa de pobreza, como verificado entre 1991 e 2000, sem que isso produza a queda necessária na desigualdade de renda. E, quando isso ocorre, situações correlatas como o desemprego e a violência permanecem 'excluídas' da análise, não transparecendo que são partes pertencentes do mesmo todo complexo e integradas entre si.
Pesquisa recente do Instituto Datafolha sobre combate à violência indicou que
a violência tem de ser prevenida mais pelo combate ao desemprego e melhoria da educação do que pela repressão policial. [...] Dos 12.180 entrevistados, 64% defenderam o combate ao desemprego e a melhoria na educação como prioridades (PENA..., 2004).
Não é possível, todavia, desprezar o impacto de ações públicas de todos os níveis governamentais sobre as conseqüências da desigualdade social, até porque a violência também se consolidou pela ineficácia histórica da atuação dos aparelhos de Estado. A violência, nesse sentido, deixa de ser uma variável independente, devendo ser considerada uma das manifestações de um conjunto de injunções que comprometem a cidadania e a dignidade humana. Em particular, a violência dos homicídios desvela as contradições da desigualdade social, seja pela polarização social que reflete a concentração da renda, seja pela ausência histórica do Estado nas áreas pobres e desassistidas.
SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL: URBANIZAÇÃO PERIFÉRICA E O ESTADO
São Paulo conduziu o processo de urbanização nas últimas décadas segundo o padrão periférico de crescimento urbano, que norteou a expansão e consolidação das periferias, gerando uma pluralidade de tempos e circunstâncias de ocupação dessas regiões, marcadas pela heterogeneidade. Em paralelo, os recursos públicos foram canalizados prioritariamente em direção ao desenvolvimento da cidade rica. Esse contraditório processo de desenvolvimento de uma metrópole na periferia do capitalismo levou grande parte dos moradores das periferias, historicamente, à exclusão dos direitos sociais básicos ao trabalho, à saúde e à educação de qualidade, assim como o direito à moradia digna, equipamentos públicos e infra-estrutura urbana, o que significou, na prática, um déficit de cidadania e de governabilidade. As contradições verificadas ao longo do processo de urbanização - baseado na autoconstrução, em favelas e loteamentos sem infra-estrutura, pautada pela prevalência da especulação imobiliária sobre o direito à cidade - foram denominadas de espoliação urbana, a qual se intensificou em função da dinâmica econômica regressiva nos anos 80 e 90.
Uma característica fundamental do processo de urbanização foi, portanto, a assimetria entre a localização e as condições sociais, fazendo do ambiente construído espaço privilegiado de expressão das desigualdades sociais, com a permanente pressão dos mais pobres em direção às piores localizações. Desde os anos 80, as periferias situadas no extremo sul, extremo leste e nas regiões norte e oeste cresceram em 2,3 milhões de habitantes (71%), devido às migrações intra-urbanas, passando a responder por 54% da população da cidade. Nestas regiões, concentram-se os maiores índices de precariedade habitacional e urbana:
A rigor, os processos de segregação socioespacial na cidade estão estreitamente relacionados com a precarização do mercado de trabalho e o desemprego, que afetam mais que proporcionalmente as camadas mais pobres, menos escolarizadas e que tiveram menos meios de resistir àquilo que se pode denominar de diáspora da classe trabalhadora. Este processo, associado à dinâmica especulativa de valorização do solo urbano e aos sentidos do investimento do capital imobiliário, incide sobre as condições e opções de moradia da população, o que, desde os anos 80, leva à expansão demográfica crescente das periferias em contraposição com o esvaziamento populacional nas áreas centrais (bem servidas por infra-estrutura) e à redistribuição das camadas mais ricas da população para novas fronteiras de ocupação delineadas pelos sentidos do investimento do mercado imobiliário (especialmente o quadrante sudoeste) (HUGHES, 2003).
Historicamente segregada, a cidade informal periférica enfrentou a contingência do déficit dos elementos característicos do pacto subjacente ao contrato social, sendo sua população recorrentemente alijada das decisões e do acesso aos recursos do Estado, apesar da pujança da mobilização e reivindicação dos movimentos sociais, desde o final dos anos 70. Estudos da Secretaria de Habitação indicam a existência de 287 mil domicílios em favelas e 283 mil em loteamentos irregulares de baixa renda, que constituem demanda prioritária que requer intervenção pública. Estes domicílios estão muitas vezes situados em áreas de risco e geralmente apresentam elevados índices de coabitação e adensamento excessivo. É na chamada sub-região periférica que se concentram estas modalidades de habitação precária (72% do total de domicílios em favelas e 87% das unidades habitacionais em loteamentos de baixa renda).
A segregação socioespacial tornou-se, assim, uma marca recorrente na consolidação das periferias, em vista das maiores condições dos segmentos altos e médios da sociedade de disputar as prioridades estatais e o fundo público, relegando-se a um segundo plano as demandas das classes trabalhadoras. É importante observar que as causas da ampliação da precariedade persistem sem que o Estado, em seus diferentes níveis, consiga intervir de maneira estrutural.
As periferias das metrópoles, lugar de maior incidência da pobreza, também concentram a maior parte do desemprego:
dos 7,8 milhões que estavam sem emprego em 2002 em dez regiões metropolitanas do país, 4,8 milhões pertenciam às famílias de baixa renda [...]. Entre 1992 e 2002, a taxa de desemprego média cresceu 38,8% [...] enquanto na camada mais pobre (famílias com rendimento de até 2,7 salários mínimos mensais) variou 46,8% (ROLLI, 2004, p. B14).
Outra característica socioeconômica é a intensidade do desemprego dos mais jovens. No Brasil,
os jovens compõem hoje cerca de 50% do total de desempregados. São quase 7,6 milhões de pessoas que têm de 16 a 24 anos e que estão desocupadas, inativas e fora da escola. Seja pela inexperiência, seja pela baixa inserção educacional, os jovens são as maiores vítimas do desemprego, que pune ainda mais os afrodescendentes e as mulheres (GRAJEW, 2003).
O desemprego dos mais jovens transformou-se num grave problema social, nos últimos anos, devido à onda jovem, que designa o grande aumento da natalidade no início dos anos 80, gerando, na virada do século, a maior participação relativa de jovens de 14 a 24 anos da história da cidade. Assim, essa geração sentiu muito fortemente o impacto da insuficiência dos serviços públicos - saúde, educação e lazer - e a precarização do mercado de trabalho, durante a década de 90. A pressão exercida na demanda por serviços sociais é acrescida, dada a idade desses jovens, de uma pressão por alternativas de educação de nível médio e superior (especialmente gratuitos) e oportunidades de emprego, que são as duas alternativas imediatas à vulnerabilidade da desocupação e da vivência cotidiana de uma marginalização imposta socialmente.
A ausência da ação do Estado nas periferias foi uma marca recorrente da urbanização periférica, gerando uma estrutura urbana precária, com insuficientes equipamentos sociais (escolas e postos de saúde) e déficits de infra-estrutura e de melhorias urbanas essenciais (como saneamento básico), fruto de uma ocupação desordenada que comprometeu a qualidade de vida, a mobilidade e o acesso da população aos serviços e ao mercado de trabalho.
Além de sua ausência histórica nos investimentos e na melhoria urbana, o Estado também teve uma controvertida presença na vida dos moradores das periferias, pautada por mecanismos de controle social e repressão. Estas formas violentas de atuação, na prática, indicam a existência de duas ordens jurídicas tácitas que diferenciam sua atuação entre regiões periféricas e centrais. Tal reflexão permite contrapor o contrato social que rege as relações sociais na cidade formal e na cidade informal, periférica, sugerindo a recorrência de distinções e diferenciações nas possibilidades de fruição das prerrogativas do Estado de Direito.
Diante disso, reaparece o questionamento sobre a (in)capacidade da modernidade, apropriada pela dinâmica da globalização e do neoliberalismo, de produzir a cidadania e propiciar a emergência de poderes sociais, os quais surgem essencialmente a partir da própria prática política dos movimentos sociais, associações e grupos organizados e da reestruturação da atuação do Estado nas periferias.
Segundo Boaventura de Souza Santos (1998), a crise do contrato social produziu o fascismo do apartheid social.
Trata-se da segregação social dos excluídos, por meio de uma cartografia urbana dividida em zonas selvagens e civilizadas [...] As selvagens são as zonas do Estado de natureza hobbesiano. As civilizadas são as zonas do contrato social; vivem sob a constante ameaça das selvagens. Para se defender, tornam-se castelos neofeudais, enclaves fortificados que caracterizam as novas formas de segregação urbana. Nas zonas civilizadas, o Estado age democraticamente, como protetor, ainda que muitas vezes ineficaz ou não confiável. Nas selvagens, age fascistamente, como Estado predador, sem nenhuma veleidade de observância, mesmo aparente, do Direito.
Assim, as periferias recebem um tratamento diferenciado do oferecido à cidade formal no que diz respeito à presença de forças policiais e de segurança pública, sem conseguir atender cabalmente às demandas e reivindicações sociais e nem produzir uma política de segurança pública que dialogue com as percepções e necessidades da população.
Essa controvertida atuação do Estado, associada à amplidão das manifestações da violência, torna-se um dos sinais mais visíveis de uma crise política mais ampla: é preciso
[...] pensar a violência promovida pelo Estado brasileiro, principal detentor do monopólio legal da violência, na medida em que o aparato estatal é também "gerador" de violência (OFICINA DE IDÉIAS, 2003).
AS PERIFERIAS E O FENÔMENO DA VIOLÊNCIA
A partir dos anos 90, a questão da violência assume centralidade no debate público contemporâneo. O seu crescimento e a ampliação de sua abrangência, especialmente nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, levaram a uma redefinição do problema como uma das principais questões sociais urbanas, no final do século XX, estreitamente vinculada às condições sociais e urbanísticas desses aglomerados.
A violência nas metrópoles foi, desde logo, vinculada à ascensão do tráfico de drogas e à disseminação de armas de fogo, que se desdobram em diversas manifestações violentas, com diferentes graus de vinculação ao crime organizado. O tráfico, enquanto atividade ilegal, globalizada devido ao destacado papel do Brasil no comércio internacional de drogas, envolve "a estreita inter-relação entre o narcotráfico e o comércio ilícito de armas" (VALOR..., 2004):
hoje, no cenário da violência no mundo, não se pode excluir o impacto local do contrabando de armas, que [...] entram ilegalmente em países do chamado Terceiro Mundo, entre os quais o Brasil (ZALUAR, 1998).
Acrescentam-se a isso o capital mobilizado para essas transações e a lavagem de dinheiro, bem como a rede de tráfico de influências requerida para sua operação. No plano da realidade urbana, no entanto, ainda assume importância o consumo voltado preponderantemente para os segmentos médios e altos da sociedade. Para atender a esse mercado, o tráfico se consolida de forma territorializada em determinadas comunidades pobres, gerando inúmeros constrangimentos, como o toque de recolher ou a lei do silêncio. Inversamente, as ações policiais muitas vezes têm impacto negativo, contribuindo para um estado de beligerância e conflito.
A relação entre consumo de drogas, criminalidade e violência urbana foi o tema central do Relatório Anual da Junta Internacional de Controle de Drogas, da Organização das Nações Unidas - ONU. Este documento alerta sobre
o peso que crimes relacionados a elas tem nas cidades do Brasil [...]. Segundo o relatório uma grande parte dos quase 30 mil homicídios cometidos no país anualmente está ligada ao consumo e tráfico de drogas. [...] Pesquisa do Banco Mundial, citada pelo documento, mostrou que "os grupos envolvidos no tráfico de drogas tinham maior nível de violência do que os que não estavam ligados à atividade" (SCHWARTZ, 2004).
As altas taxas de criminalidade e homicídios são, portanto, um fenômeno que tem se ampliado nas grandes cidades, associado tanto ao tráfico como aos fortes incrementos da pauperização social e da precariedade urbana resultante das transformações no mercado de trabalho e no processo de urbanização. A situação de periferia e de exclusão social, portanto, passa a incorporar vulnerabilidade e riscos advindos de um conjunto complexo de causas e determinantes mais amplos, que afetam, notadamente, crianças e jovens.
Nas duas últimas décadas, como observado por Kilsztajn (2001), o número de homicídios explodiu:
em 1980, de acordo com a Fundação Nacional de Saúde do Ministério da Saúde [...], foram registrados 1.480 homicídios de residentes na Cidade de São Paulo, que equivale a uma taxa de 17,4 homicídios por 100 mil habitantes; em 1999 foram registrados 6.653 homicídios, que equivale a uma taxa de 66,7 por 100 mil habitantes.
De 1999 a 2003, os homicídios, que constituem a segunda principal causa de morte entre os homens, registraram decréscimo, indicando uma inflexão que precisa ser mais bem estudada e compreendida:
no ano passado, 4.627 pessoas do sexo masculino [ou seja, cerca de 93% de um total de 4.999 pessoas] foram assassinadas na Capital, segundo dados do Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade no Município de São Paulo - Pro-Aim, da Secretaria Municipal de Saúde (TERRAZ, 2004).
Essa queda pode ser mais bem avaliada pela comparação dos coeficientes de homicídios, entre 2001 e 2003, que variaram negativamente: entre os dez distritos mais violentos, em 2001, os índices situavam-se no intervalo de 117,5 a 75 homicídios por 100 mil pessoas; já em 2003 este valor oscilou entre 88 e 61 por 100 mil habitantes, uma faixa ainda elevadíssima (MAGALHÃES, 2004). Uma particularidade dos homicídios em São Paulo é sua concentração nas áreas periféricas: dez dos 96 distritos da cidade de São Paulo - que apresentam os maiores índices de exclusão social - concentraram 40% dos assassinatos.
Em 2003, os piores colocados no ranking dos assassinatos, de acordo com Magalhães (2004), foram Guaianases, Brás, Grajaú, Jardim Ângela, Parelheiros, Jardim São Luiz, Cidade Dutra, Marsilac, Parque do Carmo e Sé. Inversamente, os distritos de Moema, Alto de Pinheiros, Jardim Paulista e Perdizes tiveram taxas por 100 mil habitantes de, respectivamente 1,46; 4,74; 6,48 e 7,05. Destaque-se todavia a presença de distritos das áreas centrais (Brás e Sé), que se caracterizam por amplos contingentes sociais residentes em cortiços de grande precariedade, o que favorece situações de violência, como a dos intermediários que cobram as mensalidades e os conflitos interpessoais agravados pelos constrangimentos da precariedade habitacional.
As áreas com maior presença de violência reduzem as expectativas de vida do conjunto da população:
a expectativa de vida dos moradores de Guaianases (zona Leste), um dos distritos mais violentos da cidade, é 12 anos menor do que a esperança de vida ao nascer dos habitantes de bairros como Jardim Paulista, Consolação e Perdizes (GÓIS; ATHIAS, 2002).
Porém, devem se considerar outras manifestações e enfoques para a delinqüência e a violência, de origem e natureza diversas, que podem ou não orbitar em torno do tráfico, como a disseminação das armas letais e, em determinadas situações sociais, os valores ligados à banalização da vida e à valorização imediatista do consumo para alcançar o "respeito" social. A extrema pauperização, evidentemente, contribui para o aumento das agressões e crimes contra a pessoa e o patrimônio. Estas questões, que têm origem eminentemente econômico-social, podem ser aprofundadas enquanto problemas sociais, de forma integrada com ações de segurança pública.
A pesquisa Vidas nuas, mortes banais,1 realizada com famílias das vítimas de violência fatal, oferece dados contundentes sobre as condições e motivações dos homicídios: "em São Paulo, a violência dos atos simples dos homicídios está escondida nas suas periferias" (MARSIGLIA et al., 2003).
Os dados mostram como o desenho urbano e os territórios estão relacionados à violência de um modo bastante direto, denotando a vinculação desses eventos aos constrangimentos inerentes às situações de precariedade urbana e à exclusão social, especialmente ao desalento causado pela exclusão social. Mesmo assim, o principal motivador para a exposição ao crime (praticando-o ou sendo vítima) está na venda de drogas:
os meninos passam a ganhar mais que os pais e acabam invertendo a relação de poder dentro de casa (MARSIGLIA et al., 2003).
Envolvidos com o tráfico estão cada vez mais expostos à violência, seja pelas disputas internas de poder entre as organizações criminosas, seja pelos embates com a polícia.
Do total de 3.415 registros de homicídios (entre setembro de 1998 e outubro de 1999), a amostra selecionou 840 que permitiram entrevistar 391 famílias de vítimas de homicídio, a seguir caracterizadas:
São geralmente jovens de 18 a 33 anos, especialmente na faixa de 22 a 25 anos (91% homens). Seis em cada 10 vítimas nasceram na Capital. 78% dos bairros visitados não tinham qualquer centro esportivo disponível para a população. O cinema não faz parte do cotidiano, as pessoas entrevistadas nunca viram, menos ainda o teatro. 81,6% dos bairros não têm biblioteca. A configuração urbana social e cultural da região facilita o aumento do número de homicídios. A ociosidade nas ruas é muito grande, não tem trabalho, não tem cultura, a distância do Centro é muito grande, a condução é cara, as pessoas ficam nos bairros. 76,5% das vítimas moravam no bairro há mais de 10 anos; 15,9% sempre moraram no bairro; 18,6% tinham passagem pela Febem e 23,2% já tinham passado por presídio. 22,5% dessas mortes esperadas eram por dívida de tráfico; 15,5% por vingança, de alguma situação acontecida e 11,8% estavam juradas de morte. Em 25% dos casos das famílias estudadas, estas esperavam que a vítima fosse assassinada, a própria vítima já esperava ser assassinada (MARSIGLIA et al., 2003).
Observa-se, portanto, que há condicionantes sociais que devem ser considerados na formulação de políticas públicas mais adequadas para a redução dos conflitos fatais. Apesar da importância da questão do tráfico e de sua flagrante ilegalidade, as medidas de penalização poderiam considerar a realidade social dos jovens envolvidos, "aviões, olheiros ou noinhas" - que por vezes têm apenas tênue vínculo com o comando e estão distantes da execução de ações violentas.
LIMITES DAS POLÍTICAS DE SEGURANÇA PÚBLICA NAS PERIFERIAS
A ação das forças de segurança pública, especialmente das polícias, como citado anteriormente, não está dissociada da explosão da violência criminal e da consolidação de redes de tráfico de drogas em torno de bairros pobres, situações essas que, favorecidas pela ausência do Estado, produzem formas de poder baseadas na coerção e no constrangimento das comunidades residentes em assentamentos precários.
A especificidade dos órgãos de segurança pública relaciona-se ao seu caráter especial de detentores legais dos meios de exercício da violência, de que o Estado detém o monopólio legal, delegando a aplicação das respectivas competências junto à sociedade civil. A transição da ditadura à democracia, de forma "lenta, gradual e segura", não assegurou suficientemente a discussão da natureza e dos objetivos das instituições do Estado, apesar da Constituição de 1988. Dessa forma, a política de segurança pública expressa e reafirma, para o bem e para o mal, esse Estado que representa. Essa implicação recíproca alcança, de maneiras diversas, os diferentes níveis do Estado, implicando, além do poder Executivo, o Judiciário e o Legislativo.
A questão da segurança pública, assim, não deve ser analisada separadamente da sociedade urbana com as características daquela aqui analisada, em que o Estado não desenvolveu instrumentos amplos de inclusão econômica, urbanística e social.
As mortes de civis pela polícia, que batem recordes ano a ano, expressam uma política e estratégias próprias de um Estado autoritário, mostrando a dissociação entre ação policial e realidade social.
Como esses organismos foram estruturados na perspectiva da repressão política e policial, ficam bastante evidentes as raízes históricas da violência policial: a violência policial fatal cometida por PMs de São Paulo, que vitimou, de 1990 a março de 2000, 6.565 pessoas (MARIANO, 2000).
Em 2003, foram registradas
756 mortes em confronto com PMs em serviço, [que] representam um recorde anual nas estatísticas desde 1996 [...]. Em 2002, foram 541 mortes; em 2001, 385 (PENTEADO, 2004).
Levantamento da Ouvidoria das polícias Civil e Militar, de 2000, mostrava que
51% das pessoas que tinham sido mortas nessa situação tinham sido baleadas pelas costas (PENTEADO, 2003).
Segundo Hélio Bicudo (apud PENTEADO, 2003), "a violência policial é incentivada pelo Estado", sendo assim "é claro que ela vai aumentar".
Referindo-se à realidade do Rio de Janeiro, Luis Eduardo Soares (2001) toca na questão da percepção das violências observadas no cotidiano das favelas:
a comunidade é submetida, em seu cotidiano, a duas formas de opressão, a tirania do tráfico e o despotismo da polícia. Ambos são temidos, causam horror e repugnância, mas o segundo é considerado mais grave, porque não segue qualquer regra, qualquer código de conduta que permita a elaboração de estratégias de sobrevivência eficientes.
É importante, portanto, problematizar um padrão repressivo de ação das forças policiais, favorecido pelo desaparelhamento do sistema judiciário, que aparece como elemento historicamente recorrente nas estratégias voltadas à resolução de conflitos nas periferias. Uma questão que pode ser trabalhada nesta direção é a renovação dos regulamentos que legitimam a atuação repressiva, propiciando uma revisão estrutural das polícias.
Parece essencial considerar as periferias como espaços cidadãos, extremamente populosos e carentes da presença do Estado que, como tais, requerem a presença de juízes, promotores, delegados:
por que não temos, por exemplo, em São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, um juiz de direito, um promotor público, um delegado de polícia morando lá, em vez de residir nos Jardins? Deveriam dar o expediente lá, morando lá, porque essa regra de o juiz morar na sua circunscrição judiciária é regra constitucional não obedecida (BICUDO, 1997, p. 71).
De fato, a pesquisa Vidas nuas, mortes banais apurou também a dificuldade que essas famílias têm em acessar a justiça, por razões econômicas ou falta de conhecimento, e que gostariam de poder confiar no Estado para não precisarem "fazer justiça com as próprias mãos" ou viver com medo de represálias: com relação aos processos, 59,3% das famílias não se mostraram satisfeitas com o desfecho (muitos casos são arquivados pela justiça por falta de provas ou porque o suposto réu morreu).
Em 27,5% dos casos as famílias não sabem o que aconteceu com o processo; só 16% foram procuradas pela polícia para informações depois do homicídio, o que mostra que os homicídios são registrados e esquecidos lá, não há uma investigação que vá apurar as causas da morte (MARSIGLIA et al., 2003).
Em 47% dos casos não foi instaurado o processo judicial, em 7,4% o processo foi arquivado, só se encontraram 9,4% dos casos em andamento:
foram analisados 296 processos no fórum: 82% foram arquivados ainda na fase de inquérito, ou na fase processual, 4% encontraram algum desfecho na justiça. Nos 296 homicídios, entretanto, apenas 7 réus foram condenados (MARSIGLIA et al., 2003).
POLÍTICAS PÚBLICAS DE ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA
A questão dos crimes e da violência é mais tratada como problema policial do que social. Embora a questão das drogas esteja na agenda governamental em tentativa de modernização, incorporando conceitos de redução de danos, de descriminação do porte de drogas para uso individual e pautando a integração das ações em segurança pública, o debate do tema deve superar desde logo o enfoque estritamente repressivo, incorporando outros aspectos.
É preciso apontar aqui o desafio de compreender que a associação da violência às condições sociais de pobreza não significa uma tendência ou predisposição dos pobres à violência, pois isto corresponde a uma dupla penalização das populações periféricas. Nos anos 90, segundo Zaluar (1998),
a generalização de imagens da cidade como um ambiente violento e os sentimentos de medo e insegurança dela decorrentes passaram a fazer parte do cotidiano dos seus moradores, mas atingiram particularmente os que vivem nas favelas e bairros pobres alimentando os círculos viciosos da violência cotidiana em que os pobres tornam-se os mais temidos e os mais acusados, justificando a violenta e injusta repressão que sofrem.
O enfoque tradicional legitima a via da reclusão dos envolvidos em crimes, que recai forçosamente sobre os mais pobres, independentemente da natureza dos crimes cometidos. Com isto, tanto jovens como adultos, eventualmente de baixa periculosidade, conduzidos à reclusão, passam a conviver com violências e coerções que podem (e tendem) conduzi-los a envolvimento com grupos organizados, dívidas, achaques, delações, etc. A pesquisa aqui apresentada sobre vítimas de violência mostrou, de fato, que 18,5% das vítimas de homicídio haviam passado pela Febem e 23,2% pelo sistema prisional, o que é um percentual muito alto.
A estigmatização dos jovens envolvidos naturaliza as práticas que colocam como única alternativa de punição os sistemas correcionais disponíveis, em vez de outras possibilidades mais adequadas, especialmente para os crimes menos graves, como a liberdade assistida ou outras previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA.
Embora outras manifestações de violência, como a vitimização de crianças e adolescentes, de gênero e até mesmo os crimes banais estimulados por circunstâncias específicas, como o uso de álcool e drogas, atravessem as diferentes classes sociais, é possível que tenham maior incidência nas regiões de maior exclusão social, devido aos múltiplos constrangimentos e tensões cotidianas envolvidos.
As referências a respeito da violência criminal não diminuem a importância de se entender a violência comum, cotidiana, da exclusão social, que alarma e violenta os moradores das periferias. Trata-se da violência das situações que desgastam a auto-estima, tais como a precariedade habitacional e urbana, o acesso precário à saúde, especialmente para tratamentos complexos ou para obtenção de remédios, a falta de vagas na educação infantil e no ensino médio, a violência no trânsito (que também é intensa na periferia), bem como a precária mobilidade e as dificuldades de acesso aos bens e serviços disponíveis nas áreas consolidadas, devido ao custo dos transportes.
A violência criminal, cumpre destacar, tem um impacto psicossocial muito significativo, pois nas periferias quase todas as famílias vivenciaram ou conhecem relatos de situações de violência muito próximas. No caso da pesquisa de Marsiglia et al. (2003), verifica-se que 56% das vítimas deixaram filhos, muitos dos quais assistiram a morte dos pais. Ou seja, não há mais como enfrentar a violência unicamente sob a ótica da criminalidade - apresenta-se um novo caminho em que compreendê-la como forma de expressão dos conflitos e interesses diversos é essencial.
Segundo a Oficina de Idéias (2003), o desafio é tecer esse conceito e, a partir desse ponto, construir uma nova maneira de lidar com a problemática, elaborando estratégias e ações que considerem essa nova visão do problema, pois
numa dimensão ela [a violência] é realidade alheia e hostil à realização mais plena das tentativas democratizantes da sociedade em todos os níveis (da marginalização do pequeno criminoso até a repressão militar de conflitos trabalhistas), [assim como em outros aspectos, ela é] expressão limite de articulações culturais dinâmicas, a opção para reivindicar exigências sociais justas, a forma de apresentar novas identidades culturais ou ressimbolizar a situação de marginalidade, dando, assim, início a uma tentativa de superação da exclusão social.
Mucchielli sugere que, para entender a violência, deve-se considerar que
parte importante da delinqüência urbana seja sempre ligada à questão das desigualdades sociais, sobretudo nas sociedades que se querem democráticas e que pretendem que cada um possa aceder à riqueza e ao consumo (POBREZA..., 2002, p. A-17).
Se na realidade esse "sonho moderno" é reservado apenas a uma parte da população, a outra parte às vezes será submissa e resignada, mas às vezes será rebelde e violenta.
Marilena Chauí (1986, p. 56-57) amplia a análise para toda a sociedade, pontuando a existência de mecanismos de diferenciação social e urbanística entre classes sociais:
sem sombra de dúvida, o padrão de moradia reflete todo um complexo processo de segregação e discriminação presente numa sociedade plena de contrastes acirrados.
De fato,
com a fragmentação ou declínio dos espaços políticos, as expressões da violência são uma espécie de "avesso do político enfraquecido" e indicam, de certa forma, uma perda, déficit ou ausência de conflito, expressando uma defasagem entre as demandas subjetivas de grupos ou pessoas e a oferta política, econômica, institucional ou simbólica: a violência é a voz do sujeito não reconhecido, rejeitado e prisioneiro da massa desenhada pela exclusão social e pela discriminação racial (WIEVIORKA apud OFICINA DE IDÉIAS, 2003).
Considerando a reflexão desenvolvida, verifica-se que o principal aspecto que incide na redução da violência é a inclusão social e o desenvolvimento econômico, como indicado pela pesquisa conduzida pelo Ipea. Não menos importante é a governabilidade, entendida como a presença do Estado, através do fortalecimento das políticas sociais - educação e saúde - e da gestão estatal cotidiana nos territórios. Porém, a presença do Estado deve ser integradora das ações nos diferentes níveis governamentais e explorar intensamente a inter-setorialidade, com intensa participação social e envolvimento das redes de atores sociais ligados à dinâmica social e política das regiões periféricas. De fato, a eficácia das ações não pode prescindir da participação social, desde a identificação dos problemas a serem enfrentados, até o planejamento das ações concretas e o controle social de sua implantação. É possível verificar uma enorme diferença na apropriação coletiva de espaços modificados segundo investimentos governamentais, em função do grau de participação e adesão dos segmentos sociais beneficiários da ação.
A auspiciosa redução da violência mortal indicada pelos dados apresentados pode ser entendida como resultado de múltiplas causas.
Porém, dadas as prerrogativas das políticas públicas no âmbito municipal e o longo interregno em que, durante os anos 90, as questões sociais foram relegadas e a política econômica levou centenas de milhares de pessoas ao desemprego e à informalidade - ocasionando uma brutal precarização das condições de vida nas regiões mais pobres -, há que se reconhecer a importância das ações conduzidas por esse nível de governo.
A descentralização político-administrativa, criando as subprefeituras, a disseminação da inclusão digital nas periferias ou a experiência dos Centros de Educação Unificada são exemplos que apontam para a viabilidade de reduzir a distância entre Estado e sociedade nas regiões mais precárias, restituindo os poderes sociais da comunidade no embate com as formas de violência institucionalizadas. A consolidação desta nova realidade, ampliando os mecanismos de participação social na gestão descentralizada das políticas, poderá representar um novo marco na inflexão das injunções históricas nesses territórios, que levaram a violência a esse padrão epidêmico.
Têm importância na redução da violência também a ampliação do policiamento preventivo e comunitário, reforçado pela reestruturação da Guarda Municipal e criação da Secretaria Municipal de Segurança Urbana, que desenvolve experiências de formação de Comissões Civis Comunitárias, em subprefeituras que apresentam altos índices de violência (identificando e encaminhando demandas que a população percebe como fontes de violência).
As periferias foram estruturadas de forma desordenada, propiciando, assim, a constituição de situações que configuram uma verdadeira "arquitetura da violência" (LEITE, 2004), em que habitações precárias, falta de iluminação, áreas abandonadas, estruturas viárias caóticas, organizadas sem a presença do Estado, possibilitaram o desenvolvimento de espaços favoráveis às manifestações de violência.
O Projeto Bairro Legal, desenvolvido pela Secretaria de Habitação, em parceria com a instituição Cities Alliance, produziu, sob coordenação metodológica do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos da FAU-USP, uma proposta metodológica e planos de ação, renovando as abordagens de planejamento para a melhoria habitacional. Coordenado por Ermínia Maricato e, em seguida, por João Whitaker, teve como um de seus resultados a reflexão denominada "A Violência Urbana e o Plano de Ação Bairro Legal", em que aprofunda o papel da qualificação habitacional na diminuição da violência (LABHAB/FAU-USP, 2003).
Este projeto contribuiu na identificação das demandas prioritárias junto à população e às diversas instâncias do poder público envolvidas na perspectiva do diagnóstico das condições sociais e habitacionais e da qualificação dos espaços, com intervenções integradas que atuem sobre as manifestações de violência. Estes planos foram desenvolvidos no Jardim Ângela, Brasilândia e Cidade Tiradentes, em função do elevado grau de exclusão social e violência.
No âmbito da melhoria urbanística e habitacional, a transformação dos assentamentos precários em bairros integrados à cidade, garantindo a segurança na posse (impedindo a reintegração sumária de glebas ocupadas e regularizando favelas em áreas públicas e loteamentos), reconstrói enclaves precários, adequando a infra-estrutura e propiciando o atendimento aos serviços básicos e as políticas públicas essenciais.
Um destaque específico deve ser dado aos programas sociais implementados pela prefeitura de São Paulo, que estão contribuindo para a diminuição da violência na cidade, mais especificamente com impacto na redução do número de homicídios. Um estudo realizado pela Secretaria de Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade indica que,
nos treze distritos atendidos pela secretaria desde 2001 houve queda de 21,8% na taxa de homicídio por 100 mil habitantes, enquanto nos 37 locais atendidos desde 2002 o decréscimo foi de 16,6%, no período de 2001 a 2003. Já nos distritos que ainda não contam com os programas sociais, a redução foi menor, de 10,4% (SALGADO, 2004).
Cabe observar que os 13 distritos atendidos eram os mais pobres e violentos da cidade.
Verifica-se, portanto, que, para além das condicionantes macroeconômicas que impedem a inflexão nas tendências históricas de ampliação da desigualdade social, há caminhos para desenvolvimento de políticas públicas que incidam na redução dos homicídios. Trata-se de amplo leque de políticas públicas sociais e de qualificação habitacional e urbana que envolvem e atingem as camadas mais vulneráveis à violência. Tudo leva a crer que, ao serem implementadas, associadas a mecanismos progressivos de descentralização do poder e à ampliação da participação social, se reduz a violência. Estas constatações permitem retornar à assertiva apresentada na epígrafe, no sentido de que a criação de poderes sociais tem a potencialidade de se sobrepor progressivamente à presença da violência territorializada, colocando em xeque a normatividade do tráfico de drogas e a criminalidade organizada, que teria estendido sua ação para além das fronteiras naturais de seus "negócios". Outro aspecto relevante é a necessidade de rediscutir as políticas de segurança pública, reduzindo as mortes de civis e superando uma concepção de que constituiriam uma espécie de esfera institucional autônoma - essencialmente repressiva. Voltando o Estado a se fazer progressivamente presente, através de políticas sociais e da restauração de sua importância na gestão da vida social nas áreas periféricas, torna-se necessária, portanto, a integração das ações dos distintos níveis governamentais para o combate às causas dessa violência, colocando lado a lado todos os agentes públicos que incidem sobre essa realidade, exatamente como acontece na divisão de prerrogativas das diferentes esferas estatais na cidade rica e estruturada. Acima de tudo, onde se criam condições para o exercício do poder, na gestão da vida das comunidades periféricas, junto ao poder público, as organizações sociais e a população crescentemente organizada, ganha-se espaço da violência instituída e se avança na direção, apenas aparentemente paradoxal, da institucionalização da presença do Estado nas áreas mais necessitadas.
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NOTAS
Artigo desenvolvido a partir da tese de doutorado do autor, intitulada "Periferia: um estudo sobre a segregação socioespacial na cidade de São Paulo" (HUGHES, 2003). 1. A apresentação pública da pesquisa foi gravada e transcrita em 08 de julho de 2003.
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segunda-feira, 23 de abril de 2007
SEMINÁRIOS ANTROPOLOGIA VISUAL - RTV - GRUPO III E IV
21/05 GRUPO III
Revista de AntropologiaPrint ISSN 0034-7701
Rev. Antropol. vol.48 no.2 São Paulo July/Dec. 2005
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doi: 10.1590/S0034-77012005000200009
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ARTIGOS
Assistir, ouvir, ler e narrar: o papel da mídia nas construções identitárias étnicas1
Maria Catarina Chitolina Zanini
Professora adjunta do Departamento de Ciências Sociais - UFSM-RS
RESUMO
Este artigo objetiva analisar algumas relações existentes entre as identidades étnicas e a mídia, em especial a televisão. Partindo-se de pesquisa etnográfica entre descendentes de imigrantes italianos na região central do Rio Grande do Sul, no Brasil, tomou-se como estudo de caso a recepção da novela Terra Nostra, exibida pela Rede Globo de Televisão em 1999-2000. A recepção da telenovela favoreceu a reflexividade acerca da noção de pertencimento "italiano" e promoveu uma série de diálogos entre a tradição imaginada e alimentada em nível local e aquela transmitida pela televisão. Esses diálogos centravam-se, em particular, sobre a questão de gênero, a sexualidade, as narrativas do processo colonizador e os elementos diacríticos presentes na italianidade paulista, que entravam em desacordo com os padrões valorativos locais.
Palavras-chave: identidade étnica, italianos, televisão.
ABSTRACT
This paper aims to analyze some of the relations that exist between ethnic identities and the media, especially television. Springing from ethnographic research on the descendants of Italian immigrants in the state of Rio Grande do Sul, in Brazil, the reception of the television soap opera Terra Nostra, broadcasted by Globo broadcasting network in 1999-2000, was used as a case study. The reception of the soap opera favored the reflection of the notion of "Italian" belonging and encouraged a series of dialogs between the imagined and locally perpetuated tradition and that, which was transmitted on television. In particular, the questions of sex, sexuality, narratives of the colonization process and the diacritical elements present in the community of Italian descendants in São Paulo were some points in which there was a divergence from local value patterns.
Key-words: ethnic identity, italians, television.
Partindo de experiência etnográfica (de 1997 a 2001) entre descendentes de imigrantes italianos da região central do Rio Grande do Sul2, pretendo tecer algumas considerações, preliminares ainda, acerca da influência dos meios de comunicação, especialmente da televisão, nos processos de construção das identidades étnicas3. De que forma os meios de comunicação dialogam com os processos de construção das identidades étnicas? Há tensão em tais diálogos? A identidade étnica é um mediador de recepção da mídia ou esta interfere diretamente nos processos identitários? De que forma a televisão ou a imprensa fortaleceriam ou mesmo criariam memórias familiares e grupais? Enfim, essas são algumas das questões que pretendo problematizar no presente artigo.
No ano de 1999, enquanto realizava pesquisa etnográfica, estava sendo exibida, pela Rede Globo de Televisão, no horário nobre das "8", a novela Terra Nostra, que narrava a saga dos emigrados italianos para o Brasil: a saída da Itália, a travessia, a chegada a São Paulo, os desencontros, as expectativas e suas trajetórias enquanto imigrantes em solo brasileiro. Escrito por Benedito Ruy Barbosa e dirigido por Jayme Monjardin4, o melodrama televisivo possuía como eixo central as desventuras de um casal de jovens emigrados, Matteo e Giulianna, que se apaixonaram durante a travessia e que, posteriormente, acabam por ser separados um do outro pela força das circunstâncias. A novela apresentava também a proletarização dos imigrantes italianos nos cafezais paulistas, a situação dos negros recém-libertos, a edificação da cidade de São Paulo e suas elites. Em suma, tentava proporcionar um panorama do Brasil em finais do século XIX.
Durante a etnografia, muitas conversas e diálogos com informantes tiveram início nos comentários sobre o desenrolar da novela. Não que eu provocasse isso, mas, ao começar as entrevistas, uma das primeiras questões era: "você viu o capítulo de ontem, o que você achou?". E assim prosseguia. Eram especialmente as mulheres que me indagavam dessa forma, apesar de Terra Nostra ter sido uma novela muita assistida pelos homens também. O melodrama me permitiu uma inserção em domínios específicos, tais como relações de gênero, padrões sexuais, histórias familiares, herança, casamento, trabalho, racismo, alimentação, vestuário, noções de tempo e de espaço, de lazer, dialetais etc. Enfim, cada capítulo me possibilitava conhecer um pouco mais dos descendentes de imigrantes italianos locais e dos seus valores. Como eu já estava efetuando trabalho de campo desde 1997, observei que a novela proporcionou uma nova linguagem para a italianidade local. Tive bastante trabalho para conseguir estabelecer parâmetros comparativos entre as narrativas, pois, após a exibição da novela, as histórias dos "antigos", dos antepassados, eram, muitas vezes, narradas conforme a linearidade emprestada pelo drama televisivo. Os acontecimentos presentes nos primeiros capítulos, tais como a morte de emigrantes na travessia5, o medo de que as famílias fossem desfeitas, as doenças, o desrespeito por que alguns imigrantes passavam eram postos centralmente nas narrativas, o que no período anterior à novela não ocorria dessa forma. O que ocorria eram narrativas acerca das italianidades que enfocavam marcadamente eventos e personagens localmente conhecidos, integrantes de uma certa familiaridade assentada no passado e, por meio das quais, o descendente situava a si mesmo e aos demais. Eram narrativas que privilegiavam o projeto colonizador e o papel dos pioneiros mais do que o trajeto migrantista e suas particularidades e subjetividades, como fez a novela. Não havia espaço para romance, e os detalhes anteriores à chegada das famílias aos lotes coloniais praticamente inexistiam. Embora a travessia fosse sempre mencionada, eram raros os descendentes que a narravam em "detalhes". Depois da novela, falar sobre a travessia se tornou algo muito importante (e obrigatório). Somavam-se narrativas locais, familiares e de outros descendentes àquelas emprestadas pela novela, e cada família refazia o que teria sido a travessia de seus antepassados de acordo com sua capacidade interpretativa e sua posição social atual - ressalto.
Antes da novela Terra Nostra, outro aspecto já havia chamado a minha atenção: a forma como determinados agentes interétnicos6 influenciavam as narrativas das memórias familiares. Mesmo que cada família tivesse a própria história para contar, a maneira como os entrevistados entendiam que essa deveria ser narrada a mim era algo que me inquietava. Havia uma tendência de supor que eu acharia relevante se falassem de alguns episódios, em especial da morte de vários italianos no Barracão, no qual foram instalados os primeiros imigrantes em 1877-1878, na localidade denominada de Val de Buia, onde hoje está construído o Monumento do Imigrante. A morte daqueles imigrantes está narrada nas páginas do memorialista Julio Lorenzoni, jovem migrante de 14 anos que deixou registradas suas lembranças da travessia, do processo colonizador e das particularidades do encontro entre o velho e o "novo mundo" representado pela América7. Muitos dos memorialistas locais ou dos indivíduos que escreveram as memórias familiares fizeram uso das informações ali contidas, o que permitiu que essas fossem usadas como versões oficiais da migração e do processo colonizador local. Essas versões "oficiais" findaram por imprimir uma marca narrativa às histórias particulares de cada família, um determinado eixo. Ressalto novamente: isso não quer dizer que cada família não possuísse sua trajetória particular, contudo, o caminho narrativo escolhido era aquele que já estava sedimentado em nível local como "o acontecido". A ele se acresciam fatos pitorescos, genealogias e o colorido dado a eventos lidos, do presente, sobre o passado, processo esse que denominei memórias em construção8.
Quanto à imprensa, durante meu trabalho de campo de 1997 a 2001, tive acesso a várias memórias familiares escritas por descendentes sobre as sagas familiares e também sobre a história de determinadas localidades. A influência de algumas dessas narrativas é bastante grande e deixa marcas nas reconstruções coletivas. Antes da novela Terra Nostra, tal aspecto já me chamara a atenção, e em cada conversa, em cada entrevista que fazia, estava atenta para isso. Por vezes, refiz entrevistas sobre as trajetórias familiares para observar melhor como o processo se dava, contudo é importante ressaltar que a novela emprestou uma certa tonalidade (e subjetividade) à ancestralidade que antes não existia. Penso que os estudos etnográficos sobre grupos étnicos devem dialogar com os meios de comunicação e suas linguagens e estar atentos às narrativas por eles divulgadas para poder perceber a dinâmica dos movimentos discursivos, como os que presenciei em minha pesquisa. Tais movimentos podem ser sutis, por vezes, contudo desvelam as ricas dinâmicas das construções identitárias.
Por que estudar as relações entre os meios de comunicação de massa e as identidades étnicas?
Essa é uma questão para a qual tenho procurado respostas. A importância dessa relação me foi ressaltada por meio da experiência em campo, como acima relatado. Antes dela, refletir acerca da dialética relação que se estabelece entre os meios de comunicação e as identidades étnicas seria algo, talvez, não muito relevante. Contudo, foi a pesquisa etnográfica que me possibilitou observar que as identidades, que são construtos individuais e coletivos que se refazem constantemente, têm na contemporaneidade dialogado intensamente com os meios de comunicação, em especial com a televisão e suas linguagens. Segundo Martín-Barbero (2003), a identidade étnica seria um mediador entre o receptor e a mensagem recebida. Para o autor, os receptores não seriam seres passivos, mas fariam leituras culturalmente mediadas, partindo de sua condição de classe, étnica, familiar, religiosa etc. Concordo parcialmente com ele, contudo, penso que não se pode esquecer, no contexto latino-americano e particularmente no brasileiro, que o modelo de televisão que se tem é hegemônico no sentido de transmitir um determinado estilo de vida e padrões de consumo tidos como mais "modernos" e aceitáveis. Dessa forma, diria que as identidades étnicas, ao sofrerem o impacto das mensagens televisivas, também são renegociadas. O que quer dizer, enfim, que a televisão ou a literatura seriam meios amplamente reflexivos por meio dos quais os grupos e os indivíduos podem reconsiderar suas opções e tradições. Esses meios possibilitam inúmeras leituras, como se verá.
A questão da reflexividade da televisão foi muito bem exemplificada por Lila Abu-Lughod (1997 e 2003) por meio de seu trabalho etnográfico no Egito. Segundo ela, escrever sobre televisão naquele país, na Indonésia ou no Brasil é escrever sobre a articulação entre o transnacional, o nacional, o local e o pessoal (1997, p. 13)9. O aspecto reflexivo adviria da possibilidade da mensagem televisiva permitir ao indivíduo e aos grupos pensarem a si mesmos10. A novela Terra Nostra promoveu esse debate, seja do ponto de vista do reconhecimento do italiano local na telenovela ou do não reconhecimento, este advindo do fato de os descendentes considerarem muitos dos aspectos apresentados na telenovela como promíscuos e distantes da realidade de seus antepassados. Os italianos vistos em nível nacional eram italianos, mas "não eram os italianos daqui". Com essa ressalva, negociavam-se estereótipos, representações, gostos e comportamentos, seja "dos italianos" ou de alguns personagens em particular, o que conduzia, inevitavelmente, a questionamentos pessoais e à revivificação das memórias pessoais, familiares ou mesmo grupais. Estava aberto o processo reflexivo.
Concordo com Kottak (1990) quando aponta que a televisão tenderia a mudar alguns hábitos comportamentais e conformaria uma teleconditioning, pela qual, em níveis muito subjetivos e específicos, transformaria a relação das pessoas umas com as outras e com o mundo à sua volta11, constituindo novas formas de sentimento comunitário. No caso do Brasil, diz ele, não seria uma cultura norte-americana que a televisão promoveria, mas sim uma cultura nacional "pan-brazilian" (id., p. 16). Nesse pan-brasilianismo, há que se considerar as hierarquias internas, nas quais ocorre a valorização de determinados tipos sociais em detrimento de outros. Portanto, se a televisão, em certa medida, reflete a sociedade e suas contradições e complexidades, não se pode dizer que esse veículo não tem um enorme potencial para trabalhar positivamente determinadas características de grupos, como foi feito por meio da novela Terra Nostra com os descendentes de italianos, principalmente na primeira parte da novela.
Já os personagens negros presentes nesta não elevaram a auto-estima da população negra na época, tanto que, em vários momentos, alguns membros do movimento negro e intelectuais se manifestaram por meio da mídia criticando a representação dos negros. Sueli Carneiro (1999), em artigo denominado "Terra Nostra, só para italianos", afirmava que a subserviência e o infantilismo dos personagens negros da novela tenderiam a reiterar a versão preconceituosa "de uma humanidade incompleta do negro", a qual se contradiria à completude humana do branco, mesmo, segundo ela, de brancos de classes subalternas como os italianos apresentados no drama. Os diálogos em que os negros apareceriam levariam a tais conclusões, bem como algumas considerações tecidas sobre eles por parte dos personagens brancos.
Diria que, do ponto de vista que este artigo pretende trabalhar, pode-se afirmar que a novela serviu não somente para que os descendentes de italianos refletissem acerca de sua condição social, mas também para os afro-descendentes, talvez de pontos de vista distintos nos diferentes momentos da novela. A celeuma teria sido forte o suficiente para que o autor do melodrama, Benedito Ruy Barbosa, segundo o informativo Brava gente brasileira, remediasse a situação no decorrer da novela, especialmente no tocante às crianças negras. Segundo a reportagem, Benedito teria afirmado que os personagens negros dos meninos Tiziu e José Alceu cresceriam e conquistariam posições sociais de destaque por meio do estudo (Masson, 2000, p. 3).
Episódios como esse mostram o poder que a televisão tem de formar, transformar ou mesmo de conformar estereótipos. O receptor, como sujeito ativo, contudo, pode com eles concordar ou não. Segundo Médola (2004, p. 8), o texto televisual de ficção possuiria como característica fundamental a verossimilhança que, por meio das estratégias discursivas empregadas, criaria o efeito de parecer verdade, mesmo não sendo. Observei em minha etnografia que os indivíduos lidam bem com essas contradições. Irritam-se quando as cenas não condizem com o que pensam ou gostariam que fosse, no entanto, entendem que é uma novela e que a "televisão é uma máquina de fazer dinheiro" (descendente, sexo masculino, 21 anos). Enfim, aceitam o que gostam e se desfazem do que não gostam considerando a lógica na qual esse tipo de lazer está incluído.
Os portugueses e seus descendentes também estariam reclamando do tratamento a eles dado na televisão brasileira, almejando transformar o estereótipo presente nas novelas. Segundo reportagem da Revista Época de 8/7/2002, alguns consideravam que estavam sendo ridicularizados pela ficção nacional, enquanto os italianos seriam heróis. Na novela Esperança12, exibida em horário nobre na Rede Globo de Televisão, isso tenderia a mudar, segundo reportagem da revista. É dito que o personagem português que comporia o drama não iria usar "tamancos nem bigodão". Essa novela narrava a história de vários grupos de imigrantes em São Paulo, inclusive italianos, tanto no meio urbano como rural já no século XX. A reportagem afirmava que, se o autor Benedito Ruy Barbosa, que "teria sangue das duas culturas nas veias", pudesse definir o traço fundamental da cultura italiana, diria que seria a passionalidade, e o da portuguesa, a severidade. Com isso, pode-se perceber a complexidade do campo da produção das telenovelas e das representações interétnicas ali inseridas, que vai desde concepções pessoais de autores a interesses mercadológicos de amplo alcance13.
Compreendo a televisão como um meio reflexivo e a recepção como um processo dialógico e criativo pelo qual os grupos e indivíduos podem pensar sobre si mesmos e sobre suas trajetórias. Concordo com Borelli quando critica aquela visão que concebe a novela somente como um produto de uma indústria, um simples entretenimento distante dos bens culturais (2001, p. 3). Segundo ela, mediados por suas experiências cotidianas e por repertórios oriundos de suas posições de classe, gênero, geração, etnia e formas de subjetivação, os receptores mergulhariam nas narrativas, dialogando com as dimensões da videotécnica, "estabelecendo conexões de projeção e identificação e construindo uma competência textual narrativa" (id., p. 18). Para Orozco-Gomez (2003, p. 2), os estudos de recepção seriam uma opção para entender não somente os sujeitos sociais contemporâneos nas interações que estabelecem entre os meios e as tecnologias de informação, mas também os processos socioculturais, políticos e econômicos maiores dos quais participam. Embora durante meu trabalho de campo nem cogitasse efetuar um ER (estudo de recepção), mesmo porque considero a televisão um veículo cultural que interage no interior de um contexto maior que não poderia ser analisado isoladamente, foi por meio da literatura oriunda dessa produção científica que consegui visualizar a riqueza do material que tinha em minhas mãos, isso tempos depois da novela Terra Nostra já ter terminado. Por exemplo: não cogitei visitar rotineiramente meus informantes à noite para com eles assistir à novela e fazer uma "etnografia da recepção" propriamente dita. Muitas vezes, ao chegar à casa das pessoas, assistia com elas ao Video Show14, e dali surgiam comentários e assim a conversa prosseguia. Contudo, em minha família extensa e na de meu marido, ambas descendentes de imigrantes italianos, pude, com certa densidade, participar do processo de recepção da novela, sempre assistida e comentada.
Ainda durante meu trabalho de campo nos anos de 1999 e 2000, devido à importância delegada à novela pelos descendentes de imigrantes italianos, optei por elaborar um questionário-padrão com perguntas sobre a novela como um todo. Apliquei esses questionários em turmas de estudantes de língua italiana nos cursos da Associação Italiana de Santa Maria e da Agência Consular local em abril de 200015. Justifiquei, na época, a aplicação desse instrumento como um recurso a mais para compreender os elementos que, por meio da pesquisa etnográfica, eu já havia detectado. Ele foi elaborado com 11 questões dissertativas, tais como: Você assiste a novela e por que? Você acha que a novela reflete a realidade dos imigrantes italianos no Brasil? Quais seus personagens preferidos? Por quê? Uma das questões solicitava que avaliassem se o drama, nos aspectos apresentados de sexualidade, moral, religiosidade, família, trabalho e alimentação, refletia a realidade dos imigrantes e por quê. Elaborei também questões específicas sobre a mulher e os comentários que estariam, porventura, ouvindo acerca da novela. As questões foram oriundas de tensões que observava no trabalho de campo, especialmente no tocante ao comportamento sexual e aos valores religiosos dos personagens italianos que eram severamente criticados por meus pesquisados. Solicitei aplicar os questionários nos cursos de italiano, pois considerava que os mesmos, por congregarem estudantes em vários turnos e de várias idades e classes sociais, possibilitariam um olhar mais atento sobre determinadas questões para os descendentes de imigrantes italianos. Serão as respostas dadas a esses questionários utilizadas para fins de análise no presente artigo.
"Nem polenta tinha" - era só festa
A polenta, um dos símbolos culinários locais que remetem à imagem dos pioneiros italianos, foi apontada pelos descendentes de italianos questionados como pouco presente na novela16. O excesso de festas e dança associado à comida também não agradou. Segundo os descendentes, se havia festas, estas se davam em dias e ocasiões especiais e não com tanta freqüência como mostrava a novela. Era como se o italiano daqui trabalhasse mais e de forma mais árdua do que a televisão estava mostrando. Contudo, uma entrevistada de 45 anos, descendente de segunda geração, diz que sua mãe, uma senhora já idosa, ficava "fascinada" assistindo às cenas de festa na novela, e que seriam justamente estas que a fariam "retornar ao passado". Esse tipo de comentário faz supor que, conforme Halbwachs (1990), permanecendo na memória aquilo que é partilhado socialmente, a novela, mesmo não fazendo justiça ao que os descendentes locais considerariam correto, promoveu a revivificação de determinadas memórias. Nesse processo, dialética de indivíduo e coletivo, não importaria tanto como as festas seriam mostradas na ficção, mas aquela outra festa, que estava lá na memória da descendente e que, partindo das imagens televisivas, pôde ser narrada, comentada ou citada em um questionário, como feito pela filha daquela senhora a mim.
Uma descendente salientou que, quanto à alimentação, a novela em nada reproduzia a realidade dos italianos locais: "Não há pão, salame, polenta!", respondeu ela. A mesma entrevistada diz que utensílios típicos da cozinha italiana não apareceram na novela. Outra entrevistada, de 21 anos, diz que na novela "só aparece o macarrão". Em matéria publicada no Clipping Diário do Povo, de 20/2/2000, é colocado que "Novela dispara o ibope do macarrão - Novela de italianos dá água na boca e aumenta a receita dos fabricantes de macarrão caseiro". Segundo a reportagem, os fabricantes do setor estariam sentindo reflexos positivos nas vendas, e a novela seria "uma propaganda gratuita dos costumes italianos". A indústria Adria teria, inclusive, lançado um macarrão com o nome Terra Nostra. Nessa mesma reportagem, era exposto por um dono de Pastifício de Campinas que, após a novela, o ponto alto das vendas seria o macarrão tipo talharim e que o cliente já chegaria pedindo o "macarrão da Paola"17. Para Almeida, que realizou pesquisa etnográfica da recepção da novela O Rei do Gado em Montes Claros-MG, não se pode esquecer que a televisão brasileira se desenvolve similarmente ao crescimento do mercado consumidor e de uma cultura consumista no país (2005, p. 1). Enfim, elementos que se intercruzam na televisão como expressão cultural e como veículo comercial e que poderíamos denominar de campo de produção e recepção das telenovelas.
Um entrevistado de 37 anos diz que não era possível nem fazer comparações com a alimentação da IV Colônia de Imigração Italiana, ou seja, a comida daqui seria mais italiana e melhor do que aquela mostrada na televisão. Ele mesmo critica que, na novela, não aparecem os animais, tão apreciados na alimentação dos italianos, como o porco, por exemplo. Uma entrevistada, descendente de terceira geração, 28 anos, quando questionada se a novela refletia historicamente a realidade dos imigrantes no tocante à alimentação respondeu que:
"Sim, reflete. Na casa de Leonora, sempre a polenta está presente nas refeições e, na colônia italiana, tudo é motivo de comida".
Nessa resposta se observa o quanto a novela, mesmo se passando em um cenário espacial distinto daquele dos imigrantes italianos locais, fez com que as imagens espaciais dialogassem. O espaço das fazendas de café passa a ser interpretado como o "espaço da colônia", ou seja, evoca na descendente referências ao que ela atribui significação como um "espaço de italianos", e a polenta, embora apontada como ausente por muitos, esteve presente na resposta dessa entrevistada em particular. Essas questões nos possibilitam refletir sobre as múltiplas leituras que a imagem televisiva proporciona, permitindo, por vezes, ressignificações que dialogam com as categorias locais e que fazem com que ficção e "não ficção" se intercruzem abertamente nos imaginários individuais.
Outro entrevistado, 37 anos, descendente de terceira geração, respondeu que "tem a polenta e o vinho, mas falta a salada". Os elementos de uma culinária reconhecida como tipicamente italiana em nível local são, portanto, reivindicados, e a novela, por não exibi-los ou por exibi-los pouco, faz com que, nesses espaços de tensão, o indivíduo possa refletir acerca de seus hábitos culturais e afirmar positivamente, como opção, determinados hábitos e gostos que seriam "típicos e os melhores" porque seus. Há que se compreender que, quanto à questão da alimentação, os descendentes de italianos locais a colocam como parte de um determinado "estilo de vida" e, quando reivindicam italianidade, fazem-no também aludindo a todos os elementos que estariam presentes nela, como pratos, preferências gastronômicas e técnicas de preparo que conotam determinado controle de emoções e disciplina. As saladas verdes representaram uma fronteira adscritiva importante entre eles e os "brasileiros", considerados pouco apreciadores de verduras no início do processo colonizador, fato referenciado em várias passagens literárias. Remetem também ao trabalho da terra, na qual os italianos produziam o que os nativos não conseguiam, segundo eles, fazer. As verduras representam um gosto calcado na disciplina sobre a terra e o trabalho constante nela. No mesmo gosto alimentar promovedor de fronteiras identitárias, estariam a polenta, o pão colonial, a "cuca"18, a sopa de capeletti, o risoto, o vinho, o salame, o queijo colonial, as "chimias"19, entre outros. Percebe-se que a televisão permitiu uma certa visibilidade das fronteiras adscritivas locais em referência à comida, seu preparo e consumo e aquele que era apresentado na novela. Para se comer, entre os descendentes por mim pesquisados, ainda se observam determinadas regras: primeiro as mulheres servem aos homens, depois servem às crianças e finalmente elas se alimentam. A novela apresentava a refeição como algo "de festa", o que fazia desaparecer toda uma estrutura hierárquica familiar que está envolta no "ato de comer". Tanto o que se comia na novela como a forma de se comer não condiziam com as leituras locais. Nesse aspecto, a questão da comida possibilitou não somente reflexões sobre a alimentação, mas sobre valores também, e o relevante, creio eu, é que tenha se mantido como algo narrativamente importante na definição das fronteiras das italianidades locais.
A novela do "casa-separa, casa-separa" - redefinições de gênero, família e sexualidade
As mulheres italianas presentes na novela só foram reconhecidas por sua dedicação ao trabalho. A personagem principal, Giulianna, foi alvo constante de severas críticas, pois não seria boa mãe, nem corajosa e forte, como os descendentes atuais pensam que devem ter sido suas antepassadas. Giulianna foi o antiexemplo: infiel, egoísta, pouco dedicada aos filhos e à família e chorona em demasia. Além do mais, segundo os questionários, as mulheres da novela seriam pouco submissas. As "antigas" não teriam vida própria, viveriam para a família, obedecendo às ordens do pai e depois às do marido e filhos, modelo que ainda pode ser encontrado entre camponeses descendentes de italianos20.
A infidelidade das personagens femininas e sua falta de apego aos filhos foram fortemente criticadas também. Segundo os estrevistados, isso estaria produzindo estereótipos negativos sobre a "mulher italiana". Para uma entrevistada de 22 anos, sexo, entre italianos, era permitido somente depois do casamento. Para ela, as mulheres da novela seriam muito promíscuas e agora "falam mal das mulheres italianas". Outra entrevistada, de terceira geração, diz que a sexualidade das italianas era muito reprimida e que muitas a negavam e, talvez, houvesse algumas que conseguissem vivê-la sem pensar em pecado. Contudo, a noção de pecado não aparece nas principais personagens italianas femininas: Giulianna engravida solteira e Paola tem amantes. Da mesma forma, foi respondido que "a mulher da época não andava solta" como aquelas presentes na novela (descendente de terceira geração, 37 anos). Enfim, as noções de corpo, sexualidade e padrões sexuais apresentadas na novela, de certa forma, chocavam-se com as representações ideais acerca da "mulher italiana", fosse a do passado ou a do presente que, embora inserida em universos mais individualistas, mantém ainda uma vinculação forte com a família enquanto um valor a ser preservado, o que, por vezes, demanda-lhe sacrifícios e que abdique de projetos pessoais que tragam risco à unidade familiar. Para os descendentes por mim pesquisados, fossem os do meio urbano ou rural, a sexualidade feminina é ainda um tabu e a "boa conduta" das mulheres é altamente valorizada e exigida. As sanções ao desvio desse "ideal feminino" podem ser a fofoca, o isolamento, a exclusão, o que finda por estigmatizar aquela identidade feminina, tornando-a não mais potencialmente apta ao mercado matrimonial ou ao convívio público mais amplo. As descendentes mais jovens reclamam disso, contudo estão cientes do peso de suas opções quanto à sexualidade.
Um dos elementos que fez com que a novela, a partir de determinado momento, deixasse de ser apreciada e assistida em algumas famílias foi o fato de que o casamento não era uma instituição levada a sério entre os personagens. A novela não teria sido fiel à noção de casamento monogâmico presente entre os italianos locais. Uma entrevistada, de 21 anos, descendente de quarta geração, diz que a família italiana era muito mais conservadora e patriarcal, "na qual o pai era o último e único a dar palpite". Outro entrevistado, 59 anos, comenta que a mulher italiana não se expunha tanto, era mais conservadora do que aquelas presentes na novela. Além disso, ressalta ele, aquelas famílias italianas da novela tinham poucos filhos, diferente do padrão camponês local. Ou seja, a mulher italiana ideal era a mamma, pouco sensual, religiosa, com uma prole extensa e totalmente devota aos seus.
Os personagens preferidos foram, em disparada, o casal Leonora e Bartolo que, segundo as respostas, mais perto chegavam do ideal do imigrante: fiéis, trabalhadores, ambiciosos, respeitosos, apegados à família e empreendedores. Um entrevistado, do sexo masculino, com 21 anos, diz que o casal parece
"ser um retrato mais fiel da imigração, não fazendo cenas que ofendam a imagem dos italianos vindos para o Brasil".
O mesmo entrevistado diz que, na novela, não aparecia, de forma nenhuma, o papel importante desempenhado pela mulher imigrante no repasse da religião a seus filhos. Segundo ele, "não há religião nas famílias", e a moral das italianas atuais e do passado estaria sendo ofendida pela da novela. Outra entrevistada, 40 anos, fala que aquelas mulheres seriam avançadas demais para a época, e as italianas seriam "mais recatadas, trabalhavam e se dedicavam à família e à religião". O comentário entra em consonância com as características ainda pouco individualistas dos imigrantes em finais do século XIX. Numa sociedade tradicional, em sua maior parte camponesa, na qual as regras familiares e coletivas eram rígidas, as mulheres não se davam o direito de vivenciar o amor romântico, separando-se, deixando filhos e pensando somente em seus interesses, como fez a personagem Giulianna21. A figura ideal da mulher italiana é a da mulher abnegada, que pensa primeiramente no coletivo e depois em si mesma. Pode-se dizer, assim, que o individualismo atribuído àquelas personagens é, em muitas famílias, irrealizável ainda hoje. Como um padrão urbano, classe média, ele não condiz com as representações do feminino e de gerações existentes entre os descendentes de italianos em Santa Maria. Assim responde uma entrevistada de 23 anos:
"Independentes e saidinhas demais. Acho que as italianas obedeciam mais aos maridos".
A mesma entrevistada disse que o comportamento masculino apresentado na novela também não estava sendo bem retratado, citando o exemplo do personagem Francesco, que teve uma amante (Paola), parecendo tudo muito "normal". Segundo ela, "é muito absurdo". O casal Bartolo e Leonora, escolhido como modelo, representaria o amor respeitoso, a luta e o trabalho, características idealizadas nos antepassados22. A falta de respeito pela instituição familiar demonstrada pelos outros personagens italianos chocava. "Como", perguntou um entrevistado, "sendo eles tão tementes a Deus, fariam sexo antes do casamento ou abandonariam suas famílias daquela forma?" Uma entrevistada de 45 anos, descendente de segunda geração, questiona o carinho dos homens italianos da novela para com as mulheres. Diz ela: "Eles não eram tão carinhosos com suas esposas".
Outra entrevistada, do sexo feminino, de 38 anos, diz:
"Creio que na época não existia tanta troca. Troca de marido e mulher, acho ridículo isso. Acredito que não acontecia isso, e também muitas cenas pesadas para o horário e a época".
Segundo um entrevistado de 66 anos, a novela teria "desdourado o caráter italiano" devido aos padrões sexuais transmitidos. Um descendente de 24 anos ressaltou que:
"Era um tempo em que a mulher se dava muito valor: trabalhar em casa, cuidar dos filhos etc.".
Durante meu trabalho de campo, as reclamações que mais ouvia eram de que a personagem Giulianna chorava muito e que "as antigas" não eram assim, não teriam tempo para isso. Primeiro sob a autoridade paterna e posteriormente sob a autoridade do marido, sempre com muitas ocupações, as imigrantes são representadas como mulheres fortes e não chorosas. Em minhas conversas, ao mesmo tempo em que as descendentes demonstravam certa piedade dela, cravavam-lhe críticas. Era por meio dela que distinguiam e reconstruíam a imagem das "antigas", completamente opostas à dela.
Nesse sentido, penso que a novela promoveu debates acerca dos papéis femininos atuais e passados. Quando fazia entrevistas com mais de uma geração presente, encantava-me com as tensões provocadas pelo drama televisivo, fosse sobre casamento, sexualidade ou maternidade. As gerações mais novas, apesar de não concordarem com a personagem, entendiam que, contemporaneamente, algumas mulheres italianas poderiam agir assim. Contudo, "as antigas" não agiriam como Giulianna23.
Uma entrevistada de 30 anos, descendente de quarta geração, respondeu no questionário que
"em parte, no passado havia traição como hoje, mas nunca na voz de todos, à frente de todos".
Outro entrevistado, de 55 anos, descendente de terceira geração, respondeu que a sexualidade apresentada na novela
"é uma filosofia [...] enfraquecer e desvirtuar a família, promovendo a promiscuidade".
O caráter sério e respeitoso atribuído às antepassadas foi, de certa forma, violado pelas imagens televisivas: muito erotismo e uma sexualidade diferente daquela experimentada entre os italianos do passado e, mesmo, entre os descendentes de italianos atuais. Ou seja, houve e ainda há entre os descendentes de italianos uma sexualidade marcada pela noção de pecado, destinada à procriação e não ao prazer, o que faz com que o comportamento dos personagens fosse largamente chamado de promíscuo, uma vez que estes colocavam seu desejo acima das normas coletivas.
O "pioneiro" não estava lá
Uma entrevistada, quando questionada se havia, por parte dela, identificação com a história narrada pela novela, respondeu que não,
"porque meus avós se estabeleceram nessa região e passaram muitas dificuldades, tiveram que começar do zero".
A colocação faz sentido quando se observa a tônica local acerca dos "antigos", ou seja, de que foram desbravadores, que derrubaram matas, que desenvolveram as localidades para as quais se dirigiram, que trouxeram progresso e civilização. Na novela, o italiano se dirigia para fazendas de café com plantações já em andamento ou ficava nas cidades, o que fez com que a figura do pioneiro não tivesse tanto sentido como teve aqui. Outra entrevistada, de 20 anos, descendente de quarta geração, declarou que não assistia à novela porque esta não caracterizava a vida do "nosso italiano":
"Tanto é que a novela está mostrando mais a boa vida da sociedade paulistana do que o trabalho árduo e penoso de nossos imigrantes".
A categoria trabalho, da forma como estava sendo apresentada na novela, não criava identificações. Outra entrevistada, de 22 anos, descendente de quinta geração, respondeu que:
"Primeiramente, acho que a realidade da imigração italiana é muito triste e, se fosse relatada na sua 'real', não daria tanto Ibope. A novela reflete um pouco do que gostaríamos que tivesse sido a imigração".
A mesma entrevistada quando questionada acerca dos comentários que estaria ouvindo da novela reforça que o amor estaria sendo bem relatado, mas que a imigração italiana não estava sendo retratada em seu aspecto sofrido, árduo, mas como um processo tranqüilo, o que ela consideraria mentiroso. As únicas cenas que foram dignas de consideração para ela são as "do navio":
"Cenas de muito realismo, cenas que emocionaram todos os filhos de imigrantes que conheço".
Outra entrevistada, descendente de terceira geração, respondeu que a novela não contou a história dos imigrantes:
"Em relação às dificuldades que são mostradas, parecem 'adocicadas'. Os relatos passados por meus familiares são tristes".
A tristeza foi algo constante em vários questionários, como se o excesso de festa e cantoria presente entre os imigrantes apresentados na novela desmerecesse a saga dos antepassados24. Outra entrevistada, descendente de terceira geração, diz que a novela passou uma visão distorcida para os adolescentes e as crianças, uma vez que a realidade dos imigrantes foi muito mais "cruel". Diz ela:
"As pessoas de mais idade podem rever algumas cenas que relembram o que passaram ou ouviram falar de seus pais. O bom é estar próximo deles para ouvir suas críticas".
Havia a preocupação com que a novela subtraísse a força com que a saga dos pioneiros é contada, pois muito da positividade do italiano local adviria de seu empreendedorismo, de sua capacidade de abnegação e trabalho, elementos que a novela não estaria mostrando a contento. Além disso, no melodrama, o imigrante não é o civilizador, ele vem substituir a mão-de-obra escrava, e sua relação com a terra é mediada pela figura do patrão. Enfim, a América mostrada não é a da liberdade e da propriedade, símbolos fortes entre os imigrantes locais quando justificam a travessia efetuada por seus antepassados.
A religiosidade que não apareceu
A religiosidade, um dos sinais diacríticos mais fortes entre os descendentes de italianos locais, segundo eles, não esteve presente na novela. Não havia missas, terços, procissões, práticas presentes entre os mesmos. Aqueles imigrantes apresentados na televisão seriam pouco religiosos se comparados com os daqui. Uma entrevistada, descendente de quarta geração, disse:
"Italiano é o católico fervoroso e de amor aos santos e a Deus. Reza seu terço todas as noites, faz novena, vai à igreja, e o padre é o grande conselheiro familiar".
Contudo, o tipo ideal de católico religioso muitas vezes é atenuado quando se faz pesquisa sobre a prática religiosa entre os descendentes atuais. A religiosidade é um sinal diacrítico importante, porém mais como uma referência de vida do que propriamente pela prática dos rituais católicos. A mesma entrevistada acima exposta respondeu no questionário que a sua religião era o espiritismo. O que causava indignação em alguns descendentes era a figura dos antepassados que não encontrava respaldo nos imaginários locais, pois aqueles são tidos como exemplos a serem seguidos através das gerações, e o imigrante italiano seria católico25, mesmo que seus descendentes tenham feito opção por outra religião.
Outro entrevistado, 59 anos, diz que a religiosidade dos italianos era muito diferente, e não era só nos batismos e casamentos que havia obediência à doutrina. Enfim, o italiano vivia a religião como algo que encompassava a totalidade de sua vida e não simplesmente os aspectos rituais. O padre que apareceu na novela foi amplamente criticado por beber demais e não ser convicto de sua vocação, o que desagradou a alguns descendentes daqui, que ainda consideram o padre um exemplo coletivo. O espaço doméstico do italiano apresentado na novela não condizia com o local, no qual as casas dos descendentes têm, em sua quase totalidade, fortes referências ao catolicismo, como imagens de santos, "santinhos", crucifixo, terços etc. Há casas, inclusive, nas quais encontrei "altares" em que eram postos imagens de santos, fotos de familiares, flores, folhetos de novenas, folheto de orações, terços e outros objetos "bentos". Nesses "altares", é comum, durante algum momento do dia, alguém parar para fazer uma oração, uma petição ou mesmo para "pensar na vida", uma vez que é considerado um espaço sagrado dentro do mundo doméstico. O hábito de rezar o terço à noite e fazer as orações antes de dormir também não fora apresentado na novela, o que provocou descontentamentos. Os descendentes de italianos locais, em contraste com "aqueles" da telenovela, poderiam reafirmar a importância da religião em suas vidas e, dessa forma, esse sinal diacrítico adquiriria maior sentido, uma vez que muitos não conseguem conceber uma existência sem o preenchimento de uma prática religiosa, mesmo que não seja a católica.
Reflexividade, memórias e subjetivação
Uma descendente de segunda geração, 45 anos, respondeu o seguinte ao ser questionada sobre sua identificação com a novela:
"Sim, como descendente, a novela me toca, e o sangue fala mais alto".
Essa resposta remete à recorrente relação entre sentimento de pertencimento étnico e subjetivação. Compreendo que algumas identificações étnicas contemporâneas e, especialmente, a dos descendentes de italianos por mim estudados se configuram como tentativas dos indivíduos de elaborarem acerca de si mesmos uma noção de trajetória na qual as origens desempenham um papel decisivo. A saga dos antepassados, as histórias familiares se elencam no rol dos elementos que contribuem para tal empreitada. Na medida em que a identidade de ítalo-brasileiro é positivada localmente, a linhagem de ascendência também elevaria a auto-estima dos descendentes nos mercados de bens simbólicos locais. Da mesma forma, os elementos presentes nos processos de pertencimento trazem uma série de atributos com forte carga emotiva, o que permite que os indivíduos se expressem de forma mais subjetivada. A novela Terra Nostra, em minha compreensão, possibilitou essa subjetivação.
Quando as mulheres descendentes se questionavam, comparavam e criticavam os comportamentos das personagens femininas, estavam refazendo leituras de si mesmas, de suas opções e trajetórias de vida. Repensavam suas famílias, a educação de seus filhos, seus casamentos, a fidelidade e os tabus envolvidos nas questões sexuais. Constatei que a novela abriu uma porta para que muitas mulheres, mesmo discordando do comportamento liberal das personagens femininas, pensassem sobre aqueles temas, em especial sobre sua sexualidade26.
Diria que esse processo reflexivo tenso, pelo qual se procura afirmar aquilo que se é através da negativa do que não deveria ser, efetivou-se entre os descendentes não somente na questão dos papéis femininos e masculinos, da religiosidade, do trabalho e da alimentação, mas também na própria noção de pertencimento ítalo-brasileiro. Para Lopes, a ficção é um lugar privilegiado para se narrar a nação, seja ela representada, imaginada ou disseminada (2004, p. 32). A teleficção tenderia a criar uma comunidade emocional. No caso por mim estudado, diria que se estabeleceu uma comunidade emocional virtual de descendentes de imigrantes italianos que, embora separados imaginariamente como "os de lá" e "os daqui", evocavam sentimentos de pertencimento similares, em especial na primeira parte da novela. Considero importante observar como os indivíduos e grupos se posicionam diante das narrativas midiáticas, que são também disseminadoras de noções de tempo, espaço e papéis sociais específicos. A resposta que segue se inscreve nessa perspectiva, quando a descendente diz que a novela
"recria a história para que possamos resgatar o conhecimento de nossa identidade como italianos".
Um descendente, cuja mãe seria filha de italianos, respondeu que
"ela espera ansiosamente o horário da novela, porque vê, retratados na tela, cenas de sua infância, objetos, roupas, veículos etc.".
Outro descendente de terceira geração, 31 anos, diz que as famílias que ele conhecia assistiam à novela, criticavam-na muito, entretanto, continuavam a assisti-la. Da mesma forma, nos cursos de italiano, houve um consenso de que a novela provocou uma "moda" que aumentou significativamente o número de alunos em nível local. Pode-se pensar como Martín-Barbero, quando salienta que os meios debilitam "el pasado y diluyen la necesidad de futuro" (2001, p. 3). Embora não concordando de todo com o autor, respaldo sua idéia de que não há memória sem conflito27, pois os descendentes de italianos locais percebiam que a história dos antepassados poderia estar, segundo eles, sendo distorcida e criticavam severamente a novela, alguns, inclusive, deixando de assisti-la. Contudo, não há como negar o orgulho que sentiam ao verem exposta, no horário nobre da televisão brasileira, uma novela que narrava a imigração italiana. Chamou-me a atenção que a escritora Zélia Gattai, descendente de italianos, publica, em 2000, Cittá di Roma, obra na qual narra a vinda de seus avós para o Brasil. Segundo reportagem publicada no Estadão.com.br, de 1/5/2000, a autora teria declarado que a idéia de contar a saga dos avós surgiu ao acompanhar a novela Terra Nostra28, mostrando, assim, a força da mensagem televisiva sobre os descendentes como um todo, em especial no começo da exibição da novela29.
De acordo com Bonin, que realizou estudo de recepção da novela Suave Veneno30 entre camponeses descendentes de alemães e italianos na cidade de Urubici-SC, as categorias de trabalho, poupança, planejamento do futuro e religiosidade operariam mediações significativas na recepção daquela telenovela, funcionando como sistema de referência pelo qual o melodrama seria interpretado (2002, p. 23). Observo que esse processo também se deu entre os descendentes que pesquisei. Pode-se dizer que a alteridade dialogava no tempo e no espaço da recepção (e após esta também). Os personagens eram elogiados ou desmerecidos conforme suas atitudes perante determinadas circunstâncias e, assim, o indivíduo poderia questionar "Eu, como descendente de italianos, agiria desta ou daquela forma?", exercitando a reflexividade que tal tipo de narrativa midiática propicia. Isso não quer dizer que, no caso da novela Terra Nostra, os valores individualistas apresentados no melodrama enfraqueceriam uma noção de pertencimento coletivo, mas sim que a força de muitas regras tidas como tradicionais entre os descendentes (como a religiosidade, o apego à família e ao casamento) acabou, inclusive, por ser fortalecida. Foi por meio do processo reflexivo que muitos valores vigentes foram justificados e que a saga idealizada dos antepassados foi revitalizada.
Uma descendente, 21 anos, de quarta geração, respondeu que sua avó não assistia mais à novela porque tudo ali seria mentiroso e
"só teria cenas de sexo. Ela prefere assistir ao Ratinho que é mais 'real'".
Como salienta Sousa, a relação entre mídias e sociedade e entre emissor e receptor é conflitiva (2004, p. 8). O que interessa ao antropólogo nesse processo é perceber como os conflitos se desenvolvem e quais os elementos presentes neles. No que concerne às identidades étnicas, observar, especial e atentamente, quais sinais diacríticos são acionados para interpretar os personagens, suas falas e ações, para estabelecer fronteiras entre "eu" e "eles". Isto é, aquilo que gera desacordos e o que não geraria. Ronsini, ao elaborar estudo de recepção entre mulheres camponesas descendentes de italianos na localidade de Três Barras-RS, observou que os membros mais velhos da comunidade acreditavam que os jovens se deixavam influenciar pelo que viam na televisão e, por isso, apoiavam, sem êxito, as tentativas da Igreja para inibir, por meio de sermões nas missas ou de interdições, tais comportamentos tidos como urbanos ou muito modernos (2001, p. 101)31. Penso, como Almeida (2003), que a televisão e a novela promoveriam uma certa "educação dos sentimentos", que se daria concomitantemente a um processo reflexivo, no qual os indivíduos, ao "lerem" as representações televisivas, começam a se comparar32. Compreendo ser nessas identificações-distinções que residem muitos dos elementos que interessam ao antropólogo investigar.
Concordo com Orozco-Gomes (2003) quando salienta que, nos intercâmbios comunicacionais, deve ser observada a criatividade e iniciativa pessoal dos sujeitos. Em reportagem do Clipping Diário do Povo, de 20/2/2002, o presidente da Casa D'Itália de Campinas teria declarado que concordava com a influência da novela Terra Nostra na vida do campineiro (e de todo o país) "no sentido de ela estar resgatando a cultura italiana - um resgate do próprio orgulho de se ter descendência italiana". Não somente entre italianos esse processo se daria. Quando a Rede Globo de Televisão escolheu a atriz Taís Araújo para protagonizar a novela das 19 horas, Da Cor do Pecado, no ano de 2004, também ocorreram questionamentos sobre a forma como os negros eram retratados no melodrama. A atriz teria declarado à revista Raça Brasil que veria sua participação como um degrau importante para o fim do preconceito (Oliveira & Pavan, 2004, p. 2).
Partindo da literatura consultada na área de comunicação, observei que faltam pesquisas mais específicas para analisar como os processos de negociação de significado se desenvolvem33. A etnografia34, dessa forma, em muito poderia contribuir para desvendar os bastidores dessas tensões. Contudo, as pesquisas deveriam estar voltadas para o universo cultural mais amplo, no qual a televisão é um entre tantos outros elementos presentes. Do mesmo modo, penso que deveriam ser conduzidos estudos de outros meios de comunicação, como o rádio35, a imprensa, a Internet, a indústria musical etc.
Considerações finais
Compreendo que os meios de comunicação influenciam direta e indiretamente no processo de construção das identidades étnicas, seja no mundo rural ou urbano. Não há como negar a importância, no caso por mim estudado, das memórias familiares e individuais escritas e divulgadas, dos programas de rádio, dos jornais e, especialmente, da televisão. Para Ronsini, a televisão se consolidaria como um veículo privilegiado de informação e lazer e que funcionaria como "mediação fundamental entre a realidade vivida e o mundo sonhado" (2001, p. 102). Concordo amplamente com a autora e compreendo, assim, porque a novela Terra Nostra, apesar de não agradar aos descendentes locais, continuava a ser assistida por muitos. O indivíduo exercia o distanciamento reflexivo de saber que aqueles personagens eram também italianos, "mas não os daqui", e que a novela era de época, "mas ficcional". Mesmo que fosse para discordar, ali estavam todos os dias prontos a assistir à "Giulianna chorar". E, quanto mais discordavam dos "italianos de lá", mais reforçavam os sinais diacríticos dos "italianos daqui", tais como a religiosidade, o apego à família e aos filhos, o trabalho árduo e o cultivo de determinados hábitos alimentares.
Esses elementos mostram que o receptor dialoga com as informações recebidas e sabe reconhecer que a telenovela é também uma forma de lazer e de entretenimento. O que não quer dizer, contudo, que não se preocupe com a repercussão que imagens e estereótipos negativos tenham na coletividade mais ampla. Especialmente no caso do comportamento das mulheres italianas, as descendentes sentiram que a forma como essas se comportavam na novela interferia na imagem que os "outros" poderiam fazer delas. O que mais desagradava, contudo, eram os arranhões provocados nas tipificações idealizadas dos antepassados, modelos a serem admirados e seguidos36. A literatura local acerca dos antepassados, por outro lado, poderia ser considerada como uma glorificação constante desses. Ela tem sido crescente, em tom memorialista, e, em meu entendimento, deve ser compreendida dentro do crescente autobiografismo que se tem observado na literatura como um todo.
Futuramente, devido às novas tecnologias, penso que haverá a necessidade de se estudar como se processam as negociações identitárias por intermédio da Internet e outros meios de comunicação37. Somente etnografias que estudem os grupos numa amplitude maior, numa thick description (Abu-Lughod, 1997, p. 9), podem conseguir compreender as interseções entre esses mundos que se encontram intercruzados nos processos de emissão e recepção das mensagens dos media.
Notas
1 Este artigo foi originalmente apresentado no XXIX Encontro Anual da Anpocs, em Caxambu, 2005.
2 Por região central, compreendo a cidade de Santa Maria e os municípios vizinhos, inclusive aqueles formadores da denominada IV Colônia (Silveira Martins, Agudo, São João do Polêsine, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Restinga Seca, Nova Palma Ivorá e Pinhal Grande).
3 Atualmente, desenvolvo um projeto de pesquisa intitulado Os "italianos" na imprensa santa-mariense (1990 a 2005), que pretende acompanhar a trajetória de visibilização desse grupo em nível local por meio da mídia impressa. Para tanto, estou formando uma hemeroteca, na qual tenho arquivado a aparição não só dos italianos, mas também dos alemães, judeus, sírio-libaneses, negros, poloneses, ciganos, entre outros. Pretendo, futuramente, fazer uma análise comparativa da forma de aparição desses grupos na mídia impressa local.
4 Ambos descendentes de italianos.
5 A cena da travessia apresentada no primeiro capítulo marcou fortemente os descendentes locais. Ela teria sido gravada no Porto de Southampton, na Inglaterra, no vapor SS Shieldhall, de 1940, e teria custado 1 milhão de reais. Cerca de 300 figurantes teriam participado da mesma.
6 Denomino de agentes interétnicos aqueles indivíduos que trabalham, voluntariamente ou não, em prol da valorização e da visibilização da cultura italiana em nível local, seja por intermédio das entidades italianas ou não. Santa Maria possui vários programas de rádio que exaltam e promovem o sentimento de italianidade. Alguns mais voltados para o meio rural e outros para camadas médias urbanas. Esses programas trazem uma forte carga emotiva em seus desfechos. A história do barracão é uma das narrativas que está constantemente sendo lembrada por meio deles. Da mesma forma, em nível local, há uma literatura crescente de memórias familiares e de lugares que acabam sendo interpretadas como versões oficiais acerca do processo imigratório.
7 Em artigo denominado "Lorenzoni: homem, migrante, letrado", analiso parte da trajetória desse migrante e a forma como retratou a experiência migratória.
8 Desenvolvido em minha tese de doutoramento denominada Italianidade no Brasil Meridional - a construção da identidade étnica na região de Santa Maria-RS.
9 Segundo a autora, "No Egito, assim como em outros contextos pós-coloniais, formas culturais como o melodrama televisivo, exibido pelas indústrias nacionais de televisão, são consideradas pelos agentes estatais e produtores profissionais de classe média como instrumentos eficazes de desenvolvimento social, consolidação nacional e 'modernização'" (2003, p. 77).
10 Concordo com Giddens quando ressalta que "a auto-identidade torna-se particularmente problemática na vida social moderna, particularmente nos períodos mais recentes" (1993, p. 40).
11 Segundo ele, "I became interested in television because I saw that its effects are comparable to those of humanity's most powerful traditional institutions - family, church, state, and education. Television is creating new cultural experiences and meanings. It is capable of producing intense, often irrationally based, feelings of solidarity and communitas ('community feeling') shared widely by people who have grown up within the same cultural tradition" (1990, p. 9).
12 Essa novela estreou em 17/6/2002 e seria uma espécie de "Terra Nostra II".
13 O campo de construção das telenovelas e o papel dos agentes nele envolvidos foram objeto de análise de Maria Carmem Jacob de Sousa. A autora, inspirada em Bourdieu, alerta que este, ao analisar o campo literário francês, observou que a oposição entre a criação artística desinteressada e as dimensões comerciais estruturaria o campo da produção cultural e artística como um todo. Partindo dessas premissas, Souza, ao analisar a trajetória de Benedito Ruy Barbosa, diz que o autor, mesmo escrevendo para uma televisão comercial, tem sido importante ao enfatizar em suas novelas a questão do poder, desde as práticas e instituições governamentais e sociais até as relações de dominação presentes na intimidade e nos relacionamentos amorosos (2000, p. 17). Enfim, ele seria considerado um agente transformador e polemizador e gostaria disso.
14 Programa exibido de segunda a sábado, pela Rede Globo de Televisão, às 13h45, no qual são reprisadas algumas cenas das novelas e entrevistados atores, atrizes, autores e diretores, o que faz com que o público tenha acesso aos "bastidores" das produções.
15 Os questionários foram aplicados solicitando informações sobre sexo, idade, religião, profissão e procedência geracional de ascendência italiana para os descendentes em abril de 2000. Contudo, deixei claro que poderiam responder somente aquilo que desejassem. Os não descendentes também responderiam, pois pretendia fazer uma análise comparativa. Esse material me permitiu um olhar diferente sobre a televisão e suas linguagens. Os questionários foram aplicados durante as aulas de italiano, na presença dos professores, após eu explicar os objetivos da pesquisa. Eu mesma apliquei os questionários, evitando debates a fim de que cada resposta pudesse ser o mais particular possível. Um dos professores de italiano que me auxiliou na pesquisa gostou tanto da temática que quis aplicar os questionários em uma pequena cidade da IV Colônia na qual também dava aulas. Estes últimos questionários não foram utilizados neste artigo, contudo, em termos comparativos, foram muito úteis. Utilizei-me somente dos questionários respondidos por descendentes, cerca de 55.
16 As falas utilizadas neste artigo são todas oriundas dos questionários respondidos por escrito e aplicados em abril de 2000. Sua grafia foi mantida na forma original.
17 Personagem descendente de italianos que começa a industrializar sua massa de macarrão na São Paulo urbana.
18 A "cuca" é uma espécie de pão doce. É um prato que possui a versão italiana, com mais massa e menos recheio, e a versão alemã, com menos massa e muita cobertura. A "cuca" local se assemelha a um pão colonial com cobertura doce.
19 Esse é o nome atribuído aos doces de frutas pastosas para passar no pão. Possuem textura cremosa, e o mais apreciado é o de uva.
20 Uma entrevistada, descendente de segunda geração, 58 anos, respondeu que "a mulher italiana era uma escrava do marido e dos filhos".
21 O personagem Matteo, que também abandona a mulher e o filho, não é criticado por isso. Seu comportamento não foi lembrado isoladamente em nenhum questionário.
22 Outros personagens lembrados foram Francesco, o banqueiro, em razão de sua ascensão econômica enquanto imigrante, e Paola, a jovem que abre uma fábrica de macarrão, por ser empreendedora e muito bonita.
23 Uma descendente, de quarta geração, 21 anos, respondeu que "as mulheres italianas eram mais ignorantes sobre sexo e nunca abandonavam os filhos (como Giulianna), nem respondiam aos pais e aos maridos (como Paola)".
24 Em artigo denominado "Sangue, suor e lágrimas", analiso o tom em que as sagas familiares e as histórias dos antepassados são narradas.
25 Ainda que se saiba do papel importante desempenhado pela maçonaria em Silveira Martins, sede da colônia no passado.
26 Como bem salienta Thomson, "ouvindo os mitos, as fantasias, os erros e as contradições da memória, e prestando atenção às sutilezas da língua e da forma narrativa, podemos entender melhor os significados subjetivos da experiência histórica" (2002, p. 12).
27 Diz Martín-Barbero que "para cada memoria activada hay otras reprimidas, desactivadas, enmudecidas, por cada memoria legitimada hay montones de memorias excluidas" (2001, p. 7).
28 Segundo o jornal, ela teria declarado que "assistir àquelas imagens dos imigrantes italianos sofrendo nos navios, e depois também em terra firme, fez com que todas as histórias que ouvi dos meus pais voltassem à minha memória" (2000, p. 1).
29 A força da mensagem televisiva sobre os descendentes foi muito sentida na fase inicial da novela, levando inclusive a que alguns desses escolhessem a novela como objeto de estudo. Strohschoen (2003), ao justificar a escolha de seu objeto para a tese de doutorado em comunicação social, declara que: "Qual é a sensação que você teria ao rever algo que fez parte de sua vida em tempo distante... De repente, você se depara com isso que pensava não saber, mas que era verdade... olhando de novo a mesma coisa que você escutou anos atrás como uma estória da vovó, reaparece agora como uma história de italianos numa telenovela" (p. 1-2).
30 Exibida pela Rede Globo de Televisão no ano de 1999.
31 Santos, ao efetuar a etnografia entre descendentes de alemães em Santa Maria do Herval-RS, observou que "a televisão aparece, portanto, como um bem simbólico demarcador e aglutinador de um conflito geracional e cultural. Através da oposição geracional entre jovens e idosos frente às mensagens televisivas, pode-se perceber a presença e a tensão entre os valores individualistas veiculados pela televisão e os valores mais tradicionais e hierárquicos presentes na comunidade" (1995, p. 99).
32 Diz ela, "Nesse sentido, proponho aqui uma leitura do conceito de Geertz de educação dos sentimentos (1989) junto com o processo reflexivo do eu proposto por Giddens (1991; 1993) acerca da alta modernidade. As novelas (entre outros programas dos meios de comunicação) ensinam ao público uma sensibilidade, uma estrutura de sentimentos, nos termos de Williams (1973; 1977; 1992), ou uma "educação de sentimentos", nos termos de Geertz" (2002, p. 42).
33 Excelentes estudos que têm trilhado esse caminho são as pesquisas de Esther Hamburger (2001), Veneza Ronsini (2000) e Heloísa Buarque de Almeida (2002).
34 Aquilo que Lila Abu-Lughod denomina de uma "thick description of television", a qual, segundo ela, "only a mobile ethnography can do justice to the ways these different worlds intersect" (1997, p. 9).
35 Exemplo disso está exposto no paper "A cultura ucraniana na radiodifusão paranaense", escrito por Zeneida Assumpção e Sérgio Luiz Gandini, apresentado no XXVI Congresso Brasileiro de Ciência da Comunicação, em Belo Horizonte, de 2 a 6 de setembro de 2003.
36 Para finalizar, gostaria de resgatar uma reflexão de Lila Abu-Lughod, quando diz que "I suggest that the study of television encourages an anthropology that engages not just with the academy and its 'big words' but with other social fields of the world in which we work" (1997, p. 4).
37 Mohammed Elhajji, em artigo denominado "Memórias das comunidades étnicas entre tempo e espaço", reflete acerca disso. Em Santa Maria, mediante a atuação dos Circolos (vêneto, vicentino, fiulano, lombardo etc.), criou-se uma rede internacional de pertencimento, que tem agregado e estabelecido novas linguagens de italianidade. Compreendo que pesquisas futuras deverão, necessariamente, deter-se nessas novas formas de sociabilidade criadas por essas novas tecnologias.
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Aceito em novembro de 2005.
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21/05 - GRUPO IV
Revista de AntropologiaPrint ISSN 0034-7701
Rev. Antropol. vol.47 no.1 São Paulo 2004
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doi: 10.1590/S0034-77012004000100006
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ARTIGOS
Estado-nação, identidade-para-o-mercado e representações de nação1
Igor José de Renó Machado2
Professor do Departamento de Ciências Sociais - UFSCar
RESUMO
Este artigo se propõe a explorar o conceito de identidade-para-o-mercado, criado a partir das idéias de Jameson, contidas em seu livro Pós-modernismo: a lógica cultural no capitalismo tardio, e explorado por meio de reflexões que remetem às questões, da minha pesquisa de doutorado, sobre a imigração brasileira no Porto. Apoiado nessa perspectiva, pode-se verificar o papel central do Estado-nação na produção e articulação de identidades-para-o-mercado e de imagens identitárias de fácil consumo num mercado global.
Palavras-chave: identidade, pós-modernismo, imigrações internacionais, Estado-nação.
ABSTRACT
This article aims to discuss the concept of market-identity, constructed from Jameson's book Post-modernism, or the cultural logic of late capitalism. The main idea is that the Nation-State stills the main player as producer of easy consumed market-identities in a global market.
Key words: Identities, Post-modernism, international migrations, Nation-State.
Introdução
A intenção deste artigo é, primeiramente, relacionar as idéias de Jameson (1996) sobre o pastiche ou simulacro da historicidade, características, para ele, de uma forma pós-moderna de cultura do capitalismo tardio, ao que chamarei de pastiche (ou simulacro) da identidade na mesma cultura pós-moderna, a identidade-para-o-mercado. Estabelecerei uma relação entre suas idéias sobre a falta de profundidade atual da percepção da história com processos que considero semelhantes na constituição das identidades (nacionais, étnicas) no mundo de hoje. Como exemplo de análise, recorrerei à situação dos imigrantes brasileiros em Portugal e ao processo de construção de identidades-para-o-mercado. Veremos que as representações de nação, tanto de Portugal como do Brasil, são fundamentais no desenvolvimento desse processo.
Também compararei a identidade-para-o-mercado com o que Said (1990) chamou de orientalismo, como exemplo do fenômeno do simulacro no mundo pós-moderno. Como primeira conclusão, refletiremos rapidamente sobre o papel do Estado-nação na sua conexão e responsabilidade no desenvolvimento das identidades-para-o-mercado.
1. Jameson e o pastiche da historicidade
Para analisar os processos de essencialização de identidade, elaboro o conceito de identidade-para-o-mercado com base nas idéias de Jameson, para quem a forma cultural do capitalismo tardio é a pós-modernidade. Segundo esse autor, o pós-modernismo seria marcado pelo pastiche da historicidade e deve ser visto como "a dominante cultural da lógica do capitalismo tardio" (1996, p. 72). Nesse sentido, ele afirma que a falta de profundidade, a superficialidade, um achatamento da percepção da história e uma cultura da imagem e do simulacro são constitutivos do pós-moderno. Proponho que o capitalismo tardio seja também marcado pelo "pastiche da identidade", que replicaria todas essas características do capitalismo tardio.
A fragmentação da pós-modernidade é marcada por um mundo "transformado em mera imagem de si próprio" (idem, p. 45). Nesse contexto, o passado é transformado em uma grande coleção de imagens, um "simulacro fotográfico". Esse repertório pode ser relacionado ao que Huyssen (1991) também imaginou como "acervo pós-moderno", embora buscasse nisso um lado positivo não encontrado em Jameson, para quem o simulacro esmaece a percepção da historicidade. Essa "lógica do simulacro, com sua transformação de novas realidades em imagens de televisão, faz muito mais do que meramente replicar a lógica do capitalismo tardio: ela a reforça e a intensifica" (Jameson, 1996, p. 72). Assim, vivemos uma "forma cultural de vício da imagem que, ao transformar o passado em uma miragem visual, em estereótipos, ou textos, abole, efetivamente, qualquer sentido prático do futuro e de um projeto coletivo" (idem, p. 72-3).
Esse é o raciocínio básico, o qual chamarei de "falta de historicidade", para relacioná-lo a uma semelhante "falta de historicidade" da identidade na pós-modernidade, ou seja, no capitalismo tardio3. Proponho uma ligação entre a falta de historicidade, como definida por Jameson, e a produção de culturas objetivadas4 no capitalismo tardio. O "pastiche" da história, ou seja, a própria falta de capacidade de representar a história, característico do capitalismo tardio, pode ser relacionado ao "pastiche" da identidade em sistemas capitalistas, que se torna cada vez mais solidificada, essencializada e objetivada, sem história própria, reduzida a imagens de fácil consumo para a indústria cultural. A esse pastiche de identidade dou o nome de identidade-para-o-mercado.
Essas identidades são formadas e construídas em processos semelhantes àqueles do simulacro da percepção da historicidade, por meio da qual pedaços desconectados e imagens recortadas de um passado nostálgico são montados como material espiritual para essas mesmas identidades (pedaços que são, da mesma forma, imagens vazias do passado, desprovidas de profundidade histórica). Verificamos esses processos, por exemplo, na justificação da Guerra do Golfo, apoiados na imagem e no estereótipo do árabe terrorista - recentemente inflados pelo ataque às Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001 - ou até na produção de desenhos animados como Aladim, onde a essência da diferença, efetivamente, vende. A atualidade da análise de Said (1990), por exemplo, reflete-se na adequação dessa criação do Oriente a novos ambientes pós-modernos, que se utilizam das imagens e essências elaboradas, como modelos, para moldar sentimentos dos mais variados, produzindo imagens e idéias da identidade sem profundidade.
Para melhor demonstrar a eficiência e efetividade da identidade-para-o-mercado, pode-se lembrar que na Copa do Mundo de futebol de 1998, na França, o Brasil pôde ser reduzido a um cartaz que traduziria toda sua cultura5. Em geral, competições como essas são estimulantes de "imagens de identidade" com grande impacto e circulação, e com a conseqüente solidificação de diferenças e a essencialização de características eternizadas e petrificadas em imagens de apelo comercial. Impera a linguagem visual, que nos permite esquecer toda a história que fez e faz que algumas imagens sejam (não que representem) as próprias identidades que deveriam simbolizar. Nesse sentido, isto é, no da solidificação de imagens da identidade, podemos entender a identidade-para-o-mercado e a crise da historicidade, ambas, como parte do mesmo processo, chamado por Jameson de "dominante da lógica cultural do capitalismo tardio".
A especificidade da identidade-para-o-mercado é que ocorre no mercado, para o mercado e através do mercado. A identificação do sujeito com os modos de vida coletivos (as visões de mundo) é mediada pelo mercado. Isso pode incluir processos de mercantilização de identidade - como os descritos por Handler (1984), Herzfeld (1997) e Machado (2003) - ou não. O mais comum é a ocorrência da identidade mercantilizada, ou seja, de indivíduos que se definem pelo acesso ao consumo de determinados bens. Outra forma é transformar uma identidade em sustento econômico. Vender e sustentar-se no mercado de trabalho pelas imagens de identidade é uma forma de identidade-para-o-mercado, que não exclui outras. O fato é que os brasileiros mercantilizam a identidade, mas o processo de identificação dá-se não por causa da venda, e sim por mecanismos internos de valorização de novas formas de classificação (a definição das categorias que constroem o mundo), que têm relação íntima com a venda -são impulsionadas por ela -, mas vão além delas.
As novas categorias de definição do que é o "brasileiro" na cidade do Porto são características de uma identidade-para-o-mercado: essencializadas, desconectadas, sem noção de historicidade, reduzidas a imagens vazias. Isso só pode acontecer numa configuração social - o capitalismo tardio. A identidade-para-o-mercado é um conceito que descreve uma forma de identificação hegemônica no capitalismo atual - no sentido gramsciano da construção de um consenso útil aos dominantes6. Também é uma forma privilegiada de identidade nos atuais embates no espaço social, seguindo o conceito de Bourdieu (1989), ou seja, são as formas predominantes de construção da realidade determinadas pela influência de quem tem capital social, cultural e simbólico7. A mercantilização da identidade é um processo empírico que acontece em diferentes contextos históricos e sociais, não um conceito. A especificidade do processo que descrevo entre os brasileiros é que eles "mercantilizam" uma identidade-para-o-mercado, um processo que só pode acontecer no capitalismo tardio.
A identidade-para-o-mercado, mais do que uma forma cultural do capitalismo tardio, é um mecanismo importante para a construção de identidades sob a égide do capital financeiro. Para além disso, é uma das variáveis do campo social que permitem a perpetuação do sistema capitalista. Através da identidade-para-o-mercado, o capital perpetua um consenso fundamental, pois o motor de identificação de indivíduos passa necessariamente pelo mercado. Demonstro esses argumentos com o exemplo retirado de minha pesquisa de campo no Porto, Portugal, entre imigrantes brasileiros, na qual vemos "em ação" a essencialização, petrificação e mercantilização cultural, que nomeio identidade-para-o-mercado. Procurarei demonstrar por meio de uma rápida narrativa como essas imagens de identidade são constituintes dos sentimentos e das identificações de pessoas no capitalismo tardio.
2. Um caso de identidade-para-o-mercado
As reflexões apresentadas neste artigo são baseadas no trabalho de campo, realizado entre março e outubro de 2000, para a feitura da tese de doutorado (Machado, 2003), além de em duas outras estadias mais rápidas, a primeira em janeiro e fevereiro de 1998 e a segunda em fevereiro de 2002. Meu recorte espacial circunscreveu uma grande área, uma vez que os brasileiros não se agrupam em lugares específicos da cidade. O centro da pesquisa foi a cidade do Porto, onde se concentra grande parte das atividades econômicas dos brasileiros, mas os imigrantes moram nas cidades à volta, que poderíamos chamar de "grande Porto". São elas: Matosinhos, Leça da Palmeira, Vila Nova de Gaia, Maia, Gondomar, Valongo.
O fato de estarem espalhados por lugares dispersos e, muitas vezes, longe uns dos outros facilita, ou potencializa, o papel de bares e restaurantes brasileiros como os pontos de encontro privilegiados, os lugares onde brasileiros travam conhecimento uns com os outros e estreitam suas redes de relações. Os bares e restaurantes, onde uma parte considerável da pesquisa foi realizada, são, de certa forma, os nós de redes sociais que se espalham não uniformemente pela grande Porto e também por cidades do interior do norte de Portugal. Conectam, num mesmo ambiente, várias redes de trabalhadores de diversos lugares, formando um mapa do mundo do trabalho de imigrantes brasileiros no Porto8.
O alvo da pesquisa foi majoritariamente os imigrantes "pobres", buscando um contraste em relação à imagem vigente na época que pressupunha uma imigração brasileira altamente qualificada e bem remunerada9. Essa imagem era derivada dos números oficiais da imigração em Portugal. Mas essas afirmações eram baseadas em dados que apresentavam limitações e ofereciam um quadro que poderia ser distorcido10. A imigração brasileira no Porto não é predominantemente de classe média, como ainda se imagina em reportagens de televisão no Brasil e mesmo em algumas mídias portuguesas. Ao contrário, a maioria das pessoas é pobre e com baixa formação escolar.
O universo mais significativo da vida cotidiana dos imigrantes é o do trabalho. Este ou a busca de um emprego, de certa forma, confere um nexo central às ações e relações dos imigrantes. As relações de amizade em geral se formam nos locais de trabalho; a descoberta dos bares noturnos para os imigrantes também é apresentada aos recém-chegados pelos companheiros de trabalho mais antigos; a busca de emprego se faz através das relações de amigos ou conhecidos de conhecidos que trabalham em algum lugar onde é possível arranjar serviço; as brincadeiras nos churrascos e nas confraternizações se referem aos acontecimentos dos locais de trabalho etc.
Por outro lado, a relação com a sociedade portuguesa também passa pelo local de trabalho: os primeiros patrões portugueses, as primeiras experiências de exploração, a percepção da fragilidade da situação de ilegalidade, o contato com fregueses portugueses (no caso dos que trabalham como atendentes). O trabalho, motivo primeiro da imigração, como atestam várias entrevistas que realizei entre os imigrantes, é uma preocupação onipresente para a grande maioria dos brasileiros com os quais entrei em contato. O universo do trabalho medeia tanto a relação dos imigrantes com a "comunidade brasileira", já instalada no Porto, como com a sociedade portuguesa. É por esse motivo que o cotidiano dos imigrantes tem relações intrínsecas com o universo do trabalho, razão pela qual é importante tentar entender como a experiência do trabalho se articula à construção de uma identidade brasileira específica aos brasileiros imigrantes.
Os trabalhadores brasileiros dirigem-se principalmente para o mercado de atendimento ao público. A hotelaria ainda era, em 2000, a melhor fonte de empregos, principalmente por uma suposta "vantagem estrutural" dos brasileiros: eles têm fama de festivos, simpáticos e, além disso, falam português. Essa "fama" garante espaço no mercado e determinadas características são esperadas deles. As principais são a alegria, simpatia e cordialidade. Acreditando que os brasileiros são portadores atávicos de uma série de características, os empregadores portugueses procuram por estes imigrantes para determinados trabalhos. É por isso que o "atendimento em geral" era a grande fonte de emprego para brasileiros na cidade do Porto. Muitos trabalhavam como garçons, vendedores de lojas, representantes de vendas, músicos. De certa forma, esse emigrante em Portugal é um entretainer. O papel do entretainer delegado ao brasileiro não é, contudo, isento de conotações ideológicas: o processo que se desenrola é o de uma subordinação sistemática do brasileiro aos estereótipos que rotulam todos eles como pessoas alegres e simpáticas.
Os brasileiros passam pelo que chamo de processo de exotização. Esse processo é um fenômeno social de efetivação dos estereótipos - tem relação íntima com a sua produção - mas vai além da mera constatação da sua existência. Para além de ser submetida ao "orientalismo" (Said, 1990), a práxis da população brasileira estereotipada se relaciona com as imagens constituídas do imaginário hegemônico português de uma forma ativa. Ou seja, os imigrantes brasileiros não apenas estão sujeitos à construção das imagens estereotipadas por determinados agentes de poder, mas também são sujeitos ativos da exotização. Assim, adaptar-se mais eficientemente aos estereótipos portugueses pode conferir maior poder a determinadas pessoas. Quero indicar que a forma como os brasileiros na cidade do Porto organizam sua "vida coletiva" permite entender como eles progressivamente vão se tornando "exóticos", no sentido determinado por um universo simbólico português abarrotado de imagens sobre os brasileiros.
O mercado de trabalho é fundamental na análise da construção da organização social dos brasileiros no Porto, como também na construção de identidades essencializadas referentes a imagens estereotipadas sobre o Brasil11. A determinação de um lugar no mercado de trabalho para os brasileiros tem implicações tanto na organização da vida como na construção de identidades. Encaixar-se no estereótipo português sobre o brasileiro facilita a vida do imigrante, que consegue seu emprego mais rapidamente. Por outro lado, a imagem que o imigrante desenvolve como a do "autêntico brasileiro" passa a ser a imagem exotizada. Num movimento coletivo de exotização, as percepções sobre a identidade brasileira começaram a se aproximar dos estereótipos portugueses. Os estereótipos "ganharam vida", e os brasileiros viraram a imagem que deles esperavam os portugueses. Tendo em vista que relações de poder entre os imigrantes passam, entre outras coisas, pelo controle de uma larga rede de possíveis empregadores portugueses, os líderes acabam sendo alguns entre os que podem ser acionados em casos de busca de emprego. Esses líderes são brasileiros que, tendo se encaixado nas imagens correntes sobre o Brasil, conseguiram inserir-se solidamente no mercado de trabalho12. Tornaram-se intermediadores, cuja situação proporciona acúmulo de poder entre os demais imigrantes brasileiros.
Um processo fundamental para entender o cotidiano dos brasileiros é o jogo de centralidades. Chamo de "jogo da centralidade" a luta, entre brasileiros, para estabelecer diferenciações entre si. O "estar no mundo" de imigrantes brasileiros é marcado por uma aproximação a um "centro". No caso dos brasileiros no Porto a luta é para se parecer com uma imagem de identidade brasileira baseada na idéia estereotipada que vige em Portugal e permite a existência de um lugar específico no mercado de trabalho. A questão é, então, quem é mais ou menos brasileiro. O jogo da centralidade é uma constante avaliação, por cada imigrante, da sua própria centralidade em relação aos demais imigrantes. É um ato complexo de classificação que recorre a diferentes variáveis. Os brasileiros se aproximam ao "centro" da brasilidade por rotas diferentes. A diferenciação é um instrumento de poder que serve para distanciar os outros do centro das representações. A elaboração de fronteiras, simbólicas ou não, por parte de imigrantes, não é um exercício de incluir-se num grupo, mas de excluir outros. Ou seja, os limites na aproximação a essa imagem central são impostos aos outros, na esperança de ser mais central por afastá-los. Chamo de "centralidade" essa idéia que descreve um processo.
Os termos "brasilidade", "abrasileirar" são usados no sentido específico do jogo da centralidade: ou seja, "abrasileira-se" aquele que consegue alguma legitimidade no sentido das determinações do "centro exemplar", que aqui relaciono com uma "identidade-para-o-mercado". O centro exemplar é a coleção de imagens estereotipadas sobre o Brasil (samba, futebol, sexualidade e mestiçagem) que regem a conduta das pessoas envolvidas nesse processo. O fato é que, quando um brasileiro se demonstra mais próximo da identidade-para-o-mercado, ele se torna mais central. É bom frisar que a idéia de "falsidade", que ronda a reprodução das imagens essencializadas, é uma idéia "nativa" e faz parte do próprio jogo da centralidade. Embora seja o jogo da centralidade que organiza uma "filosofia nativa" em Portugal - por meio do modelo ideal essencializado da brasilidade -, a própria possibilidade de falsidade implícita nesta filosofia é um dos conceitos nativos que fundamenta o julgamento da centralidade. É por esse motivo que me sinto à vontade em lidar com a produção da identidade entre os brasileiros com o termo "para-o-mercado", pois é uma forma de relação com a suposta essência que está inscrita nos modos de vida destas pessoas.
Vale lembrar que o jogo da centralidade envolve a dinâmica organização do cotidiano e das disputas políticas entre os brasileiros no Porto. O prestígio e as posições de poder são centralizados por aqueles que ao menos aparentam ter a vida considerada, perante os demais brasileiros, como próxima ao modelo ideal. Esse modelo corresponde a uma identidade-para-o-mercado, uma identidade pautada pela solidificação de imagens estereotipadas sobre a essência do brasileiro. Em suas ações, os brasileiros sempre procuram uma forma de construir para si mesmos alguma centralidade que seja reconhecida pelos demais.
O mecanismo básico de abrasileiramento é a forma de ocupação no mercado de trabalho. Ou seja, participar do "mercado da alegria" confere centralidade aos brasileiros. Isso acontece, entre outras coisas, porque o trabalho nesse mercado depende da representação portuguesa sobre o Brasil e de um reconhecimento de brasilidade por parte do empregador. Ou seja, é conferida uma brasilidade compulsória aos participantes desse mercado simplesmente porque os portugueses acreditam que os brasileiros são naturalmente preparados para estas atividades. O reconhecimento de brasilidade, por parte do mercado de trabalho português, é mais um elemento centralizador no jogo da centralidade.
O funcionamento do jogo da centralidade é estruturante da vida social desses trabalhadores e é disputado de várias maneiras: pela valorização de origens regionais ou de algumas atividades como o futebol, a música, a capoeira etc., pela negociação do acesso às redes familiares portuguesas e às oportunidades de emprego. Um dos mecanismos do jogo é a articulação de uma memória mítica que legitima os principais intermediários brasileiros. O jogo da centralidade é o centro nevrálgico dos circuitos de reciprocidade entre os imigrantes, funcionando como um código moral que dá sustentabilidade ao sistema e, ao mesmo tempo, como instrumento político das lutas entre os imigrantes.
É preciso fazer a ressalva que havia (e há) uma fonte dupla de produção dos estereótipos que "viraram realidade" na experiência dos imigrantes brasileiros pobres do Porto: o próprio Estado brasileiro, preocupado em vender a imagem do tropical exótico e da nação mestiça - para fins de turismo e solidificação da identidade nacional -, e a sociedade portuguesa que tem, desde o período colonial, constantemente reelaborado imagens sobre o Brasil. Em meu trabalho13 deixei de lado a produção de estereótipos sobre os brasileiros fabricada pelo próprio Estado nacional e pela sociedade civil brasileira, dedicando especial atenção à segunda das fontes, a sociedade portuguesa, a fim de analisar as especificidades dos processos de exotização em Portugal. Acredito que, embora possam ser vislumbrados em outros contextos nacionais, tais processos acontecem sempre de forma diferenciada, segundo as sociedades de recepção dos imigrantes.
O que esse processo demonstra é como o momento atual é marcado por movimentos de essencialização da identidade, quando os símbolos e as representações desconexos de um discurso nacional - ou das representações da ex-metrópole - tornam-se o norte e o nexo da vida de pessoas em variados contextos. Um dos mecanismos de reforço da identidade-para-o-mercado é justamente o espaço hierarquizado do mercado de trabalho, no caso da migração. O exemplo dos brasileiros no Porto indica como determinadas pressuposições simbólicas impõem comportamentos a sujeitos como resultado de processos complexos de exotização, nos quais os sujeitos são ao mesmo tempo vítimas e agentes de uma "subordinação ativa".
Em Portugal, o exotismo é imposto e passa a ser a verdade e a ser compartilhado inclusive pelos brasileiros. Esse discurso de poder e criação de imagens pode ser visto "em plena ação" na forma como os imigrantes brasileiros, portugueses retornados e luso-brasileiros, assumem certas visões exóticas a respeito do Brasil, por um lado e, por outro, na forma como a imprensa portuguesa trata o Brasil e seus imigrantes, como um pedaço da exótica ex-colônia em conflito com cidadãos europeus (superiores, portanto), disputando postos no mercado de trabalho e contribuindo para uma "invasão brasileira" (negativa) em Portugal.
Pode-se identificar, grosso modo, uma forma hegemônica de representação e construção da identidade brasileira entre os imigrantes brasileiros em Portugal. Pode-se dizer que objetivam a cultura brasileira (Handler, 1984). Essa representação é produzida principalmente entre aqueles com profissões relacionadas à noite e aos produtos culturais, ou a bens simbólicos, que são vendidos aos consumidores portugueses juntamente com uma idéia corrente sobre quem são os brasileiros e sobre o Brasil, uma apropriação do discurso hegemônico do exotismo. Esses são cantores(as), músicos, professores(as) de ginástica e de capoeira, donos(as) de bares brasileiros, garçons etc. Há ainda as profissionais do sexo, que vendem também estereótipos e são numerosas no Porto.
O discurso dos "vendedores da cultura exótica" prevalece entre os imigrantes, além de tudo por encontrar reflexo na visão/imagem hegemônica estereotipada sobre o Brasil. Apesar das diferenças entre os brasileiros imigrantes em Portugal, no que tange às suas origens, podemos ver um processo de construção de uma nova forma cultural, baseada na identidade-para-o-mercado. Essa passa a ser o denominador comum entre os brasileiros e o centro das construções identitárias no Porto. Vemos que, como afirma Sahlins (1990, p. 9), a cultura é colocada em risco na ação e, neste caso, submetida a transformações14. Assim, vemos que as imagens-síntese da identidade brasileira (como a do cartaz-essência) são ponto de partida para a própria inserção no mundo desses imigrantes brasileiros, que representam sua vida cotidiana de acordo com elas. Tornam essas imagens sem profundidade na forma de sobreviver, como um capital cultural que é automaticamente conferido se se adequar às imagens hegemônicas. Assim é que muitos brasileiros acabam se tornando brasileiros "autênticos" apenas quando chegam ao Porto. A identidade-para-o-mercado cria realidades e comportamentos, ela gera pessoas que se identificam com suas imagens esvaziadas e estereotipadas.
3. O Estado-nação e as imagens de identidade
Chegamos agora a um ponto onde fica evidente a necessidade de considerarmos o papel do Estado-nação na produção, na reprodução e no apagamento dessas identidades-para-o-mercado, já que é no discurso oficial que muitas dessas imagens são reforçadas, esquecidas ou inventadas. Já anunciando uma conclusão parcial, vemos que se o papel do Estado-nação se altera no contexto pós-moderno, ele não deixa de ser relevante, se não por outros motivos, apenas por ser o centro de disputas e lutas políticas em torno do qual se constroem, ainda hoje, imagens de identidade, ou seja, os próprios discursos nacionais. Fonte, assim, entre outras conseqüências, de material simbólico para inserção na indústria cultural.
Para ilustrar este argumento, acompanharei, novamente, a relação entre Brasil e Portugal, onde podemos ver como os Estados se empenham na construção de imagens de identidade e como se dão algumas disputas nesse terreno. Vejo esse imaginário hegemônico como produzido num encontro colonial e depois pós-colonial - no sentido dado por Dirlik (1997). Embora apoiado na análise de Said, baseio-me no que Herzfeld chamou de "practical orientalism"15. Também levo em consideração o que Fox (1992, p. 145-52) chamou de affirmative orientalism, referindo-se à possibilidade de o orientalismo servir de base a contestações políticas dos próprios "orientais", como no caso de Ghandi.
É essa percepção de um orientalismo "prático", para além da perspectiva mais textual de Said (um professor de literatura comparada), que permite que entendamos a produção de imagens de identidade, de identidades-para-o-mercado, como fruto de disputas políticas em andamento, nas quais o Estado-nação tem grande importância. Entretanto, o papel do Estado-nação tem sido alvo de dúvidas, e alguns autores freqüentemente afirmam que sua importância tem sido diminuída por meio do avanço das culturas globais. Appadurai, por exemplo, afirma que "we are in process of moving to a global order in which the nation-state has become obsolete and other formation for allegiance and identity have taken its place" (1994, p. 421). Ianni (1996, p. 17) também afirma a redução da soberania do Estado-nação. Outros autores pretendem entender os fluxos de significados e objetos materiais num esforço de descrição de uma "cultura transnacional", o que diminuiria a autonomia do Estado-nação (Appadurai & Breckenridge, 1988; Hannerz, 1997).
As teorias do sistema mundial, por sua vez, preocupam-se com a formulação de idéias sobre a "dimensão cultural" da globalização. Hannerz (1994) fala em culturas globais, Appadurai (1994) atenta para a fragmentação e disjunção de processos culturais, Featherstone (1994) analisa processos culturais, enquanto Friedman (1994) trata de culturas globais específicas (como as de consumo). Na verdade, são várias teorias do sistema mundial, cada qual com ênfases diferentes em diversos aspectos, mas todas acentuam a diminuição da importância do Estado-nação. No entanto, considero que a importância do Estado-nação na definição ou mesmo no debate e na referência a essas culturas desterritorializadas continua efetiva. Também não cabe aqui discutir, apenas indicar, que talvez as velhas identidades nacionais continuem com seu papel hegemônico na arregimentação dos sentimentos de identidade.
Temos visto que o Estado-nação português é fundamental na produção de identidade-para-o-mercado de brasileiros imigrantes. Foi o Estado que perpetuou imagens sobre o Brasil por meio de ideologias oficiais, como o luso-tropicalismo português, analisado por Castelo (1998)16. Essas imagens coloniais foram reelaboradas no novo contexto social português pós-União Européia. Mas também outra série de ideologias do Estado balizam a produção de identidades no Portugal atual, e elas se referem ao que podemos chamar de lusofonia.
No caso específico do Brasil e de Portugal, ao tratarmos da relação entre continuidades e descontinuidades entre ex-colônia e ex-metrópole, entre discursos de Estado e invenção de similaridades (Feldman-Bianco, 2001a), da produção de discursos hegemônicos, que modelam a consciência de brasileiros, adentramos num campo discursivo que alguns autores (Feldman-Bianco, 1996; Almeida, 1998; Leal, 1998; Santos, 1996; Santos 1994) têm tratado como lusofonia (a construção desses discursos trocados entre países de língua portuguesa). Essa discussão levanta questões relacionadas ao papel do Estado-nação no mundo atual.
O ingresso de Portugal na Comunidade Européia trouxe conseqüências no que se refere à entrada de imigrantes em Portugal. Como afirma Feldman-Bianco:
Portugal began to be perceived by citizens of its former overseas extensions as an open gate to Europe. Hence, in addiction to receiving growing numbers of returning migrants, the post-colonial state was faced with an increasing influx of immigrants originally from the (now) independents nations of "Portuguese Africa" as well as Brazil. (1996, p. 31)
Em contradição com o discurso da irmandade, Portugal tem estabelecido leis cada vez mais duras de restrição à entrada de imigrantes. Essas medidas estão em sintonia com as determinações européias, muito mais do que com a "imaginação de centro" portuguesa.
Por outro lado, acentuando a importância dos discursos oficias do Estado e de sua relação com diferentes populações, Feldman-Bianco (1996, 2001a e 2001b) e Santos (1996) demonstram como a situação dos migrantes brasileiros em Portugal é ambígua. Lideranças migrantes, formadas por brasileiros, luso-brasileiros e portugueses retornados, exploram os discursos oficiais do Estado português e da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), que reafirmam a irmandade entre os países de língua portuguesa. A própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa permite aos migrantes reivindicar direitos com base na irmandade entre ex-colonizador e ex-colônias. Afinal, se a "pátria é a língua", todos os migrantes (somando o caso dos africanos) têm o direito à "cidadania da língua".
Como demonstra Santos (1996), o discurso da mestiçagem e o uso da língua são referências na construção das diferenças entre brasileiros e portugueses. Os brasileiros, imaginados nas páginas da imprensa imigrante, são aqueles que têm "ginga" e falam de uma forma diferente. Temos o reforço dos estereótipos/imagens do discurso hegemônico. As estratégias de construção de diferenças passam pelos usos da língua, as diferenças a partir das semelhanças (Hall, 1996). Também as permanências são fundamentais na construção da diferença, por meio da importância do discurso da mestiçagem (que paradoxalmente vem sendo apropriado por discursos oficiais portugueses, os quais reconstroem o imaginário de um país "entre" a Europa e o Atlântico). Estamos lidando, dessa forma, com a criação ou reprodução de ideologias nacionalistas (Fox, 1990) que procuram reinventar a centralidade portuguesa em algum nível. Ou seja, podemos ver, por meio desse exemplo, o papel dos Estados-nação em centralizar o embate em torno das construções (imagéticas) hegemônicas, em cristalizar as imagens que são o material de construção de identidades-para-o-mercado.
Essa conjuntura bastante carregada de discursos oficiais contraditórios, discursos nacionalistas (idem) controversos, é alimentada por contradições entre ideologias luso-brasileiras (bases dos discursos de irmandade, por meio da idéia de fronteiras ambíguas), por um lado, e pela crescente subordinação de Portugal às prerrogativas da Comunidade Européia, por outro. Essas ideologias luso-brasileiras foram construídas a partir da obra de Gilberto Freyre e de seu reflexo em alguns autores portugueses, como demonstra Almeida (1998), e estiveram ligadas ao governo salazarista e ao colonialismo tardio de Portugal. O discurso luso-tropical (e a criação de idéias sem profundidade sobre a miscigenação racial) serviu como legitimação da dominação portuguesa nas colônias africanas e influenciou também as relações com o Brasil. Visto como filhos do "gênio português", as colônias e ex-colônias foram narradas a partir dessa ideologia gilbertiana, conferindo-lhes uma posição inferior e "tutelada" (Castelo, 1998).
Tanto como produtor principal de imagens sobre os brasileiros, no caso do Estado imperial português (que durou até 1974), quanto como produtor de um "campo discursivo" no qual as diferenças podem ser organizadas, como é o caso do Estado pós-imperial português17, por meio da lusofonia, vemos que o Estado-nação continua um elemento relevante na arregimentação de sentimentos e na construção de identidades. No caso dos brasileiros atualmente, a resposta às imagens estereotipadas sobre o Brasil18 em Portugal passa pela construção de uma identidade-para-o-mercado, marcada pela relação estrutural com o mercado (tanto o mercado de trabalho na cidade do Porto como o mercado de "consumo cultural" dos portugueses nesta cidade, repletos de imagens sobre o Brasil exótico19).
Comentários finais
Vimos, assim, como o Estado-nação, no caso o português, é central na definição e construção das identidades-para-o-mercado e que, ao redor de suas imposições, se estabelecem lutas políticas de acesso e/ou contestação a essas imagens (como no caso dos imigrantes). Também o diálogo com outras fontes de discursos hegemônicos, patrocinados por outros Estados, como o mito brasileiro da miscigenação racial, é importante para entendermos o desenvolvimento de identidades-para-o-mercado, como ilustra o caso do luso-tropicalismo.
Minha análise considera que o Estado-nação é importante para a reprodução do capitalismo tardio, já que é um grande centro de produção de imagens, um agente de fragmentação da realidade em identidades mediadas pelo mercado. É por meio dele que o capital internacional escapa da regulamentação - pois circula livremente - e é por meio dele que se desenvolve uma indústria cultural que tem como centro a comercialização de imagens essencializadas das identidades espalhadas pelo mundo. Podemos assim identificar o engano de Jameson ao considerar que a fragmentação da pós-modernidade resulta numa incapacidade hegemônica das "classes dominantes":
Se, antes, as idéias de uma classe dominante (ou hegemônica) formavam a ideologia da sociedade burguesa, os países capitalistas avançados são, em nossos dias, o reino da heterogeneidade estilística e discursiva sem norma. Senhores incógnitos continuam a reajustar as estratégias econômicas que limitam nossas vidas, mas não precisam (ou não conseguem) mais impor sua fala. (Jameson, 1996, p. 44)
Pois é justamente o contrário, ou seja, é a própria fragmentação, no caso, a fragmentação imposta por identidades-para-o-mercado, que permite a hegemonia, quando se controla mesmo a circulação das imagens que vão designar essa ou aquela identidade. A luta fica restrita à produção de imagens sem profundidade histórica que, uma vez consolidadas, são inseridas no jogo da indústria cultural, perdendo a capacidade de contestação que em algum momento tiveram. Portanto, quanto mais incógnitos e menos visíveis esses "senhores" mencionados por Jameson, mais hegemônica se torna a reprodução mercantil das identidades rasas espalhadas pelo mundo e menos devem impor sua fala.
Este artigo se propôs a explorar o conceito de identidade-para-o-mercado, além de desenvolver algumas reflexões que remetem às questões de minha pesquisa de doutorado sobre a imigração brasileira no Porto. Para tanto, refleti sobre a especificidade da construção da diferença no capitalismo tardio por meio do conceito de identidade-para-o-mercado. Pensando a identidade-para-o-mercado como uma forma de produção de diferenças exclusivas do capitalismo tardio, devemos entendê-la a partir de um parâmetro cultural capitalista. Sahlins, em Cultura e razão prática, já demonstrava como o capitalismo é um sistema simbólico que, como outro qualquer, é arbitrário. A economia capitalista aparece como um sistema cultural e "a própria forma de existência social da força material é determinada por sua integração no sistema cultural" (Sahlins, 1986, p. 227). Além do mais, os sistemas simbólicos articulam centros de produção simbólica privilegiada, que infletem toda a cultura com base em determinados pressupostos. "Na cultura ocidental, a economia é o locus principal de produção simbólica" (idem) e a produção de mercadorias é um modo privilegiado de produção e transmissão simbólica.
No estágio mais recente do movimento do sistema simbólico do capitalismo (capitalismo tardio), no qual a economia e a produção de valor continuam os loci de produção simbólica privilegiados, a própria cultura está a serviço da valorização, o que podemos ver por meio da construção de identidades-para-o-mercado e de sua relação estrutural com os mercados. Obviamente que poderíamos pensar na análise feita por Sahlins como já antecipando a idéia da produção de mercadorias como reprodutora de "subjetividades", na medida em que elas estabelecem as distinções sociais no capitalismo:
Assim procede a economia, como locus institucional dominante: produz não somente objetos para sujeitos apropriados, como sujeitos para objetos apropriados. (Sahlins, 1986, p. 237)
Demonstrei de que modo se solidificam, na identidade-para-o-mercado, estereótipos criados complexamente no cruzamento de tradições nacionais de representação (no caso, a brasileira e a portuguesa), e como eles são os motores de uma nova subjetividade que se cria ou, em termos antropológicos, de uma nova cultura que surge na experiência imigrante. Uma cultura-para-o-mercado, uma cultura que colabora com a valorização do capital, um resultado das novas formas de estruturação da produção de valor no capitalismo. E, para que tal processo funcione, imagino que o Estado-nação é um instrumento fundamental.
Notas
1 Gostaria de agradecer as valiosas e produtivas sugestões do parecerista anônimo da Revista de Antropologia.
2 Doutor em Ciências Sociais, pelo IFCH/Unicamp; pesquisador do Cemi/Unicamp. E-mail: mailto:igorr@unicamp.br ou igor@power.ufscar.br.
3 Entendo o capitalismo tardio como a configuração atual do sistema capitalista, marcado pela terceira revolução industrial, ou seja, a da microeletrônica (Kurz, 1998), pela produção flexível (Harvey, 1994) e pela hegemonia do capital financeiro.
4 Entendo por culturas objetivadas a produção de artefatos culturais (como filmes cinematográficos) que têm referências em tradições culturais, mas que são produtos feitos para um mercado consumidor ávido pelo "diferente". Mas essas produções objetivadas têm uma "eficácia real", pois produzem efeitos, identificações e até identidades. A idéia de "orientalismo prático" de Herzfeld (1997) permite entender essa faceta das "culturas objetivadas".
5 Sobre a relação entre futebol e nação, ver Machado (2000).
6 O conceito de hegemonia de Gramsci pressupõe a sociedade civil: "Podem-se fixar dois grandes 'planos' superestruturais: o que pode ser chamado de 'sociedade civil' (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente como 'privados') e o da 'sociedade política ou Estado', planos que correspondem, respectivamente, à função de 'hegemonia' que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e àquela de 'domínio direto' ou de comando, que se expressa no Estado e no governo 'jurídico'. (...) Os intelectuais são os 'prepostos' do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do 'consenso espontâneo' dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce 'historicamente' do prestígio (...) obtido pelo grupo dominante por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção (...)" (Gramsci, 2000a, p. 21). A hegemonia é um processo que envolve um "consenso ativo e voluntário" (Gramsci, 2000a, p. 436), liderado pelos intelectuais do grupo dominante, responsável por fazer dos princípios morais da classe dominante os de toda a sociedade. Esse processo exige uma mistura de convencimento e força:
"O exercício 'normal' da hegemonia, no terreno clássico do regime parlamentar, caracteriza-se pela combinação da força e do consenso, que se equilibram de modo variado, sem que a força suplante em muito o consenso" (Gramsci, 2000b, p. 95). E esse processo é tanto nacional como internacional: "Toda relação de 'hegemonia' é necessariamente uma relação pedagógica, que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre diversas forças que a compõem, mas em todo campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais" (Gramsci, 2000a, p. 399).
7 Para Bourdieu, "pode-se representar o mundo social em forma de um espaço (a várias dimensões) construído na base de princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que actuam no universo social considerado" e os "agentes são assim definidos pelas suas posições relativas neste espaço" (Bourdieu, 1989, p. 133-4). Isto resulta em que "o espaço social e as diferenças que nele se desenham 'espontaneamente' tendem a funcionar simbolicamente como espaços dos estilos de vida (...), isto é, de grupos caracterizados por estilos de vida diferentes" (idem, p. 144). Portanto, os princípios de construção de identidades são fruto de uma lógica política do campo social, resultado da capacidade maior ou menor dos grupos de se definirem e de quais os mecanismos que podem utilizar para o fazerem. A construção da realidade, do mundo social é mediada pelas categorias construídas no espaço social: "Mediante um trabalho de construção desta natureza - que se não faz de uma só vez mas por uma série de aproximações - constroem-se, pouco a pouco, espaços sociais os quais - embora só se ofereçam em forma de relações objectivas muito abstractas e se não possa tocá-los apontando a dedo - são o que constitui toda a realidade do mundo social" (Bourdieu, 1989, p. 30). O princípio de predominância das formas "hegemônicas" de construção das possibilidades de identidade segue a lógica política, pois, aos que estão numa situação desvantajosa, resta apenas aceitar a "regra do jogo" e tentar, através dele, aumentar o próprio capital social: "O princípio do movimento perpétuo que agita o campo (...) reside (...) na própria luta, sendo produzida pelas estruturas constitutivas do campo, reproduz as estruturas e as hierarquias deste. Ele reside nas acções e nas reacções dos agentes que, a menos que se excluam do jogo e caiam no nada, não têm outra escolha a não ser lutar para manterem ou melhorarem a sua posição no campo, quer dizer, para conservarem ou aumentarem o capital específico que só no campo se gera" (idem, p. 85).
8 O Porto continua a ser o segundo maior concentrador de brasileiros em Portugal. Mas, com cerca de 11% dos imigrantes, essa cidade viu menos brasileiros serem legalizados em 2001 do que Faro, por exemplo. Ao contrário da região de Lisboa, o Porto concentra pouca imigração "em português", e apenas os números de guineenses são de alguma relevância, ainda assim menor que os de chineses (Machado, 2003, p. 303). O maior contingente de ilegais no Porto era (embora não tenhamos conhecimento sobre a situação atual) de ucranianos, com 5.510 legalizações em 2001, seguidos de 1.933 legalizações de brasileiros (idem, p. 308).
9 Ver Machado (1997) e Baganha & Góis (1998/1999).
10 Sobre os dados a respeito da imigração em Portugal, Baganha e Góis afirmam que "sabemos extremamente pouco sobre os imigrantes em Portugal, porque a única fonte disponível com consistência interna apresenta sérias limitações, dado que o número de características dos imigrantes, tratadas e divulgadas pelo MAI-SEF, é muito restrito e a sua divulgação sistemática com alguma profundidade só se inicia em 1990" (1998/1999, p. 262). Portanto, continuam os autores: "O que sabemos refere-se sobretudo ao fluxo legal, pelo que é conveniente salvaguardar a hipótese de as características conhecidas serem uma pobre e, muito provavelmente, errônea representação do fluxo imigratório global. Quer os estudos da componente ilegal do fluxo imigratório português noutros períodos históricos, quer a informação disponível sobre as partidas ilegais para a Europa depois da II Guerra Mundial, mostram que o fluxo clandestino é substancialmente diferente do fluxo ilegal" (Baganha & Góis 1998/1999, p. 250).
11 Uma discussão sobre a origem e o desenvolvimento dessas representações, por parte da sociedade portuguesa, é realizada em Machado (2003).
12 Na tese de doutorado (Machado, 2003) demonstro que não é apenas o controle do mercado de trabalho que proporciona mais prestígio e poder, mas que esta é uma das dimensões mais relevantes.
13 Refiro-me à tese de doutorado defendida em 2003 (Machado, 2003).
14 Ao contrário do que afirma Sahlins em outro artigo (1997), mais do que continuidade, a cultura é submetida a transformações nos processos migratórios.
15 Para Herzfeld, "orientalism is more relative and negotiable than appears to be the case in Said's textualist, and descontextualizing, perspective; and it is this property that has led me to generate a more agent-oriented view of it" (1997, p. 96).
16 Obviamente, esse consenso em torno das imagens sobre o Brasil convive com inúmeras reações e visões contrárias na sociedade portuguesa, que não são, entretanto, hegemônicas. A preponderância de determinadas imagens sobre o Brasil não se restringe ao Estado, claro, mas se espalha pela sociedade civil. Mas é inegável que foi o Estado o agente da produção dessa representação hegemônica, como a historiografia de Castelo (1998) o demonstra.
17 A idéia do Estado como organizador de um campo discursivo no qual as lideranças imigrantes podem exigir direitos, desde que inseridos neste campo, foi-me sugerida verbalmente por João de Pina Cabral, durante a realização do trabalho de campo.
18 Margarido (2000) sugere que há uma continuidade entre as imagens do pensamento imperial e a lusofonia, que não passaria de uma reatualização daquelas antigas hierarquias coloniais.
19 Chamo de "consumo cultural do exótico" o espaço de entretenimento para o público português, baseado em representações estereotipadas do Brasil na cidade do Porto, como restaurantes, boates, casas de prostituição, aulas de capoeira, aulas de danças "sensuais" brasileiras (como são anunciadas).
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Aprovado em junho de 2004.
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ARTIGOS
Assistir, ouvir, ler e narrar: o papel da mídia nas construções identitárias étnicas1
Maria Catarina Chitolina Zanini
Professora adjunta do Departamento de Ciências Sociais - UFSM-RS
RESUMO
Este artigo objetiva analisar algumas relações existentes entre as identidades étnicas e a mídia, em especial a televisão. Partindo-se de pesquisa etnográfica entre descendentes de imigrantes italianos na região central do Rio Grande do Sul, no Brasil, tomou-se como estudo de caso a recepção da novela Terra Nostra, exibida pela Rede Globo de Televisão em 1999-2000. A recepção da telenovela favoreceu a reflexividade acerca da noção de pertencimento "italiano" e promoveu uma série de diálogos entre a tradição imaginada e alimentada em nível local e aquela transmitida pela televisão. Esses diálogos centravam-se, em particular, sobre a questão de gênero, a sexualidade, as narrativas do processo colonizador e os elementos diacríticos presentes na italianidade paulista, que entravam em desacordo com os padrões valorativos locais.
Palavras-chave: identidade étnica, italianos, televisão.
ABSTRACT
This paper aims to analyze some of the relations that exist between ethnic identities and the media, especially television. Springing from ethnographic research on the descendants of Italian immigrants in the state of Rio Grande do Sul, in Brazil, the reception of the television soap opera Terra Nostra, broadcasted by Globo broadcasting network in 1999-2000, was used as a case study. The reception of the soap opera favored the reflection of the notion of "Italian" belonging and encouraged a series of dialogs between the imagined and locally perpetuated tradition and that, which was transmitted on television. In particular, the questions of sex, sexuality, narratives of the colonization process and the diacritical elements present in the community of Italian descendants in São Paulo were some points in which there was a divergence from local value patterns.
Key-words: ethnic identity, italians, television.
Partindo de experiência etnográfica (de 1997 a 2001) entre descendentes de imigrantes italianos da região central do Rio Grande do Sul2, pretendo tecer algumas considerações, preliminares ainda, acerca da influência dos meios de comunicação, especialmente da televisão, nos processos de construção das identidades étnicas3. De que forma os meios de comunicação dialogam com os processos de construção das identidades étnicas? Há tensão em tais diálogos? A identidade étnica é um mediador de recepção da mídia ou esta interfere diretamente nos processos identitários? De que forma a televisão ou a imprensa fortaleceriam ou mesmo criariam memórias familiares e grupais? Enfim, essas são algumas das questões que pretendo problematizar no presente artigo.
No ano de 1999, enquanto realizava pesquisa etnográfica, estava sendo exibida, pela Rede Globo de Televisão, no horário nobre das "8", a novela Terra Nostra, que narrava a saga dos emigrados italianos para o Brasil: a saída da Itália, a travessia, a chegada a São Paulo, os desencontros, as expectativas e suas trajetórias enquanto imigrantes em solo brasileiro. Escrito por Benedito Ruy Barbosa e dirigido por Jayme Monjardin4, o melodrama televisivo possuía como eixo central as desventuras de um casal de jovens emigrados, Matteo e Giulianna, que se apaixonaram durante a travessia e que, posteriormente, acabam por ser separados um do outro pela força das circunstâncias. A novela apresentava também a proletarização dos imigrantes italianos nos cafezais paulistas, a situação dos negros recém-libertos, a edificação da cidade de São Paulo e suas elites. Em suma, tentava proporcionar um panorama do Brasil em finais do século XIX.
Durante a etnografia, muitas conversas e diálogos com informantes tiveram início nos comentários sobre o desenrolar da novela. Não que eu provocasse isso, mas, ao começar as entrevistas, uma das primeiras questões era: "você viu o capítulo de ontem, o que você achou?". E assim prosseguia. Eram especialmente as mulheres que me indagavam dessa forma, apesar de Terra Nostra ter sido uma novela muita assistida pelos homens também. O melodrama me permitiu uma inserção em domínios específicos, tais como relações de gênero, padrões sexuais, histórias familiares, herança, casamento, trabalho, racismo, alimentação, vestuário, noções de tempo e de espaço, de lazer, dialetais etc. Enfim, cada capítulo me possibilitava conhecer um pouco mais dos descendentes de imigrantes italianos locais e dos seus valores. Como eu já estava efetuando trabalho de campo desde 1997, observei que a novela proporcionou uma nova linguagem para a italianidade local. Tive bastante trabalho para conseguir estabelecer parâmetros comparativos entre as narrativas, pois, após a exibição da novela, as histórias dos "antigos", dos antepassados, eram, muitas vezes, narradas conforme a linearidade emprestada pelo drama televisivo. Os acontecimentos presentes nos primeiros capítulos, tais como a morte de emigrantes na travessia5, o medo de que as famílias fossem desfeitas, as doenças, o desrespeito por que alguns imigrantes passavam eram postos centralmente nas narrativas, o que no período anterior à novela não ocorria dessa forma. O que ocorria eram narrativas acerca das italianidades que enfocavam marcadamente eventos e personagens localmente conhecidos, integrantes de uma certa familiaridade assentada no passado e, por meio das quais, o descendente situava a si mesmo e aos demais. Eram narrativas que privilegiavam o projeto colonizador e o papel dos pioneiros mais do que o trajeto migrantista e suas particularidades e subjetividades, como fez a novela. Não havia espaço para romance, e os detalhes anteriores à chegada das famílias aos lotes coloniais praticamente inexistiam. Embora a travessia fosse sempre mencionada, eram raros os descendentes que a narravam em "detalhes". Depois da novela, falar sobre a travessia se tornou algo muito importante (e obrigatório). Somavam-se narrativas locais, familiares e de outros descendentes àquelas emprestadas pela novela, e cada família refazia o que teria sido a travessia de seus antepassados de acordo com sua capacidade interpretativa e sua posição social atual - ressalto.
Antes da novela Terra Nostra, outro aspecto já havia chamado a minha atenção: a forma como determinados agentes interétnicos6 influenciavam as narrativas das memórias familiares. Mesmo que cada família tivesse a própria história para contar, a maneira como os entrevistados entendiam que essa deveria ser narrada a mim era algo que me inquietava. Havia uma tendência de supor que eu acharia relevante se falassem de alguns episódios, em especial da morte de vários italianos no Barracão, no qual foram instalados os primeiros imigrantes em 1877-1878, na localidade denominada de Val de Buia, onde hoje está construído o Monumento do Imigrante. A morte daqueles imigrantes está narrada nas páginas do memorialista Julio Lorenzoni, jovem migrante de 14 anos que deixou registradas suas lembranças da travessia, do processo colonizador e das particularidades do encontro entre o velho e o "novo mundo" representado pela América7. Muitos dos memorialistas locais ou dos indivíduos que escreveram as memórias familiares fizeram uso das informações ali contidas, o que permitiu que essas fossem usadas como versões oficiais da migração e do processo colonizador local. Essas versões "oficiais" findaram por imprimir uma marca narrativa às histórias particulares de cada família, um determinado eixo. Ressalto novamente: isso não quer dizer que cada família não possuísse sua trajetória particular, contudo, o caminho narrativo escolhido era aquele que já estava sedimentado em nível local como "o acontecido". A ele se acresciam fatos pitorescos, genealogias e o colorido dado a eventos lidos, do presente, sobre o passado, processo esse que denominei memórias em construção8.
Quanto à imprensa, durante meu trabalho de campo de 1997 a 2001, tive acesso a várias memórias familiares escritas por descendentes sobre as sagas familiares e também sobre a história de determinadas localidades. A influência de algumas dessas narrativas é bastante grande e deixa marcas nas reconstruções coletivas. Antes da novela Terra Nostra, tal aspecto já me chamara a atenção, e em cada conversa, em cada entrevista que fazia, estava atenta para isso. Por vezes, refiz entrevistas sobre as trajetórias familiares para observar melhor como o processo se dava, contudo é importante ressaltar que a novela emprestou uma certa tonalidade (e subjetividade) à ancestralidade que antes não existia. Penso que os estudos etnográficos sobre grupos étnicos devem dialogar com os meios de comunicação e suas linguagens e estar atentos às narrativas por eles divulgadas para poder perceber a dinâmica dos movimentos discursivos, como os que presenciei em minha pesquisa. Tais movimentos podem ser sutis, por vezes, contudo desvelam as ricas dinâmicas das construções identitárias.
Por que estudar as relações entre os meios de comunicação de massa e as identidades étnicas?
Essa é uma questão para a qual tenho procurado respostas. A importância dessa relação me foi ressaltada por meio da experiência em campo, como acima relatado. Antes dela, refletir acerca da dialética relação que se estabelece entre os meios de comunicação e as identidades étnicas seria algo, talvez, não muito relevante. Contudo, foi a pesquisa etnográfica que me possibilitou observar que as identidades, que são construtos individuais e coletivos que se refazem constantemente, têm na contemporaneidade dialogado intensamente com os meios de comunicação, em especial com a televisão e suas linguagens. Segundo Martín-Barbero (2003), a identidade étnica seria um mediador entre o receptor e a mensagem recebida. Para o autor, os receptores não seriam seres passivos, mas fariam leituras culturalmente mediadas, partindo de sua condição de classe, étnica, familiar, religiosa etc. Concordo parcialmente com ele, contudo, penso que não se pode esquecer, no contexto latino-americano e particularmente no brasileiro, que o modelo de televisão que se tem é hegemônico no sentido de transmitir um determinado estilo de vida e padrões de consumo tidos como mais "modernos" e aceitáveis. Dessa forma, diria que as identidades étnicas, ao sofrerem o impacto das mensagens televisivas, também são renegociadas. O que quer dizer, enfim, que a televisão ou a literatura seriam meios amplamente reflexivos por meio dos quais os grupos e os indivíduos podem reconsiderar suas opções e tradições. Esses meios possibilitam inúmeras leituras, como se verá.
A questão da reflexividade da televisão foi muito bem exemplificada por Lila Abu-Lughod (1997 e 2003) por meio de seu trabalho etnográfico no Egito. Segundo ela, escrever sobre televisão naquele país, na Indonésia ou no Brasil é escrever sobre a articulação entre o transnacional, o nacional, o local e o pessoal (1997, p. 13)9. O aspecto reflexivo adviria da possibilidade da mensagem televisiva permitir ao indivíduo e aos grupos pensarem a si mesmos10. A novela Terra Nostra promoveu esse debate, seja do ponto de vista do reconhecimento do italiano local na telenovela ou do não reconhecimento, este advindo do fato de os descendentes considerarem muitos dos aspectos apresentados na telenovela como promíscuos e distantes da realidade de seus antepassados. Os italianos vistos em nível nacional eram italianos, mas "não eram os italianos daqui". Com essa ressalva, negociavam-se estereótipos, representações, gostos e comportamentos, seja "dos italianos" ou de alguns personagens em particular, o que conduzia, inevitavelmente, a questionamentos pessoais e à revivificação das memórias pessoais, familiares ou mesmo grupais. Estava aberto o processo reflexivo.
Concordo com Kottak (1990) quando aponta que a televisão tenderia a mudar alguns hábitos comportamentais e conformaria uma teleconditioning, pela qual, em níveis muito subjetivos e específicos, transformaria a relação das pessoas umas com as outras e com o mundo à sua volta11, constituindo novas formas de sentimento comunitário. No caso do Brasil, diz ele, não seria uma cultura norte-americana que a televisão promoveria, mas sim uma cultura nacional "pan-brazilian" (id., p. 16). Nesse pan-brasilianismo, há que se considerar as hierarquias internas, nas quais ocorre a valorização de determinados tipos sociais em detrimento de outros. Portanto, se a televisão, em certa medida, reflete a sociedade e suas contradições e complexidades, não se pode dizer que esse veículo não tem um enorme potencial para trabalhar positivamente determinadas características de grupos, como foi feito por meio da novela Terra Nostra com os descendentes de italianos, principalmente na primeira parte da novela.
Já os personagens negros presentes nesta não elevaram a auto-estima da população negra na época, tanto que, em vários momentos, alguns membros do movimento negro e intelectuais se manifestaram por meio da mídia criticando a representação dos negros. Sueli Carneiro (1999), em artigo denominado "Terra Nostra, só para italianos", afirmava que a subserviência e o infantilismo dos personagens negros da novela tenderiam a reiterar a versão preconceituosa "de uma humanidade incompleta do negro", a qual se contradiria à completude humana do branco, mesmo, segundo ela, de brancos de classes subalternas como os italianos apresentados no drama. Os diálogos em que os negros apareceriam levariam a tais conclusões, bem como algumas considerações tecidas sobre eles por parte dos personagens brancos.
Diria que, do ponto de vista que este artigo pretende trabalhar, pode-se afirmar que a novela serviu não somente para que os descendentes de italianos refletissem acerca de sua condição social, mas também para os afro-descendentes, talvez de pontos de vista distintos nos diferentes momentos da novela. A celeuma teria sido forte o suficiente para que o autor do melodrama, Benedito Ruy Barbosa, segundo o informativo Brava gente brasileira, remediasse a situação no decorrer da novela, especialmente no tocante às crianças negras. Segundo a reportagem, Benedito teria afirmado que os personagens negros dos meninos Tiziu e José Alceu cresceriam e conquistariam posições sociais de destaque por meio do estudo (Masson, 2000, p. 3).
Episódios como esse mostram o poder que a televisão tem de formar, transformar ou mesmo de conformar estereótipos. O receptor, como sujeito ativo, contudo, pode com eles concordar ou não. Segundo Médola (2004, p. 8), o texto televisual de ficção possuiria como característica fundamental a verossimilhança que, por meio das estratégias discursivas empregadas, criaria o efeito de parecer verdade, mesmo não sendo. Observei em minha etnografia que os indivíduos lidam bem com essas contradições. Irritam-se quando as cenas não condizem com o que pensam ou gostariam que fosse, no entanto, entendem que é uma novela e que a "televisão é uma máquina de fazer dinheiro" (descendente, sexo masculino, 21 anos). Enfim, aceitam o que gostam e se desfazem do que não gostam considerando a lógica na qual esse tipo de lazer está incluído.
Os portugueses e seus descendentes também estariam reclamando do tratamento a eles dado na televisão brasileira, almejando transformar o estereótipo presente nas novelas. Segundo reportagem da Revista Época de 8/7/2002, alguns consideravam que estavam sendo ridicularizados pela ficção nacional, enquanto os italianos seriam heróis. Na novela Esperança12, exibida em horário nobre na Rede Globo de Televisão, isso tenderia a mudar, segundo reportagem da revista. É dito que o personagem português que comporia o drama não iria usar "tamancos nem bigodão". Essa novela narrava a história de vários grupos de imigrantes em São Paulo, inclusive italianos, tanto no meio urbano como rural já no século XX. A reportagem afirmava que, se o autor Benedito Ruy Barbosa, que "teria sangue das duas culturas nas veias", pudesse definir o traço fundamental da cultura italiana, diria que seria a passionalidade, e o da portuguesa, a severidade. Com isso, pode-se perceber a complexidade do campo da produção das telenovelas e das representações interétnicas ali inseridas, que vai desde concepções pessoais de autores a interesses mercadológicos de amplo alcance13.
Compreendo a televisão como um meio reflexivo e a recepção como um processo dialógico e criativo pelo qual os grupos e indivíduos podem pensar sobre si mesmos e sobre suas trajetórias. Concordo com Borelli quando critica aquela visão que concebe a novela somente como um produto de uma indústria, um simples entretenimento distante dos bens culturais (2001, p. 3). Segundo ela, mediados por suas experiências cotidianas e por repertórios oriundos de suas posições de classe, gênero, geração, etnia e formas de subjetivação, os receptores mergulhariam nas narrativas, dialogando com as dimensões da videotécnica, "estabelecendo conexões de projeção e identificação e construindo uma competência textual narrativa" (id., p. 18). Para Orozco-Gomez (2003, p. 2), os estudos de recepção seriam uma opção para entender não somente os sujeitos sociais contemporâneos nas interações que estabelecem entre os meios e as tecnologias de informação, mas também os processos socioculturais, políticos e econômicos maiores dos quais participam. Embora durante meu trabalho de campo nem cogitasse efetuar um ER (estudo de recepção), mesmo porque considero a televisão um veículo cultural que interage no interior de um contexto maior que não poderia ser analisado isoladamente, foi por meio da literatura oriunda dessa produção científica que consegui visualizar a riqueza do material que tinha em minhas mãos, isso tempos depois da novela Terra Nostra já ter terminado. Por exemplo: não cogitei visitar rotineiramente meus informantes à noite para com eles assistir à novela e fazer uma "etnografia da recepção" propriamente dita. Muitas vezes, ao chegar à casa das pessoas, assistia com elas ao Video Show14, e dali surgiam comentários e assim a conversa prosseguia. Contudo, em minha família extensa e na de meu marido, ambas descendentes de imigrantes italianos, pude, com certa densidade, participar do processo de recepção da novela, sempre assistida e comentada.
Ainda durante meu trabalho de campo nos anos de 1999 e 2000, devido à importância delegada à novela pelos descendentes de imigrantes italianos, optei por elaborar um questionário-padrão com perguntas sobre a novela como um todo. Apliquei esses questionários em turmas de estudantes de língua italiana nos cursos da Associação Italiana de Santa Maria e da Agência Consular local em abril de 200015. Justifiquei, na época, a aplicação desse instrumento como um recurso a mais para compreender os elementos que, por meio da pesquisa etnográfica, eu já havia detectado. Ele foi elaborado com 11 questões dissertativas, tais como: Você assiste a novela e por que? Você acha que a novela reflete a realidade dos imigrantes italianos no Brasil? Quais seus personagens preferidos? Por quê? Uma das questões solicitava que avaliassem se o drama, nos aspectos apresentados de sexualidade, moral, religiosidade, família, trabalho e alimentação, refletia a realidade dos imigrantes e por quê. Elaborei também questões específicas sobre a mulher e os comentários que estariam, porventura, ouvindo acerca da novela. As questões foram oriundas de tensões que observava no trabalho de campo, especialmente no tocante ao comportamento sexual e aos valores religiosos dos personagens italianos que eram severamente criticados por meus pesquisados. Solicitei aplicar os questionários nos cursos de italiano, pois considerava que os mesmos, por congregarem estudantes em vários turnos e de várias idades e classes sociais, possibilitariam um olhar mais atento sobre determinadas questões para os descendentes de imigrantes italianos. Serão as respostas dadas a esses questionários utilizadas para fins de análise no presente artigo.
"Nem polenta tinha" - era só festa
A polenta, um dos símbolos culinários locais que remetem à imagem dos pioneiros italianos, foi apontada pelos descendentes de italianos questionados como pouco presente na novela16. O excesso de festas e dança associado à comida também não agradou. Segundo os descendentes, se havia festas, estas se davam em dias e ocasiões especiais e não com tanta freqüência como mostrava a novela. Era como se o italiano daqui trabalhasse mais e de forma mais árdua do que a televisão estava mostrando. Contudo, uma entrevistada de 45 anos, descendente de segunda geração, diz que sua mãe, uma senhora já idosa, ficava "fascinada" assistindo às cenas de festa na novela, e que seriam justamente estas que a fariam "retornar ao passado". Esse tipo de comentário faz supor que, conforme Halbwachs (1990), permanecendo na memória aquilo que é partilhado socialmente, a novela, mesmo não fazendo justiça ao que os descendentes locais considerariam correto, promoveu a revivificação de determinadas memórias. Nesse processo, dialética de indivíduo e coletivo, não importaria tanto como as festas seriam mostradas na ficção, mas aquela outra festa, que estava lá na memória da descendente e que, partindo das imagens televisivas, pôde ser narrada, comentada ou citada em um questionário, como feito pela filha daquela senhora a mim.
Uma descendente salientou que, quanto à alimentação, a novela em nada reproduzia a realidade dos italianos locais: "Não há pão, salame, polenta!", respondeu ela. A mesma entrevistada diz que utensílios típicos da cozinha italiana não apareceram na novela. Outra entrevistada, de 21 anos, diz que na novela "só aparece o macarrão". Em matéria publicada no Clipping Diário do Povo, de 20/2/2000, é colocado que "Novela dispara o ibope do macarrão - Novela de italianos dá água na boca e aumenta a receita dos fabricantes de macarrão caseiro". Segundo a reportagem, os fabricantes do setor estariam sentindo reflexos positivos nas vendas, e a novela seria "uma propaganda gratuita dos costumes italianos". A indústria Adria teria, inclusive, lançado um macarrão com o nome Terra Nostra. Nessa mesma reportagem, era exposto por um dono de Pastifício de Campinas que, após a novela, o ponto alto das vendas seria o macarrão tipo talharim e que o cliente já chegaria pedindo o "macarrão da Paola"17. Para Almeida, que realizou pesquisa etnográfica da recepção da novela O Rei do Gado em Montes Claros-MG, não se pode esquecer que a televisão brasileira se desenvolve similarmente ao crescimento do mercado consumidor e de uma cultura consumista no país (2005, p. 1). Enfim, elementos que se intercruzam na televisão como expressão cultural e como veículo comercial e que poderíamos denominar de campo de produção e recepção das telenovelas.
Um entrevistado de 37 anos diz que não era possível nem fazer comparações com a alimentação da IV Colônia de Imigração Italiana, ou seja, a comida daqui seria mais italiana e melhor do que aquela mostrada na televisão. Ele mesmo critica que, na novela, não aparecem os animais, tão apreciados na alimentação dos italianos, como o porco, por exemplo. Uma entrevistada, descendente de terceira geração, 28 anos, quando questionada se a novela refletia historicamente a realidade dos imigrantes no tocante à alimentação respondeu que:
"Sim, reflete. Na casa de Leonora, sempre a polenta está presente nas refeições e, na colônia italiana, tudo é motivo de comida".
Nessa resposta se observa o quanto a novela, mesmo se passando em um cenário espacial distinto daquele dos imigrantes italianos locais, fez com que as imagens espaciais dialogassem. O espaço das fazendas de café passa a ser interpretado como o "espaço da colônia", ou seja, evoca na descendente referências ao que ela atribui significação como um "espaço de italianos", e a polenta, embora apontada como ausente por muitos, esteve presente na resposta dessa entrevistada em particular. Essas questões nos possibilitam refletir sobre as múltiplas leituras que a imagem televisiva proporciona, permitindo, por vezes, ressignificações que dialogam com as categorias locais e que fazem com que ficção e "não ficção" se intercruzem abertamente nos imaginários individuais.
Outro entrevistado, 37 anos, descendente de terceira geração, respondeu que "tem a polenta e o vinho, mas falta a salada". Os elementos de uma culinária reconhecida como tipicamente italiana em nível local são, portanto, reivindicados, e a novela, por não exibi-los ou por exibi-los pouco, faz com que, nesses espaços de tensão, o indivíduo possa refletir acerca de seus hábitos culturais e afirmar positivamente, como opção, determinados hábitos e gostos que seriam "típicos e os melhores" porque seus. Há que se compreender que, quanto à questão da alimentação, os descendentes de italianos locais a colocam como parte de um determinado "estilo de vida" e, quando reivindicam italianidade, fazem-no também aludindo a todos os elementos que estariam presentes nela, como pratos, preferências gastronômicas e técnicas de preparo que conotam determinado controle de emoções e disciplina. As saladas verdes representaram uma fronteira adscritiva importante entre eles e os "brasileiros", considerados pouco apreciadores de verduras no início do processo colonizador, fato referenciado em várias passagens literárias. Remetem também ao trabalho da terra, na qual os italianos produziam o que os nativos não conseguiam, segundo eles, fazer. As verduras representam um gosto calcado na disciplina sobre a terra e o trabalho constante nela. No mesmo gosto alimentar promovedor de fronteiras identitárias, estariam a polenta, o pão colonial, a "cuca"18, a sopa de capeletti, o risoto, o vinho, o salame, o queijo colonial, as "chimias"19, entre outros. Percebe-se que a televisão permitiu uma certa visibilidade das fronteiras adscritivas locais em referência à comida, seu preparo e consumo e aquele que era apresentado na novela. Para se comer, entre os descendentes por mim pesquisados, ainda se observam determinadas regras: primeiro as mulheres servem aos homens, depois servem às crianças e finalmente elas se alimentam. A novela apresentava a refeição como algo "de festa", o que fazia desaparecer toda uma estrutura hierárquica familiar que está envolta no "ato de comer". Tanto o que se comia na novela como a forma de se comer não condiziam com as leituras locais. Nesse aspecto, a questão da comida possibilitou não somente reflexões sobre a alimentação, mas sobre valores também, e o relevante, creio eu, é que tenha se mantido como algo narrativamente importante na definição das fronteiras das italianidades locais.
A novela do "casa-separa, casa-separa" - redefinições de gênero, família e sexualidade
As mulheres italianas presentes na novela só foram reconhecidas por sua dedicação ao trabalho. A personagem principal, Giulianna, foi alvo constante de severas críticas, pois não seria boa mãe, nem corajosa e forte, como os descendentes atuais pensam que devem ter sido suas antepassadas. Giulianna foi o antiexemplo: infiel, egoísta, pouco dedicada aos filhos e à família e chorona em demasia. Além do mais, segundo os questionários, as mulheres da novela seriam pouco submissas. As "antigas" não teriam vida própria, viveriam para a família, obedecendo às ordens do pai e depois às do marido e filhos, modelo que ainda pode ser encontrado entre camponeses descendentes de italianos20.
A infidelidade das personagens femininas e sua falta de apego aos filhos foram fortemente criticadas também. Segundo os estrevistados, isso estaria produzindo estereótipos negativos sobre a "mulher italiana". Para uma entrevistada de 22 anos, sexo, entre italianos, era permitido somente depois do casamento. Para ela, as mulheres da novela seriam muito promíscuas e agora "falam mal das mulheres italianas". Outra entrevistada, de terceira geração, diz que a sexualidade das italianas era muito reprimida e que muitas a negavam e, talvez, houvesse algumas que conseguissem vivê-la sem pensar em pecado. Contudo, a noção de pecado não aparece nas principais personagens italianas femininas: Giulianna engravida solteira e Paola tem amantes. Da mesma forma, foi respondido que "a mulher da época não andava solta" como aquelas presentes na novela (descendente de terceira geração, 37 anos). Enfim, as noções de corpo, sexualidade e padrões sexuais apresentadas na novela, de certa forma, chocavam-se com as representações ideais acerca da "mulher italiana", fosse a do passado ou a do presente que, embora inserida em universos mais individualistas, mantém ainda uma vinculação forte com a família enquanto um valor a ser preservado, o que, por vezes, demanda-lhe sacrifícios e que abdique de projetos pessoais que tragam risco à unidade familiar. Para os descendentes por mim pesquisados, fossem os do meio urbano ou rural, a sexualidade feminina é ainda um tabu e a "boa conduta" das mulheres é altamente valorizada e exigida. As sanções ao desvio desse "ideal feminino" podem ser a fofoca, o isolamento, a exclusão, o que finda por estigmatizar aquela identidade feminina, tornando-a não mais potencialmente apta ao mercado matrimonial ou ao convívio público mais amplo. As descendentes mais jovens reclamam disso, contudo estão cientes do peso de suas opções quanto à sexualidade.
Um dos elementos que fez com que a novela, a partir de determinado momento, deixasse de ser apreciada e assistida em algumas famílias foi o fato de que o casamento não era uma instituição levada a sério entre os personagens. A novela não teria sido fiel à noção de casamento monogâmico presente entre os italianos locais. Uma entrevistada, de 21 anos, descendente de quarta geração, diz que a família italiana era muito mais conservadora e patriarcal, "na qual o pai era o último e único a dar palpite". Outro entrevistado, 59 anos, comenta que a mulher italiana não se expunha tanto, era mais conservadora do que aquelas presentes na novela. Além disso, ressalta ele, aquelas famílias italianas da novela tinham poucos filhos, diferente do padrão camponês local. Ou seja, a mulher italiana ideal era a mamma, pouco sensual, religiosa, com uma prole extensa e totalmente devota aos seus.
Os personagens preferidos foram, em disparada, o casal Leonora e Bartolo que, segundo as respostas, mais perto chegavam do ideal do imigrante: fiéis, trabalhadores, ambiciosos, respeitosos, apegados à família e empreendedores. Um entrevistado, do sexo masculino, com 21 anos, diz que o casal parece
"ser um retrato mais fiel da imigração, não fazendo cenas que ofendam a imagem dos italianos vindos para o Brasil".
O mesmo entrevistado diz que, na novela, não aparecia, de forma nenhuma, o papel importante desempenhado pela mulher imigrante no repasse da religião a seus filhos. Segundo ele, "não há religião nas famílias", e a moral das italianas atuais e do passado estaria sendo ofendida pela da novela. Outra entrevistada, 40 anos, fala que aquelas mulheres seriam avançadas demais para a época, e as italianas seriam "mais recatadas, trabalhavam e se dedicavam à família e à religião". O comentário entra em consonância com as características ainda pouco individualistas dos imigrantes em finais do século XIX. Numa sociedade tradicional, em sua maior parte camponesa, na qual as regras familiares e coletivas eram rígidas, as mulheres não se davam o direito de vivenciar o amor romântico, separando-se, deixando filhos e pensando somente em seus interesses, como fez a personagem Giulianna21. A figura ideal da mulher italiana é a da mulher abnegada, que pensa primeiramente no coletivo e depois em si mesma. Pode-se dizer, assim, que o individualismo atribuído àquelas personagens é, em muitas famílias, irrealizável ainda hoje. Como um padrão urbano, classe média, ele não condiz com as representações do feminino e de gerações existentes entre os descendentes de italianos em Santa Maria. Assim responde uma entrevistada de 23 anos:
"Independentes e saidinhas demais. Acho que as italianas obedeciam mais aos maridos".
A mesma entrevistada disse que o comportamento masculino apresentado na novela também não estava sendo bem retratado, citando o exemplo do personagem Francesco, que teve uma amante (Paola), parecendo tudo muito "normal". Segundo ela, "é muito absurdo". O casal Bartolo e Leonora, escolhido como modelo, representaria o amor respeitoso, a luta e o trabalho, características idealizadas nos antepassados22. A falta de respeito pela instituição familiar demonstrada pelos outros personagens italianos chocava. "Como", perguntou um entrevistado, "sendo eles tão tementes a Deus, fariam sexo antes do casamento ou abandonariam suas famílias daquela forma?" Uma entrevistada de 45 anos, descendente de segunda geração, questiona o carinho dos homens italianos da novela para com as mulheres. Diz ela: "Eles não eram tão carinhosos com suas esposas".
Outra entrevistada, do sexo feminino, de 38 anos, diz:
"Creio que na época não existia tanta troca. Troca de marido e mulher, acho ridículo isso. Acredito que não acontecia isso, e também muitas cenas pesadas para o horário e a época".
Segundo um entrevistado de 66 anos, a novela teria "desdourado o caráter italiano" devido aos padrões sexuais transmitidos. Um descendente de 24 anos ressaltou que:
"Era um tempo em que a mulher se dava muito valor: trabalhar em casa, cuidar dos filhos etc.".
Durante meu trabalho de campo, as reclamações que mais ouvia eram de que a personagem Giulianna chorava muito e que "as antigas" não eram assim, não teriam tempo para isso. Primeiro sob a autoridade paterna e posteriormente sob a autoridade do marido, sempre com muitas ocupações, as imigrantes são representadas como mulheres fortes e não chorosas. Em minhas conversas, ao mesmo tempo em que as descendentes demonstravam certa piedade dela, cravavam-lhe críticas. Era por meio dela que distinguiam e reconstruíam a imagem das "antigas", completamente opostas à dela.
Nesse sentido, penso que a novela promoveu debates acerca dos papéis femininos atuais e passados. Quando fazia entrevistas com mais de uma geração presente, encantava-me com as tensões provocadas pelo drama televisivo, fosse sobre casamento, sexualidade ou maternidade. As gerações mais novas, apesar de não concordarem com a personagem, entendiam que, contemporaneamente, algumas mulheres italianas poderiam agir assim. Contudo, "as antigas" não agiriam como Giulianna23.
Uma entrevistada de 30 anos, descendente de quarta geração, respondeu no questionário que
"em parte, no passado havia traição como hoje, mas nunca na voz de todos, à frente de todos".
Outro entrevistado, de 55 anos, descendente de terceira geração, respondeu que a sexualidade apresentada na novela
"é uma filosofia [...] enfraquecer e desvirtuar a família, promovendo a promiscuidade".
O caráter sério e respeitoso atribuído às antepassadas foi, de certa forma, violado pelas imagens televisivas: muito erotismo e uma sexualidade diferente daquela experimentada entre os italianos do passado e, mesmo, entre os descendentes de italianos atuais. Ou seja, houve e ainda há entre os descendentes de italianos uma sexualidade marcada pela noção de pecado, destinada à procriação e não ao prazer, o que faz com que o comportamento dos personagens fosse largamente chamado de promíscuo, uma vez que estes colocavam seu desejo acima das normas coletivas.
O "pioneiro" não estava lá
Uma entrevistada, quando questionada se havia, por parte dela, identificação com a história narrada pela novela, respondeu que não,
"porque meus avós se estabeleceram nessa região e passaram muitas dificuldades, tiveram que começar do zero".
A colocação faz sentido quando se observa a tônica local acerca dos "antigos", ou seja, de que foram desbravadores, que derrubaram matas, que desenvolveram as localidades para as quais se dirigiram, que trouxeram progresso e civilização. Na novela, o italiano se dirigia para fazendas de café com plantações já em andamento ou ficava nas cidades, o que fez com que a figura do pioneiro não tivesse tanto sentido como teve aqui. Outra entrevistada, de 20 anos, descendente de quarta geração, declarou que não assistia à novela porque esta não caracterizava a vida do "nosso italiano":
"Tanto é que a novela está mostrando mais a boa vida da sociedade paulistana do que o trabalho árduo e penoso de nossos imigrantes".
A categoria trabalho, da forma como estava sendo apresentada na novela, não criava identificações. Outra entrevistada, de 22 anos, descendente de quinta geração, respondeu que:
"Primeiramente, acho que a realidade da imigração italiana é muito triste e, se fosse relatada na sua 'real', não daria tanto Ibope. A novela reflete um pouco do que gostaríamos que tivesse sido a imigração".
A mesma entrevistada quando questionada acerca dos comentários que estaria ouvindo da novela reforça que o amor estaria sendo bem relatado, mas que a imigração italiana não estava sendo retratada em seu aspecto sofrido, árduo, mas como um processo tranqüilo, o que ela consideraria mentiroso. As únicas cenas que foram dignas de consideração para ela são as "do navio":
"Cenas de muito realismo, cenas que emocionaram todos os filhos de imigrantes que conheço".
Outra entrevistada, descendente de terceira geração, respondeu que a novela não contou a história dos imigrantes:
"Em relação às dificuldades que são mostradas, parecem 'adocicadas'. Os relatos passados por meus familiares são tristes".
A tristeza foi algo constante em vários questionários, como se o excesso de festa e cantoria presente entre os imigrantes apresentados na novela desmerecesse a saga dos antepassados24. Outra entrevistada, descendente de terceira geração, diz que a novela passou uma visão distorcida para os adolescentes e as crianças, uma vez que a realidade dos imigrantes foi muito mais "cruel". Diz ela:
"As pessoas de mais idade podem rever algumas cenas que relembram o que passaram ou ouviram falar de seus pais. O bom é estar próximo deles para ouvir suas críticas".
Havia a preocupação com que a novela subtraísse a força com que a saga dos pioneiros é contada, pois muito da positividade do italiano local adviria de seu empreendedorismo, de sua capacidade de abnegação e trabalho, elementos que a novela não estaria mostrando a contento. Além disso, no melodrama, o imigrante não é o civilizador, ele vem substituir a mão-de-obra escrava, e sua relação com a terra é mediada pela figura do patrão. Enfim, a América mostrada não é a da liberdade e da propriedade, símbolos fortes entre os imigrantes locais quando justificam a travessia efetuada por seus antepassados.
A religiosidade que não apareceu
A religiosidade, um dos sinais diacríticos mais fortes entre os descendentes de italianos locais, segundo eles, não esteve presente na novela. Não havia missas, terços, procissões, práticas presentes entre os mesmos. Aqueles imigrantes apresentados na televisão seriam pouco religiosos se comparados com os daqui. Uma entrevistada, descendente de quarta geração, disse:
"Italiano é o católico fervoroso e de amor aos santos e a Deus. Reza seu terço todas as noites, faz novena, vai à igreja, e o padre é o grande conselheiro familiar".
Contudo, o tipo ideal de católico religioso muitas vezes é atenuado quando se faz pesquisa sobre a prática religiosa entre os descendentes atuais. A religiosidade é um sinal diacrítico importante, porém mais como uma referência de vida do que propriamente pela prática dos rituais católicos. A mesma entrevistada acima exposta respondeu no questionário que a sua religião era o espiritismo. O que causava indignação em alguns descendentes era a figura dos antepassados que não encontrava respaldo nos imaginários locais, pois aqueles são tidos como exemplos a serem seguidos através das gerações, e o imigrante italiano seria católico25, mesmo que seus descendentes tenham feito opção por outra religião.
Outro entrevistado, 59 anos, diz que a religiosidade dos italianos era muito diferente, e não era só nos batismos e casamentos que havia obediência à doutrina. Enfim, o italiano vivia a religião como algo que encompassava a totalidade de sua vida e não simplesmente os aspectos rituais. O padre que apareceu na novela foi amplamente criticado por beber demais e não ser convicto de sua vocação, o que desagradou a alguns descendentes daqui, que ainda consideram o padre um exemplo coletivo. O espaço doméstico do italiano apresentado na novela não condizia com o local, no qual as casas dos descendentes têm, em sua quase totalidade, fortes referências ao catolicismo, como imagens de santos, "santinhos", crucifixo, terços etc. Há casas, inclusive, nas quais encontrei "altares" em que eram postos imagens de santos, fotos de familiares, flores, folhetos de novenas, folheto de orações, terços e outros objetos "bentos". Nesses "altares", é comum, durante algum momento do dia, alguém parar para fazer uma oração, uma petição ou mesmo para "pensar na vida", uma vez que é considerado um espaço sagrado dentro do mundo doméstico. O hábito de rezar o terço à noite e fazer as orações antes de dormir também não fora apresentado na novela, o que provocou descontentamentos. Os descendentes de italianos locais, em contraste com "aqueles" da telenovela, poderiam reafirmar a importância da religião em suas vidas e, dessa forma, esse sinal diacrítico adquiriria maior sentido, uma vez que muitos não conseguem conceber uma existência sem o preenchimento de uma prática religiosa, mesmo que não seja a católica.
Reflexividade, memórias e subjetivação
Uma descendente de segunda geração, 45 anos, respondeu o seguinte ao ser questionada sobre sua identificação com a novela:
"Sim, como descendente, a novela me toca, e o sangue fala mais alto".
Essa resposta remete à recorrente relação entre sentimento de pertencimento étnico e subjetivação. Compreendo que algumas identificações étnicas contemporâneas e, especialmente, a dos descendentes de italianos por mim estudados se configuram como tentativas dos indivíduos de elaborarem acerca de si mesmos uma noção de trajetória na qual as origens desempenham um papel decisivo. A saga dos antepassados, as histórias familiares se elencam no rol dos elementos que contribuem para tal empreitada. Na medida em que a identidade de ítalo-brasileiro é positivada localmente, a linhagem de ascendência também elevaria a auto-estima dos descendentes nos mercados de bens simbólicos locais. Da mesma forma, os elementos presentes nos processos de pertencimento trazem uma série de atributos com forte carga emotiva, o que permite que os indivíduos se expressem de forma mais subjetivada. A novela Terra Nostra, em minha compreensão, possibilitou essa subjetivação.
Quando as mulheres descendentes se questionavam, comparavam e criticavam os comportamentos das personagens femininas, estavam refazendo leituras de si mesmas, de suas opções e trajetórias de vida. Repensavam suas famílias, a educação de seus filhos, seus casamentos, a fidelidade e os tabus envolvidos nas questões sexuais. Constatei que a novela abriu uma porta para que muitas mulheres, mesmo discordando do comportamento liberal das personagens femininas, pensassem sobre aqueles temas, em especial sobre sua sexualidade26.
Diria que esse processo reflexivo tenso, pelo qual se procura afirmar aquilo que se é através da negativa do que não deveria ser, efetivou-se entre os descendentes não somente na questão dos papéis femininos e masculinos, da religiosidade, do trabalho e da alimentação, mas também na própria noção de pertencimento ítalo-brasileiro. Para Lopes, a ficção é um lugar privilegiado para se narrar a nação, seja ela representada, imaginada ou disseminada (2004, p. 32). A teleficção tenderia a criar uma comunidade emocional. No caso por mim estudado, diria que se estabeleceu uma comunidade emocional virtual de descendentes de imigrantes italianos que, embora separados imaginariamente como "os de lá" e "os daqui", evocavam sentimentos de pertencimento similares, em especial na primeira parte da novela. Considero importante observar como os indivíduos e grupos se posicionam diante das narrativas midiáticas, que são também disseminadoras de noções de tempo, espaço e papéis sociais específicos. A resposta que segue se inscreve nessa perspectiva, quando a descendente diz que a novela
"recria a história para que possamos resgatar o conhecimento de nossa identidade como italianos".
Um descendente, cuja mãe seria filha de italianos, respondeu que
"ela espera ansiosamente o horário da novela, porque vê, retratados na tela, cenas de sua infância, objetos, roupas, veículos etc.".
Outro descendente de terceira geração, 31 anos, diz que as famílias que ele conhecia assistiam à novela, criticavam-na muito, entretanto, continuavam a assisti-la. Da mesma forma, nos cursos de italiano, houve um consenso de que a novela provocou uma "moda" que aumentou significativamente o número de alunos em nível local. Pode-se pensar como Martín-Barbero, quando salienta que os meios debilitam "el pasado y diluyen la necesidad de futuro" (2001, p. 3). Embora não concordando de todo com o autor, respaldo sua idéia de que não há memória sem conflito27, pois os descendentes de italianos locais percebiam que a história dos antepassados poderia estar, segundo eles, sendo distorcida e criticavam severamente a novela, alguns, inclusive, deixando de assisti-la. Contudo, não há como negar o orgulho que sentiam ao verem exposta, no horário nobre da televisão brasileira, uma novela que narrava a imigração italiana. Chamou-me a atenção que a escritora Zélia Gattai, descendente de italianos, publica, em 2000, Cittá di Roma, obra na qual narra a vinda de seus avós para o Brasil. Segundo reportagem publicada no Estadão.com.br, de 1/5/2000, a autora teria declarado que a idéia de contar a saga dos avós surgiu ao acompanhar a novela Terra Nostra28, mostrando, assim, a força da mensagem televisiva sobre os descendentes como um todo, em especial no começo da exibição da novela29.
De acordo com Bonin, que realizou estudo de recepção da novela Suave Veneno30 entre camponeses descendentes de alemães e italianos na cidade de Urubici-SC, as categorias de trabalho, poupança, planejamento do futuro e religiosidade operariam mediações significativas na recepção daquela telenovela, funcionando como sistema de referência pelo qual o melodrama seria interpretado (2002, p. 23). Observo que esse processo também se deu entre os descendentes que pesquisei. Pode-se dizer que a alteridade dialogava no tempo e no espaço da recepção (e após esta também). Os personagens eram elogiados ou desmerecidos conforme suas atitudes perante determinadas circunstâncias e, assim, o indivíduo poderia questionar "Eu, como descendente de italianos, agiria desta ou daquela forma?", exercitando a reflexividade que tal tipo de narrativa midiática propicia. Isso não quer dizer que, no caso da novela Terra Nostra, os valores individualistas apresentados no melodrama enfraqueceriam uma noção de pertencimento coletivo, mas sim que a força de muitas regras tidas como tradicionais entre os descendentes (como a religiosidade, o apego à família e ao casamento) acabou, inclusive, por ser fortalecida. Foi por meio do processo reflexivo que muitos valores vigentes foram justificados e que a saga idealizada dos antepassados foi revitalizada.
Uma descendente, 21 anos, de quarta geração, respondeu que sua avó não assistia mais à novela porque tudo ali seria mentiroso e
"só teria cenas de sexo. Ela prefere assistir ao Ratinho que é mais 'real'".
Como salienta Sousa, a relação entre mídias e sociedade e entre emissor e receptor é conflitiva (2004, p. 8). O que interessa ao antropólogo nesse processo é perceber como os conflitos se desenvolvem e quais os elementos presentes neles. No que concerne às identidades étnicas, observar, especial e atentamente, quais sinais diacríticos são acionados para interpretar os personagens, suas falas e ações, para estabelecer fronteiras entre "eu" e "eles". Isto é, aquilo que gera desacordos e o que não geraria. Ronsini, ao elaborar estudo de recepção entre mulheres camponesas descendentes de italianos na localidade de Três Barras-RS, observou que os membros mais velhos da comunidade acreditavam que os jovens se deixavam influenciar pelo que viam na televisão e, por isso, apoiavam, sem êxito, as tentativas da Igreja para inibir, por meio de sermões nas missas ou de interdições, tais comportamentos tidos como urbanos ou muito modernos (2001, p. 101)31. Penso, como Almeida (2003), que a televisão e a novela promoveriam uma certa "educação dos sentimentos", que se daria concomitantemente a um processo reflexivo, no qual os indivíduos, ao "lerem" as representações televisivas, começam a se comparar32. Compreendo ser nessas identificações-distinções que residem muitos dos elementos que interessam ao antropólogo investigar.
Concordo com Orozco-Gomes (2003) quando salienta que, nos intercâmbios comunicacionais, deve ser observada a criatividade e iniciativa pessoal dos sujeitos. Em reportagem do Clipping Diário do Povo, de 20/2/2002, o presidente da Casa D'Itália de Campinas teria declarado que concordava com a influência da novela Terra Nostra na vida do campineiro (e de todo o país) "no sentido de ela estar resgatando a cultura italiana - um resgate do próprio orgulho de se ter descendência italiana". Não somente entre italianos esse processo se daria. Quando a Rede Globo de Televisão escolheu a atriz Taís Araújo para protagonizar a novela das 19 horas, Da Cor do Pecado, no ano de 2004, também ocorreram questionamentos sobre a forma como os negros eram retratados no melodrama. A atriz teria declarado à revista Raça Brasil que veria sua participação como um degrau importante para o fim do preconceito (Oliveira & Pavan, 2004, p. 2).
Partindo da literatura consultada na área de comunicação, observei que faltam pesquisas mais específicas para analisar como os processos de negociação de significado se desenvolvem33. A etnografia34, dessa forma, em muito poderia contribuir para desvendar os bastidores dessas tensões. Contudo, as pesquisas deveriam estar voltadas para o universo cultural mais amplo, no qual a televisão é um entre tantos outros elementos presentes. Do mesmo modo, penso que deveriam ser conduzidos estudos de outros meios de comunicação, como o rádio35, a imprensa, a Internet, a indústria musical etc.
Considerações finais
Compreendo que os meios de comunicação influenciam direta e indiretamente no processo de construção das identidades étnicas, seja no mundo rural ou urbano. Não há como negar a importância, no caso por mim estudado, das memórias familiares e individuais escritas e divulgadas, dos programas de rádio, dos jornais e, especialmente, da televisão. Para Ronsini, a televisão se consolidaria como um veículo privilegiado de informação e lazer e que funcionaria como "mediação fundamental entre a realidade vivida e o mundo sonhado" (2001, p. 102). Concordo amplamente com a autora e compreendo, assim, porque a novela Terra Nostra, apesar de não agradar aos descendentes locais, continuava a ser assistida por muitos. O indivíduo exercia o distanciamento reflexivo de saber que aqueles personagens eram também italianos, "mas não os daqui", e que a novela era de época, "mas ficcional". Mesmo que fosse para discordar, ali estavam todos os dias prontos a assistir à "Giulianna chorar". E, quanto mais discordavam dos "italianos de lá", mais reforçavam os sinais diacríticos dos "italianos daqui", tais como a religiosidade, o apego à família e aos filhos, o trabalho árduo e o cultivo de determinados hábitos alimentares.
Esses elementos mostram que o receptor dialoga com as informações recebidas e sabe reconhecer que a telenovela é também uma forma de lazer e de entretenimento. O que não quer dizer, contudo, que não se preocupe com a repercussão que imagens e estereótipos negativos tenham na coletividade mais ampla. Especialmente no caso do comportamento das mulheres italianas, as descendentes sentiram que a forma como essas se comportavam na novela interferia na imagem que os "outros" poderiam fazer delas. O que mais desagradava, contudo, eram os arranhões provocados nas tipificações idealizadas dos antepassados, modelos a serem admirados e seguidos36. A literatura local acerca dos antepassados, por outro lado, poderia ser considerada como uma glorificação constante desses. Ela tem sido crescente, em tom memorialista, e, em meu entendimento, deve ser compreendida dentro do crescente autobiografismo que se tem observado na literatura como um todo.
Futuramente, devido às novas tecnologias, penso que haverá a necessidade de se estudar como se processam as negociações identitárias por intermédio da Internet e outros meios de comunicação37. Somente etnografias que estudem os grupos numa amplitude maior, numa thick description (Abu-Lughod, 1997, p. 9), podem conseguir compreender as interseções entre esses mundos que se encontram intercruzados nos processos de emissão e recepção das mensagens dos media.
Notas
1 Este artigo foi originalmente apresentado no XXIX Encontro Anual da Anpocs, em Caxambu, 2005.
2 Por região central, compreendo a cidade de Santa Maria e os municípios vizinhos, inclusive aqueles formadores da denominada IV Colônia (Silveira Martins, Agudo, São João do Polêsine, Dona Francisca, Faxinal do Soturno, Restinga Seca, Nova Palma Ivorá e Pinhal Grande).
3 Atualmente, desenvolvo um projeto de pesquisa intitulado Os "italianos" na imprensa santa-mariense (1990 a 2005), que pretende acompanhar a trajetória de visibilização desse grupo em nível local por meio da mídia impressa. Para tanto, estou formando uma hemeroteca, na qual tenho arquivado a aparição não só dos italianos, mas também dos alemães, judeus, sírio-libaneses, negros, poloneses, ciganos, entre outros. Pretendo, futuramente, fazer uma análise comparativa da forma de aparição desses grupos na mídia impressa local.
4 Ambos descendentes de italianos.
5 A cena da travessia apresentada no primeiro capítulo marcou fortemente os descendentes locais. Ela teria sido gravada no Porto de Southampton, na Inglaterra, no vapor SS Shieldhall, de 1940, e teria custado 1 milhão de reais. Cerca de 300 figurantes teriam participado da mesma.
6 Denomino de agentes interétnicos aqueles indivíduos que trabalham, voluntariamente ou não, em prol da valorização e da visibilização da cultura italiana em nível local, seja por intermédio das entidades italianas ou não. Santa Maria possui vários programas de rádio que exaltam e promovem o sentimento de italianidade. Alguns mais voltados para o meio rural e outros para camadas médias urbanas. Esses programas trazem uma forte carga emotiva em seus desfechos. A história do barracão é uma das narrativas que está constantemente sendo lembrada por meio deles. Da mesma forma, em nível local, há uma literatura crescente de memórias familiares e de lugares que acabam sendo interpretadas como versões oficiais acerca do processo imigratório.
7 Em artigo denominado "Lorenzoni: homem, migrante, letrado", analiso parte da trajetória desse migrante e a forma como retratou a experiência migratória.
8 Desenvolvido em minha tese de doutoramento denominada Italianidade no Brasil Meridional - a construção da identidade étnica na região de Santa Maria-RS.
9 Segundo a autora, "No Egito, assim como em outros contextos pós-coloniais, formas culturais como o melodrama televisivo, exibido pelas indústrias nacionais de televisão, são consideradas pelos agentes estatais e produtores profissionais de classe média como instrumentos eficazes de desenvolvimento social, consolidação nacional e 'modernização'" (2003, p. 77).
10 Concordo com Giddens quando ressalta que "a auto-identidade torna-se particularmente problemática na vida social moderna, particularmente nos períodos mais recentes" (1993, p. 40).
11 Segundo ele, "I became interested in television because I saw that its effects are comparable to those of humanity's most powerful traditional institutions - family, church, state, and education. Television is creating new cultural experiences and meanings. It is capable of producing intense, often irrationally based, feelings of solidarity and communitas ('community feeling') shared widely by people who have grown up within the same cultural tradition" (1990, p. 9).
12 Essa novela estreou em 17/6/2002 e seria uma espécie de "Terra Nostra II".
13 O campo de construção das telenovelas e o papel dos agentes nele envolvidos foram objeto de análise de Maria Carmem Jacob de Sousa. A autora, inspirada em Bourdieu, alerta que este, ao analisar o campo literário francês, observou que a oposição entre a criação artística desinteressada e as dimensões comerciais estruturaria o campo da produção cultural e artística como um todo. Partindo dessas premissas, Souza, ao analisar a trajetória de Benedito Ruy Barbosa, diz que o autor, mesmo escrevendo para uma televisão comercial, tem sido importante ao enfatizar em suas novelas a questão do poder, desde as práticas e instituições governamentais e sociais até as relações de dominação presentes na intimidade e nos relacionamentos amorosos (2000, p. 17). Enfim, ele seria considerado um agente transformador e polemizador e gostaria disso.
14 Programa exibido de segunda a sábado, pela Rede Globo de Televisão, às 13h45, no qual são reprisadas algumas cenas das novelas e entrevistados atores, atrizes, autores e diretores, o que faz com que o público tenha acesso aos "bastidores" das produções.
15 Os questionários foram aplicados solicitando informações sobre sexo, idade, religião, profissão e procedência geracional de ascendência italiana para os descendentes em abril de 2000. Contudo, deixei claro que poderiam responder somente aquilo que desejassem. Os não descendentes também responderiam, pois pretendia fazer uma análise comparativa. Esse material me permitiu um olhar diferente sobre a televisão e suas linguagens. Os questionários foram aplicados durante as aulas de italiano, na presença dos professores, após eu explicar os objetivos da pesquisa. Eu mesma apliquei os questionários, evitando debates a fim de que cada resposta pudesse ser o mais particular possível. Um dos professores de italiano que me auxiliou na pesquisa gostou tanto da temática que quis aplicar os questionários em uma pequena cidade da IV Colônia na qual também dava aulas. Estes últimos questionários não foram utilizados neste artigo, contudo, em termos comparativos, foram muito úteis. Utilizei-me somente dos questionários respondidos por descendentes, cerca de 55.
16 As falas utilizadas neste artigo são todas oriundas dos questionários respondidos por escrito e aplicados em abril de 2000. Sua grafia foi mantida na forma original.
17 Personagem descendente de italianos que começa a industrializar sua massa de macarrão na São Paulo urbana.
18 A "cuca" é uma espécie de pão doce. É um prato que possui a versão italiana, com mais massa e menos recheio, e a versão alemã, com menos massa e muita cobertura. A "cuca" local se assemelha a um pão colonial com cobertura doce.
19 Esse é o nome atribuído aos doces de frutas pastosas para passar no pão. Possuem textura cremosa, e o mais apreciado é o de uva.
20 Uma entrevistada, descendente de segunda geração, 58 anos, respondeu que "a mulher italiana era uma escrava do marido e dos filhos".
21 O personagem Matteo, que também abandona a mulher e o filho, não é criticado por isso. Seu comportamento não foi lembrado isoladamente em nenhum questionário.
22 Outros personagens lembrados foram Francesco, o banqueiro, em razão de sua ascensão econômica enquanto imigrante, e Paola, a jovem que abre uma fábrica de macarrão, por ser empreendedora e muito bonita.
23 Uma descendente, de quarta geração, 21 anos, respondeu que "as mulheres italianas eram mais ignorantes sobre sexo e nunca abandonavam os filhos (como Giulianna), nem respondiam aos pais e aos maridos (como Paola)".
24 Em artigo denominado "Sangue, suor e lágrimas", analiso o tom em que as sagas familiares e as histórias dos antepassados são narradas.
25 Ainda que se saiba do papel importante desempenhado pela maçonaria em Silveira Martins, sede da colônia no passado.
26 Como bem salienta Thomson, "ouvindo os mitos, as fantasias, os erros e as contradições da memória, e prestando atenção às sutilezas da língua e da forma narrativa, podemos entender melhor os significados subjetivos da experiência histórica" (2002, p. 12).
27 Diz Martín-Barbero que "para cada memoria activada hay otras reprimidas, desactivadas, enmudecidas, por cada memoria legitimada hay montones de memorias excluidas" (2001, p. 7).
28 Segundo o jornal, ela teria declarado que "assistir àquelas imagens dos imigrantes italianos sofrendo nos navios, e depois também em terra firme, fez com que todas as histórias que ouvi dos meus pais voltassem à minha memória" (2000, p. 1).
29 A força da mensagem televisiva sobre os descendentes foi muito sentida na fase inicial da novela, levando inclusive a que alguns desses escolhessem a novela como objeto de estudo. Strohschoen (2003), ao justificar a escolha de seu objeto para a tese de doutorado em comunicação social, declara que: "Qual é a sensação que você teria ao rever algo que fez parte de sua vida em tempo distante... De repente, você se depara com isso que pensava não saber, mas que era verdade... olhando de novo a mesma coisa que você escutou anos atrás como uma estória da vovó, reaparece agora como uma história de italianos numa telenovela" (p. 1-2).
30 Exibida pela Rede Globo de Televisão no ano de 1999.
31 Santos, ao efetuar a etnografia entre descendentes de alemães em Santa Maria do Herval-RS, observou que "a televisão aparece, portanto, como um bem simbólico demarcador e aglutinador de um conflito geracional e cultural. Através da oposição geracional entre jovens e idosos frente às mensagens televisivas, pode-se perceber a presença e a tensão entre os valores individualistas veiculados pela televisão e os valores mais tradicionais e hierárquicos presentes na comunidade" (1995, p. 99).
32 Diz ela, "Nesse sentido, proponho aqui uma leitura do conceito de Geertz de educação dos sentimentos (1989) junto com o processo reflexivo do eu proposto por Giddens (1991; 1993) acerca da alta modernidade. As novelas (entre outros programas dos meios de comunicação) ensinam ao público uma sensibilidade, uma estrutura de sentimentos, nos termos de Williams (1973; 1977; 1992), ou uma "educação de sentimentos", nos termos de Geertz" (2002, p. 42).
33 Excelentes estudos que têm trilhado esse caminho são as pesquisas de Esther Hamburger (2001), Veneza Ronsini (2000) e Heloísa Buarque de Almeida (2002).
34 Aquilo que Lila Abu-Lughod denomina de uma "thick description of television", a qual, segundo ela, "only a mobile ethnography can do justice to the ways these different worlds intersect" (1997, p. 9).
35 Exemplo disso está exposto no paper "A cultura ucraniana na radiodifusão paranaense", escrito por Zeneida Assumpção e Sérgio Luiz Gandini, apresentado no XXVI Congresso Brasileiro de Ciência da Comunicação, em Belo Horizonte, de 2 a 6 de setembro de 2003.
36 Para finalizar, gostaria de resgatar uma reflexão de Lila Abu-Lughod, quando diz que "I suggest that the study of television encourages an anthropology that engages not just with the academy and its 'big words' but with other social fields of the world in which we work" (1997, p. 4).
37 Mohammed Elhajji, em artigo denominado "Memórias das comunidades étnicas entre tempo e espaço", reflete acerca disso. Em Santa Maria, mediante a atuação dos Circolos (vêneto, vicentino, fiulano, lombardo etc.), criou-se uma rede internacional de pertencimento, que tem agregado e estabelecido novas linguagens de italianidade. Compreendo que pesquisas futuras deverão, necessariamente, deter-se nessas novas formas de sociabilidade criadas por essas novas tecnologias.
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Aceito em novembro de 2005.
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ARTIGOS
Estado-nação, identidade-para-o-mercado e representações de nação1
Igor José de Renó Machado2
Professor do Departamento de Ciências Sociais - UFSCar
RESUMO
Este artigo se propõe a explorar o conceito de identidade-para-o-mercado, criado a partir das idéias de Jameson, contidas em seu livro Pós-modernismo: a lógica cultural no capitalismo tardio, e explorado por meio de reflexões que remetem às questões, da minha pesquisa de doutorado, sobre a imigração brasileira no Porto. Apoiado nessa perspectiva, pode-se verificar o papel central do Estado-nação na produção e articulação de identidades-para-o-mercado e de imagens identitárias de fácil consumo num mercado global.
Palavras-chave: identidade, pós-modernismo, imigrações internacionais, Estado-nação.
ABSTRACT
This article aims to discuss the concept of market-identity, constructed from Jameson's book Post-modernism, or the cultural logic of late capitalism. The main idea is that the Nation-State stills the main player as producer of easy consumed market-identities in a global market.
Key words: Identities, Post-modernism, international migrations, Nation-State.
Introdução
A intenção deste artigo é, primeiramente, relacionar as idéias de Jameson (1996) sobre o pastiche ou simulacro da historicidade, características, para ele, de uma forma pós-moderna de cultura do capitalismo tardio, ao que chamarei de pastiche (ou simulacro) da identidade na mesma cultura pós-moderna, a identidade-para-o-mercado. Estabelecerei uma relação entre suas idéias sobre a falta de profundidade atual da percepção da história com processos que considero semelhantes na constituição das identidades (nacionais, étnicas) no mundo de hoje. Como exemplo de análise, recorrerei à situação dos imigrantes brasileiros em Portugal e ao processo de construção de identidades-para-o-mercado. Veremos que as representações de nação, tanto de Portugal como do Brasil, são fundamentais no desenvolvimento desse processo.
Também compararei a identidade-para-o-mercado com o que Said (1990) chamou de orientalismo, como exemplo do fenômeno do simulacro no mundo pós-moderno. Como primeira conclusão, refletiremos rapidamente sobre o papel do Estado-nação na sua conexão e responsabilidade no desenvolvimento das identidades-para-o-mercado.
1. Jameson e o pastiche da historicidade
Para analisar os processos de essencialização de identidade, elaboro o conceito de identidade-para-o-mercado com base nas idéias de Jameson, para quem a forma cultural do capitalismo tardio é a pós-modernidade. Segundo esse autor, o pós-modernismo seria marcado pelo pastiche da historicidade e deve ser visto como "a dominante cultural da lógica do capitalismo tardio" (1996, p. 72). Nesse sentido, ele afirma que a falta de profundidade, a superficialidade, um achatamento da percepção da história e uma cultura da imagem e do simulacro são constitutivos do pós-moderno. Proponho que o capitalismo tardio seja também marcado pelo "pastiche da identidade", que replicaria todas essas características do capitalismo tardio.
A fragmentação da pós-modernidade é marcada por um mundo "transformado em mera imagem de si próprio" (idem, p. 45). Nesse contexto, o passado é transformado em uma grande coleção de imagens, um "simulacro fotográfico". Esse repertório pode ser relacionado ao que Huyssen (1991) também imaginou como "acervo pós-moderno", embora buscasse nisso um lado positivo não encontrado em Jameson, para quem o simulacro esmaece a percepção da historicidade. Essa "lógica do simulacro, com sua transformação de novas realidades em imagens de televisão, faz muito mais do que meramente replicar a lógica do capitalismo tardio: ela a reforça e a intensifica" (Jameson, 1996, p. 72). Assim, vivemos uma "forma cultural de vício da imagem que, ao transformar o passado em uma miragem visual, em estereótipos, ou textos, abole, efetivamente, qualquer sentido prático do futuro e de um projeto coletivo" (idem, p. 72-3).
Esse é o raciocínio básico, o qual chamarei de "falta de historicidade", para relacioná-lo a uma semelhante "falta de historicidade" da identidade na pós-modernidade, ou seja, no capitalismo tardio3. Proponho uma ligação entre a falta de historicidade, como definida por Jameson, e a produção de culturas objetivadas4 no capitalismo tardio. O "pastiche" da história, ou seja, a própria falta de capacidade de representar a história, característico do capitalismo tardio, pode ser relacionado ao "pastiche" da identidade em sistemas capitalistas, que se torna cada vez mais solidificada, essencializada e objetivada, sem história própria, reduzida a imagens de fácil consumo para a indústria cultural. A esse pastiche de identidade dou o nome de identidade-para-o-mercado.
Essas identidades são formadas e construídas em processos semelhantes àqueles do simulacro da percepção da historicidade, por meio da qual pedaços desconectados e imagens recortadas de um passado nostálgico são montados como material espiritual para essas mesmas identidades (pedaços que são, da mesma forma, imagens vazias do passado, desprovidas de profundidade histórica). Verificamos esses processos, por exemplo, na justificação da Guerra do Golfo, apoiados na imagem e no estereótipo do árabe terrorista - recentemente inflados pelo ataque às Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001 - ou até na produção de desenhos animados como Aladim, onde a essência da diferença, efetivamente, vende. A atualidade da análise de Said (1990), por exemplo, reflete-se na adequação dessa criação do Oriente a novos ambientes pós-modernos, que se utilizam das imagens e essências elaboradas, como modelos, para moldar sentimentos dos mais variados, produzindo imagens e idéias da identidade sem profundidade.
Para melhor demonstrar a eficiência e efetividade da identidade-para-o-mercado, pode-se lembrar que na Copa do Mundo de futebol de 1998, na França, o Brasil pôde ser reduzido a um cartaz que traduziria toda sua cultura5. Em geral, competições como essas são estimulantes de "imagens de identidade" com grande impacto e circulação, e com a conseqüente solidificação de diferenças e a essencialização de características eternizadas e petrificadas em imagens de apelo comercial. Impera a linguagem visual, que nos permite esquecer toda a história que fez e faz que algumas imagens sejam (não que representem) as próprias identidades que deveriam simbolizar. Nesse sentido, isto é, no da solidificação de imagens da identidade, podemos entender a identidade-para-o-mercado e a crise da historicidade, ambas, como parte do mesmo processo, chamado por Jameson de "dominante da lógica cultural do capitalismo tardio".
A especificidade da identidade-para-o-mercado é que ocorre no mercado, para o mercado e através do mercado. A identificação do sujeito com os modos de vida coletivos (as visões de mundo) é mediada pelo mercado. Isso pode incluir processos de mercantilização de identidade - como os descritos por Handler (1984), Herzfeld (1997) e Machado (2003) - ou não. O mais comum é a ocorrência da identidade mercantilizada, ou seja, de indivíduos que se definem pelo acesso ao consumo de determinados bens. Outra forma é transformar uma identidade em sustento econômico. Vender e sustentar-se no mercado de trabalho pelas imagens de identidade é uma forma de identidade-para-o-mercado, que não exclui outras. O fato é que os brasileiros mercantilizam a identidade, mas o processo de identificação dá-se não por causa da venda, e sim por mecanismos internos de valorização de novas formas de classificação (a definição das categorias que constroem o mundo), que têm relação íntima com a venda -são impulsionadas por ela -, mas vão além delas.
As novas categorias de definição do que é o "brasileiro" na cidade do Porto são características de uma identidade-para-o-mercado: essencializadas, desconectadas, sem noção de historicidade, reduzidas a imagens vazias. Isso só pode acontecer numa configuração social - o capitalismo tardio. A identidade-para-o-mercado é um conceito que descreve uma forma de identificação hegemônica no capitalismo atual - no sentido gramsciano da construção de um consenso útil aos dominantes6. Também é uma forma privilegiada de identidade nos atuais embates no espaço social, seguindo o conceito de Bourdieu (1989), ou seja, são as formas predominantes de construção da realidade determinadas pela influência de quem tem capital social, cultural e simbólico7. A mercantilização da identidade é um processo empírico que acontece em diferentes contextos históricos e sociais, não um conceito. A especificidade do processo que descrevo entre os brasileiros é que eles "mercantilizam" uma identidade-para-o-mercado, um processo que só pode acontecer no capitalismo tardio.
A identidade-para-o-mercado, mais do que uma forma cultural do capitalismo tardio, é um mecanismo importante para a construção de identidades sob a égide do capital financeiro. Para além disso, é uma das variáveis do campo social que permitem a perpetuação do sistema capitalista. Através da identidade-para-o-mercado, o capital perpetua um consenso fundamental, pois o motor de identificação de indivíduos passa necessariamente pelo mercado. Demonstro esses argumentos com o exemplo retirado de minha pesquisa de campo no Porto, Portugal, entre imigrantes brasileiros, na qual vemos "em ação" a essencialização, petrificação e mercantilização cultural, que nomeio identidade-para-o-mercado. Procurarei demonstrar por meio de uma rápida narrativa como essas imagens de identidade são constituintes dos sentimentos e das identificações de pessoas no capitalismo tardio.
2. Um caso de identidade-para-o-mercado
As reflexões apresentadas neste artigo são baseadas no trabalho de campo, realizado entre março e outubro de 2000, para a feitura da tese de doutorado (Machado, 2003), além de em duas outras estadias mais rápidas, a primeira em janeiro e fevereiro de 1998 e a segunda em fevereiro de 2002. Meu recorte espacial circunscreveu uma grande área, uma vez que os brasileiros não se agrupam em lugares específicos da cidade. O centro da pesquisa foi a cidade do Porto, onde se concentra grande parte das atividades econômicas dos brasileiros, mas os imigrantes moram nas cidades à volta, que poderíamos chamar de "grande Porto". São elas: Matosinhos, Leça da Palmeira, Vila Nova de Gaia, Maia, Gondomar, Valongo.
O fato de estarem espalhados por lugares dispersos e, muitas vezes, longe uns dos outros facilita, ou potencializa, o papel de bares e restaurantes brasileiros como os pontos de encontro privilegiados, os lugares onde brasileiros travam conhecimento uns com os outros e estreitam suas redes de relações. Os bares e restaurantes, onde uma parte considerável da pesquisa foi realizada, são, de certa forma, os nós de redes sociais que se espalham não uniformemente pela grande Porto e também por cidades do interior do norte de Portugal. Conectam, num mesmo ambiente, várias redes de trabalhadores de diversos lugares, formando um mapa do mundo do trabalho de imigrantes brasileiros no Porto8.
O alvo da pesquisa foi majoritariamente os imigrantes "pobres", buscando um contraste em relação à imagem vigente na época que pressupunha uma imigração brasileira altamente qualificada e bem remunerada9. Essa imagem era derivada dos números oficiais da imigração em Portugal. Mas essas afirmações eram baseadas em dados que apresentavam limitações e ofereciam um quadro que poderia ser distorcido10. A imigração brasileira no Porto não é predominantemente de classe média, como ainda se imagina em reportagens de televisão no Brasil e mesmo em algumas mídias portuguesas. Ao contrário, a maioria das pessoas é pobre e com baixa formação escolar.
O universo mais significativo da vida cotidiana dos imigrantes é o do trabalho. Este ou a busca de um emprego, de certa forma, confere um nexo central às ações e relações dos imigrantes. As relações de amizade em geral se formam nos locais de trabalho; a descoberta dos bares noturnos para os imigrantes também é apresentada aos recém-chegados pelos companheiros de trabalho mais antigos; a busca de emprego se faz através das relações de amigos ou conhecidos de conhecidos que trabalham em algum lugar onde é possível arranjar serviço; as brincadeiras nos churrascos e nas confraternizações se referem aos acontecimentos dos locais de trabalho etc.
Por outro lado, a relação com a sociedade portuguesa também passa pelo local de trabalho: os primeiros patrões portugueses, as primeiras experiências de exploração, a percepção da fragilidade da situação de ilegalidade, o contato com fregueses portugueses (no caso dos que trabalham como atendentes). O trabalho, motivo primeiro da imigração, como atestam várias entrevistas que realizei entre os imigrantes, é uma preocupação onipresente para a grande maioria dos brasileiros com os quais entrei em contato. O universo do trabalho medeia tanto a relação dos imigrantes com a "comunidade brasileira", já instalada no Porto, como com a sociedade portuguesa. É por esse motivo que o cotidiano dos imigrantes tem relações intrínsecas com o universo do trabalho, razão pela qual é importante tentar entender como a experiência do trabalho se articula à construção de uma identidade brasileira específica aos brasileiros imigrantes.
Os trabalhadores brasileiros dirigem-se principalmente para o mercado de atendimento ao público. A hotelaria ainda era, em 2000, a melhor fonte de empregos, principalmente por uma suposta "vantagem estrutural" dos brasileiros: eles têm fama de festivos, simpáticos e, além disso, falam português. Essa "fama" garante espaço no mercado e determinadas características são esperadas deles. As principais são a alegria, simpatia e cordialidade. Acreditando que os brasileiros são portadores atávicos de uma série de características, os empregadores portugueses procuram por estes imigrantes para determinados trabalhos. É por isso que o "atendimento em geral" era a grande fonte de emprego para brasileiros na cidade do Porto. Muitos trabalhavam como garçons, vendedores de lojas, representantes de vendas, músicos. De certa forma, esse emigrante em Portugal é um entretainer. O papel do entretainer delegado ao brasileiro não é, contudo, isento de conotações ideológicas: o processo que se desenrola é o de uma subordinação sistemática do brasileiro aos estereótipos que rotulam todos eles como pessoas alegres e simpáticas.
Os brasileiros passam pelo que chamo de processo de exotização. Esse processo é um fenômeno social de efetivação dos estereótipos - tem relação íntima com a sua produção - mas vai além da mera constatação da sua existência. Para além de ser submetida ao "orientalismo" (Said, 1990), a práxis da população brasileira estereotipada se relaciona com as imagens constituídas do imaginário hegemônico português de uma forma ativa. Ou seja, os imigrantes brasileiros não apenas estão sujeitos à construção das imagens estereotipadas por determinados agentes de poder, mas também são sujeitos ativos da exotização. Assim, adaptar-se mais eficientemente aos estereótipos portugueses pode conferir maior poder a determinadas pessoas. Quero indicar que a forma como os brasileiros na cidade do Porto organizam sua "vida coletiva" permite entender como eles progressivamente vão se tornando "exóticos", no sentido determinado por um universo simbólico português abarrotado de imagens sobre os brasileiros.
O mercado de trabalho é fundamental na análise da construção da organização social dos brasileiros no Porto, como também na construção de identidades essencializadas referentes a imagens estereotipadas sobre o Brasil11. A determinação de um lugar no mercado de trabalho para os brasileiros tem implicações tanto na organização da vida como na construção de identidades. Encaixar-se no estereótipo português sobre o brasileiro facilita a vida do imigrante, que consegue seu emprego mais rapidamente. Por outro lado, a imagem que o imigrante desenvolve como a do "autêntico brasileiro" passa a ser a imagem exotizada. Num movimento coletivo de exotização, as percepções sobre a identidade brasileira começaram a se aproximar dos estereótipos portugueses. Os estereótipos "ganharam vida", e os brasileiros viraram a imagem que deles esperavam os portugueses. Tendo em vista que relações de poder entre os imigrantes passam, entre outras coisas, pelo controle de uma larga rede de possíveis empregadores portugueses, os líderes acabam sendo alguns entre os que podem ser acionados em casos de busca de emprego. Esses líderes são brasileiros que, tendo se encaixado nas imagens correntes sobre o Brasil, conseguiram inserir-se solidamente no mercado de trabalho12. Tornaram-se intermediadores, cuja situação proporciona acúmulo de poder entre os demais imigrantes brasileiros.
Um processo fundamental para entender o cotidiano dos brasileiros é o jogo de centralidades. Chamo de "jogo da centralidade" a luta, entre brasileiros, para estabelecer diferenciações entre si. O "estar no mundo" de imigrantes brasileiros é marcado por uma aproximação a um "centro". No caso dos brasileiros no Porto a luta é para se parecer com uma imagem de identidade brasileira baseada na idéia estereotipada que vige em Portugal e permite a existência de um lugar específico no mercado de trabalho. A questão é, então, quem é mais ou menos brasileiro. O jogo da centralidade é uma constante avaliação, por cada imigrante, da sua própria centralidade em relação aos demais imigrantes. É um ato complexo de classificação que recorre a diferentes variáveis. Os brasileiros se aproximam ao "centro" da brasilidade por rotas diferentes. A diferenciação é um instrumento de poder que serve para distanciar os outros do centro das representações. A elaboração de fronteiras, simbólicas ou não, por parte de imigrantes, não é um exercício de incluir-se num grupo, mas de excluir outros. Ou seja, os limites na aproximação a essa imagem central são impostos aos outros, na esperança de ser mais central por afastá-los. Chamo de "centralidade" essa idéia que descreve um processo.
Os termos "brasilidade", "abrasileirar" são usados no sentido específico do jogo da centralidade: ou seja, "abrasileira-se" aquele que consegue alguma legitimidade no sentido das determinações do "centro exemplar", que aqui relaciono com uma "identidade-para-o-mercado". O centro exemplar é a coleção de imagens estereotipadas sobre o Brasil (samba, futebol, sexualidade e mestiçagem) que regem a conduta das pessoas envolvidas nesse processo. O fato é que, quando um brasileiro se demonstra mais próximo da identidade-para-o-mercado, ele se torna mais central. É bom frisar que a idéia de "falsidade", que ronda a reprodução das imagens essencializadas, é uma idéia "nativa" e faz parte do próprio jogo da centralidade. Embora seja o jogo da centralidade que organiza uma "filosofia nativa" em Portugal - por meio do modelo ideal essencializado da brasilidade -, a própria possibilidade de falsidade implícita nesta filosofia é um dos conceitos nativos que fundamenta o julgamento da centralidade. É por esse motivo que me sinto à vontade em lidar com a produção da identidade entre os brasileiros com o termo "para-o-mercado", pois é uma forma de relação com a suposta essência que está inscrita nos modos de vida destas pessoas.
Vale lembrar que o jogo da centralidade envolve a dinâmica organização do cotidiano e das disputas políticas entre os brasileiros no Porto. O prestígio e as posições de poder são centralizados por aqueles que ao menos aparentam ter a vida considerada, perante os demais brasileiros, como próxima ao modelo ideal. Esse modelo corresponde a uma identidade-para-o-mercado, uma identidade pautada pela solidificação de imagens estereotipadas sobre a essência do brasileiro. Em suas ações, os brasileiros sempre procuram uma forma de construir para si mesmos alguma centralidade que seja reconhecida pelos demais.
O mecanismo básico de abrasileiramento é a forma de ocupação no mercado de trabalho. Ou seja, participar do "mercado da alegria" confere centralidade aos brasileiros. Isso acontece, entre outras coisas, porque o trabalho nesse mercado depende da representação portuguesa sobre o Brasil e de um reconhecimento de brasilidade por parte do empregador. Ou seja, é conferida uma brasilidade compulsória aos participantes desse mercado simplesmente porque os portugueses acreditam que os brasileiros são naturalmente preparados para estas atividades. O reconhecimento de brasilidade, por parte do mercado de trabalho português, é mais um elemento centralizador no jogo da centralidade.
O funcionamento do jogo da centralidade é estruturante da vida social desses trabalhadores e é disputado de várias maneiras: pela valorização de origens regionais ou de algumas atividades como o futebol, a música, a capoeira etc., pela negociação do acesso às redes familiares portuguesas e às oportunidades de emprego. Um dos mecanismos do jogo é a articulação de uma memória mítica que legitima os principais intermediários brasileiros. O jogo da centralidade é o centro nevrálgico dos circuitos de reciprocidade entre os imigrantes, funcionando como um código moral que dá sustentabilidade ao sistema e, ao mesmo tempo, como instrumento político das lutas entre os imigrantes.
É preciso fazer a ressalva que havia (e há) uma fonte dupla de produção dos estereótipos que "viraram realidade" na experiência dos imigrantes brasileiros pobres do Porto: o próprio Estado brasileiro, preocupado em vender a imagem do tropical exótico e da nação mestiça - para fins de turismo e solidificação da identidade nacional -, e a sociedade portuguesa que tem, desde o período colonial, constantemente reelaborado imagens sobre o Brasil. Em meu trabalho13 deixei de lado a produção de estereótipos sobre os brasileiros fabricada pelo próprio Estado nacional e pela sociedade civil brasileira, dedicando especial atenção à segunda das fontes, a sociedade portuguesa, a fim de analisar as especificidades dos processos de exotização em Portugal. Acredito que, embora possam ser vislumbrados em outros contextos nacionais, tais processos acontecem sempre de forma diferenciada, segundo as sociedades de recepção dos imigrantes.
O que esse processo demonstra é como o momento atual é marcado por movimentos de essencialização da identidade, quando os símbolos e as representações desconexos de um discurso nacional - ou das representações da ex-metrópole - tornam-se o norte e o nexo da vida de pessoas em variados contextos. Um dos mecanismos de reforço da identidade-para-o-mercado é justamente o espaço hierarquizado do mercado de trabalho, no caso da migração. O exemplo dos brasileiros no Porto indica como determinadas pressuposições simbólicas impõem comportamentos a sujeitos como resultado de processos complexos de exotização, nos quais os sujeitos são ao mesmo tempo vítimas e agentes de uma "subordinação ativa".
Em Portugal, o exotismo é imposto e passa a ser a verdade e a ser compartilhado inclusive pelos brasileiros. Esse discurso de poder e criação de imagens pode ser visto "em plena ação" na forma como os imigrantes brasileiros, portugueses retornados e luso-brasileiros, assumem certas visões exóticas a respeito do Brasil, por um lado e, por outro, na forma como a imprensa portuguesa trata o Brasil e seus imigrantes, como um pedaço da exótica ex-colônia em conflito com cidadãos europeus (superiores, portanto), disputando postos no mercado de trabalho e contribuindo para uma "invasão brasileira" (negativa) em Portugal.
Pode-se identificar, grosso modo, uma forma hegemônica de representação e construção da identidade brasileira entre os imigrantes brasileiros em Portugal. Pode-se dizer que objetivam a cultura brasileira (Handler, 1984). Essa representação é produzida principalmente entre aqueles com profissões relacionadas à noite e aos produtos culturais, ou a bens simbólicos, que são vendidos aos consumidores portugueses juntamente com uma idéia corrente sobre quem são os brasileiros e sobre o Brasil, uma apropriação do discurso hegemônico do exotismo. Esses são cantores(as), músicos, professores(as) de ginástica e de capoeira, donos(as) de bares brasileiros, garçons etc. Há ainda as profissionais do sexo, que vendem também estereótipos e são numerosas no Porto.
O discurso dos "vendedores da cultura exótica" prevalece entre os imigrantes, além de tudo por encontrar reflexo na visão/imagem hegemônica estereotipada sobre o Brasil. Apesar das diferenças entre os brasileiros imigrantes em Portugal, no que tange às suas origens, podemos ver um processo de construção de uma nova forma cultural, baseada na identidade-para-o-mercado. Essa passa a ser o denominador comum entre os brasileiros e o centro das construções identitárias no Porto. Vemos que, como afirma Sahlins (1990, p. 9), a cultura é colocada em risco na ação e, neste caso, submetida a transformações14. Assim, vemos que as imagens-síntese da identidade brasileira (como a do cartaz-essência) são ponto de partida para a própria inserção no mundo desses imigrantes brasileiros, que representam sua vida cotidiana de acordo com elas. Tornam essas imagens sem profundidade na forma de sobreviver, como um capital cultural que é automaticamente conferido se se adequar às imagens hegemônicas. Assim é que muitos brasileiros acabam se tornando brasileiros "autênticos" apenas quando chegam ao Porto. A identidade-para-o-mercado cria realidades e comportamentos, ela gera pessoas que se identificam com suas imagens esvaziadas e estereotipadas.
3. O Estado-nação e as imagens de identidade
Chegamos agora a um ponto onde fica evidente a necessidade de considerarmos o papel do Estado-nação na produção, na reprodução e no apagamento dessas identidades-para-o-mercado, já que é no discurso oficial que muitas dessas imagens são reforçadas, esquecidas ou inventadas. Já anunciando uma conclusão parcial, vemos que se o papel do Estado-nação se altera no contexto pós-moderno, ele não deixa de ser relevante, se não por outros motivos, apenas por ser o centro de disputas e lutas políticas em torno do qual se constroem, ainda hoje, imagens de identidade, ou seja, os próprios discursos nacionais. Fonte, assim, entre outras conseqüências, de material simbólico para inserção na indústria cultural.
Para ilustrar este argumento, acompanharei, novamente, a relação entre Brasil e Portugal, onde podemos ver como os Estados se empenham na construção de imagens de identidade e como se dão algumas disputas nesse terreno. Vejo esse imaginário hegemônico como produzido num encontro colonial e depois pós-colonial - no sentido dado por Dirlik (1997). Embora apoiado na análise de Said, baseio-me no que Herzfeld chamou de "practical orientalism"15. Também levo em consideração o que Fox (1992, p. 145-52) chamou de affirmative orientalism, referindo-se à possibilidade de o orientalismo servir de base a contestações políticas dos próprios "orientais", como no caso de Ghandi.
É essa percepção de um orientalismo "prático", para além da perspectiva mais textual de Said (um professor de literatura comparada), que permite que entendamos a produção de imagens de identidade, de identidades-para-o-mercado, como fruto de disputas políticas em andamento, nas quais o Estado-nação tem grande importância. Entretanto, o papel do Estado-nação tem sido alvo de dúvidas, e alguns autores freqüentemente afirmam que sua importância tem sido diminuída por meio do avanço das culturas globais. Appadurai, por exemplo, afirma que "we are in process of moving to a global order in which the nation-state has become obsolete and other formation for allegiance and identity have taken its place" (1994, p. 421). Ianni (1996, p. 17) também afirma a redução da soberania do Estado-nação. Outros autores pretendem entender os fluxos de significados e objetos materiais num esforço de descrição de uma "cultura transnacional", o que diminuiria a autonomia do Estado-nação (Appadurai & Breckenridge, 1988; Hannerz, 1997).
As teorias do sistema mundial, por sua vez, preocupam-se com a formulação de idéias sobre a "dimensão cultural" da globalização. Hannerz (1994) fala em culturas globais, Appadurai (1994) atenta para a fragmentação e disjunção de processos culturais, Featherstone (1994) analisa processos culturais, enquanto Friedman (1994) trata de culturas globais específicas (como as de consumo). Na verdade, são várias teorias do sistema mundial, cada qual com ênfases diferentes em diversos aspectos, mas todas acentuam a diminuição da importância do Estado-nação. No entanto, considero que a importância do Estado-nação na definição ou mesmo no debate e na referência a essas culturas desterritorializadas continua efetiva. Também não cabe aqui discutir, apenas indicar, que talvez as velhas identidades nacionais continuem com seu papel hegemônico na arregimentação dos sentimentos de identidade.
Temos visto que o Estado-nação português é fundamental na produção de identidade-para-o-mercado de brasileiros imigrantes. Foi o Estado que perpetuou imagens sobre o Brasil por meio de ideologias oficiais, como o luso-tropicalismo português, analisado por Castelo (1998)16. Essas imagens coloniais foram reelaboradas no novo contexto social português pós-União Européia. Mas também outra série de ideologias do Estado balizam a produção de identidades no Portugal atual, e elas se referem ao que podemos chamar de lusofonia.
No caso específico do Brasil e de Portugal, ao tratarmos da relação entre continuidades e descontinuidades entre ex-colônia e ex-metrópole, entre discursos de Estado e invenção de similaridades (Feldman-Bianco, 2001a), da produção de discursos hegemônicos, que modelam a consciência de brasileiros, adentramos num campo discursivo que alguns autores (Feldman-Bianco, 1996; Almeida, 1998; Leal, 1998; Santos, 1996; Santos 1994) têm tratado como lusofonia (a construção desses discursos trocados entre países de língua portuguesa). Essa discussão levanta questões relacionadas ao papel do Estado-nação no mundo atual.
O ingresso de Portugal na Comunidade Européia trouxe conseqüências no que se refere à entrada de imigrantes em Portugal. Como afirma Feldman-Bianco:
Portugal began to be perceived by citizens of its former overseas extensions as an open gate to Europe. Hence, in addiction to receiving growing numbers of returning migrants, the post-colonial state was faced with an increasing influx of immigrants originally from the (now) independents nations of "Portuguese Africa" as well as Brazil. (1996, p. 31)
Em contradição com o discurso da irmandade, Portugal tem estabelecido leis cada vez mais duras de restrição à entrada de imigrantes. Essas medidas estão em sintonia com as determinações européias, muito mais do que com a "imaginação de centro" portuguesa.
Por outro lado, acentuando a importância dos discursos oficias do Estado e de sua relação com diferentes populações, Feldman-Bianco (1996, 2001a e 2001b) e Santos (1996) demonstram como a situação dos migrantes brasileiros em Portugal é ambígua. Lideranças migrantes, formadas por brasileiros, luso-brasileiros e portugueses retornados, exploram os discursos oficiais do Estado português e da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), que reafirmam a irmandade entre os países de língua portuguesa. A própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa permite aos migrantes reivindicar direitos com base na irmandade entre ex-colonizador e ex-colônias. Afinal, se a "pátria é a língua", todos os migrantes (somando o caso dos africanos) têm o direito à "cidadania da língua".
Como demonstra Santos (1996), o discurso da mestiçagem e o uso da língua são referências na construção das diferenças entre brasileiros e portugueses. Os brasileiros, imaginados nas páginas da imprensa imigrante, são aqueles que têm "ginga" e falam de uma forma diferente. Temos o reforço dos estereótipos/imagens do discurso hegemônico. As estratégias de construção de diferenças passam pelos usos da língua, as diferenças a partir das semelhanças (Hall, 1996). Também as permanências são fundamentais na construção da diferença, por meio da importância do discurso da mestiçagem (que paradoxalmente vem sendo apropriado por discursos oficiais portugueses, os quais reconstroem o imaginário de um país "entre" a Europa e o Atlântico). Estamos lidando, dessa forma, com a criação ou reprodução de ideologias nacionalistas (Fox, 1990) que procuram reinventar a centralidade portuguesa em algum nível. Ou seja, podemos ver, por meio desse exemplo, o papel dos Estados-nação em centralizar o embate em torno das construções (imagéticas) hegemônicas, em cristalizar as imagens que são o material de construção de identidades-para-o-mercado.
Essa conjuntura bastante carregada de discursos oficiais contraditórios, discursos nacionalistas (idem) controversos, é alimentada por contradições entre ideologias luso-brasileiras (bases dos discursos de irmandade, por meio da idéia de fronteiras ambíguas), por um lado, e pela crescente subordinação de Portugal às prerrogativas da Comunidade Européia, por outro. Essas ideologias luso-brasileiras foram construídas a partir da obra de Gilberto Freyre e de seu reflexo em alguns autores portugueses, como demonstra Almeida (1998), e estiveram ligadas ao governo salazarista e ao colonialismo tardio de Portugal. O discurso luso-tropical (e a criação de idéias sem profundidade sobre a miscigenação racial) serviu como legitimação da dominação portuguesa nas colônias africanas e influenciou também as relações com o Brasil. Visto como filhos do "gênio português", as colônias e ex-colônias foram narradas a partir dessa ideologia gilbertiana, conferindo-lhes uma posição inferior e "tutelada" (Castelo, 1998).
Tanto como produtor principal de imagens sobre os brasileiros, no caso do Estado imperial português (que durou até 1974), quanto como produtor de um "campo discursivo" no qual as diferenças podem ser organizadas, como é o caso do Estado pós-imperial português17, por meio da lusofonia, vemos que o Estado-nação continua um elemento relevante na arregimentação de sentimentos e na construção de identidades. No caso dos brasileiros atualmente, a resposta às imagens estereotipadas sobre o Brasil18 em Portugal passa pela construção de uma identidade-para-o-mercado, marcada pela relação estrutural com o mercado (tanto o mercado de trabalho na cidade do Porto como o mercado de "consumo cultural" dos portugueses nesta cidade, repletos de imagens sobre o Brasil exótico19).
Comentários finais
Vimos, assim, como o Estado-nação, no caso o português, é central na definição e construção das identidades-para-o-mercado e que, ao redor de suas imposições, se estabelecem lutas políticas de acesso e/ou contestação a essas imagens (como no caso dos imigrantes). Também o diálogo com outras fontes de discursos hegemônicos, patrocinados por outros Estados, como o mito brasileiro da miscigenação racial, é importante para entendermos o desenvolvimento de identidades-para-o-mercado, como ilustra o caso do luso-tropicalismo.
Minha análise considera que o Estado-nação é importante para a reprodução do capitalismo tardio, já que é um grande centro de produção de imagens, um agente de fragmentação da realidade em identidades mediadas pelo mercado. É por meio dele que o capital internacional escapa da regulamentação - pois circula livremente - e é por meio dele que se desenvolve uma indústria cultural que tem como centro a comercialização de imagens essencializadas das identidades espalhadas pelo mundo. Podemos assim identificar o engano de Jameson ao considerar que a fragmentação da pós-modernidade resulta numa incapacidade hegemônica das "classes dominantes":
Se, antes, as idéias de uma classe dominante (ou hegemônica) formavam a ideologia da sociedade burguesa, os países capitalistas avançados são, em nossos dias, o reino da heterogeneidade estilística e discursiva sem norma. Senhores incógnitos continuam a reajustar as estratégias econômicas que limitam nossas vidas, mas não precisam (ou não conseguem) mais impor sua fala. (Jameson, 1996, p. 44)
Pois é justamente o contrário, ou seja, é a própria fragmentação, no caso, a fragmentação imposta por identidades-para-o-mercado, que permite a hegemonia, quando se controla mesmo a circulação das imagens que vão designar essa ou aquela identidade. A luta fica restrita à produção de imagens sem profundidade histórica que, uma vez consolidadas, são inseridas no jogo da indústria cultural, perdendo a capacidade de contestação que em algum momento tiveram. Portanto, quanto mais incógnitos e menos visíveis esses "senhores" mencionados por Jameson, mais hegemônica se torna a reprodução mercantil das identidades rasas espalhadas pelo mundo e menos devem impor sua fala.
Este artigo se propôs a explorar o conceito de identidade-para-o-mercado, além de desenvolver algumas reflexões que remetem às questões de minha pesquisa de doutorado sobre a imigração brasileira no Porto. Para tanto, refleti sobre a especificidade da construção da diferença no capitalismo tardio por meio do conceito de identidade-para-o-mercado. Pensando a identidade-para-o-mercado como uma forma de produção de diferenças exclusivas do capitalismo tardio, devemos entendê-la a partir de um parâmetro cultural capitalista. Sahlins, em Cultura e razão prática, já demonstrava como o capitalismo é um sistema simbólico que, como outro qualquer, é arbitrário. A economia capitalista aparece como um sistema cultural e "a própria forma de existência social da força material é determinada por sua integração no sistema cultural" (Sahlins, 1986, p. 227). Além do mais, os sistemas simbólicos articulam centros de produção simbólica privilegiada, que infletem toda a cultura com base em determinados pressupostos. "Na cultura ocidental, a economia é o locus principal de produção simbólica" (idem) e a produção de mercadorias é um modo privilegiado de produção e transmissão simbólica.
No estágio mais recente do movimento do sistema simbólico do capitalismo (capitalismo tardio), no qual a economia e a produção de valor continuam os loci de produção simbólica privilegiados, a própria cultura está a serviço da valorização, o que podemos ver por meio da construção de identidades-para-o-mercado e de sua relação estrutural com os mercados. Obviamente que poderíamos pensar na análise feita por Sahlins como já antecipando a idéia da produção de mercadorias como reprodutora de "subjetividades", na medida em que elas estabelecem as distinções sociais no capitalismo:
Assim procede a economia, como locus institucional dominante: produz não somente objetos para sujeitos apropriados, como sujeitos para objetos apropriados. (Sahlins, 1986, p. 237)
Demonstrei de que modo se solidificam, na identidade-para-o-mercado, estereótipos criados complexamente no cruzamento de tradições nacionais de representação (no caso, a brasileira e a portuguesa), e como eles são os motores de uma nova subjetividade que se cria ou, em termos antropológicos, de uma nova cultura que surge na experiência imigrante. Uma cultura-para-o-mercado, uma cultura que colabora com a valorização do capital, um resultado das novas formas de estruturação da produção de valor no capitalismo. E, para que tal processo funcione, imagino que o Estado-nação é um instrumento fundamental.
Notas
1 Gostaria de agradecer as valiosas e produtivas sugestões do parecerista anônimo da Revista de Antropologia.
2 Doutor em Ciências Sociais, pelo IFCH/Unicamp; pesquisador do Cemi/Unicamp. E-mail: mailto:igorr@unicamp.br ou igor@power.ufscar.br.
3 Entendo o capitalismo tardio como a configuração atual do sistema capitalista, marcado pela terceira revolução industrial, ou seja, a da microeletrônica (Kurz, 1998), pela produção flexível (Harvey, 1994) e pela hegemonia do capital financeiro.
4 Entendo por culturas objetivadas a produção de artefatos culturais (como filmes cinematográficos) que têm referências em tradições culturais, mas que são produtos feitos para um mercado consumidor ávido pelo "diferente". Mas essas produções objetivadas têm uma "eficácia real", pois produzem efeitos, identificações e até identidades. A idéia de "orientalismo prático" de Herzfeld (1997) permite entender essa faceta das "culturas objetivadas".
5 Sobre a relação entre futebol e nação, ver Machado (2000).
6 O conceito de hegemonia de Gramsci pressupõe a sociedade civil: "Podem-se fixar dois grandes 'planos' superestruturais: o que pode ser chamado de 'sociedade civil' (isto é, o conjunto de organismos designados vulgarmente como 'privados') e o da 'sociedade política ou Estado', planos que correspondem, respectivamente, à função de 'hegemonia' que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e àquela de 'domínio direto' ou de comando, que se expressa no Estado e no governo 'jurídico'. (...) Os intelectuais são os 'prepostos' do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do 'consenso espontâneo' dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce 'historicamente' do prestígio (...) obtido pelo grupo dominante por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção (...)" (Gramsci, 2000a, p. 21). A hegemonia é um processo que envolve um "consenso ativo e voluntário" (Gramsci, 2000a, p. 436), liderado pelos intelectuais do grupo dominante, responsável por fazer dos princípios morais da classe dominante os de toda a sociedade. Esse processo exige uma mistura de convencimento e força:
"O exercício 'normal' da hegemonia, no terreno clássico do regime parlamentar, caracteriza-se pela combinação da força e do consenso, que se equilibram de modo variado, sem que a força suplante em muito o consenso" (Gramsci, 2000b, p. 95). E esse processo é tanto nacional como internacional: "Toda relação de 'hegemonia' é necessariamente uma relação pedagógica, que se verifica não apenas no interior de uma nação, entre diversas forças que a compõem, mas em todo campo internacional e mundial, entre conjuntos de civilizações nacionais e continentais" (Gramsci, 2000a, p. 399).
7 Para Bourdieu, "pode-se representar o mundo social em forma de um espaço (a várias dimensões) construído na base de princípios de diferenciação ou de distribuição constituídos pelo conjunto das propriedades que actuam no universo social considerado" e os "agentes são assim definidos pelas suas posições relativas neste espaço" (Bourdieu, 1989, p. 133-4). Isto resulta em que "o espaço social e as diferenças que nele se desenham 'espontaneamente' tendem a funcionar simbolicamente como espaços dos estilos de vida (...), isto é, de grupos caracterizados por estilos de vida diferentes" (idem, p. 144). Portanto, os princípios de construção de identidades são fruto de uma lógica política do campo social, resultado da capacidade maior ou menor dos grupos de se definirem e de quais os mecanismos que podem utilizar para o fazerem. A construção da realidade, do mundo social é mediada pelas categorias construídas no espaço social: "Mediante um trabalho de construção desta natureza - que se não faz de uma só vez mas por uma série de aproximações - constroem-se, pouco a pouco, espaços sociais os quais - embora só se ofereçam em forma de relações objectivas muito abstractas e se não possa tocá-los apontando a dedo - são o que constitui toda a realidade do mundo social" (Bourdieu, 1989, p. 30). O princípio de predominância das formas "hegemônicas" de construção das possibilidades de identidade segue a lógica política, pois, aos que estão numa situação desvantajosa, resta apenas aceitar a "regra do jogo" e tentar, através dele, aumentar o próprio capital social: "O princípio do movimento perpétuo que agita o campo (...) reside (...) na própria luta, sendo produzida pelas estruturas constitutivas do campo, reproduz as estruturas e as hierarquias deste. Ele reside nas acções e nas reacções dos agentes que, a menos que se excluam do jogo e caiam no nada, não têm outra escolha a não ser lutar para manterem ou melhorarem a sua posição no campo, quer dizer, para conservarem ou aumentarem o capital específico que só no campo se gera" (idem, p. 85).
8 O Porto continua a ser o segundo maior concentrador de brasileiros em Portugal. Mas, com cerca de 11% dos imigrantes, essa cidade viu menos brasileiros serem legalizados em 2001 do que Faro, por exemplo. Ao contrário da região de Lisboa, o Porto concentra pouca imigração "em português", e apenas os números de guineenses são de alguma relevância, ainda assim menor que os de chineses (Machado, 2003, p. 303). O maior contingente de ilegais no Porto era (embora não tenhamos conhecimento sobre a situação atual) de ucranianos, com 5.510 legalizações em 2001, seguidos de 1.933 legalizações de brasileiros (idem, p. 308).
9 Ver Machado (1997) e Baganha & Góis (1998/1999).
10 Sobre os dados a respeito da imigração em Portugal, Baganha e Góis afirmam que "sabemos extremamente pouco sobre os imigrantes em Portugal, porque a única fonte disponível com consistência interna apresenta sérias limitações, dado que o número de características dos imigrantes, tratadas e divulgadas pelo MAI-SEF, é muito restrito e a sua divulgação sistemática com alguma profundidade só se inicia em 1990" (1998/1999, p. 262). Portanto, continuam os autores: "O que sabemos refere-se sobretudo ao fluxo legal, pelo que é conveniente salvaguardar a hipótese de as características conhecidas serem uma pobre e, muito provavelmente, errônea representação do fluxo imigratório global. Quer os estudos da componente ilegal do fluxo imigratório português noutros períodos históricos, quer a informação disponível sobre as partidas ilegais para a Europa depois da II Guerra Mundial, mostram que o fluxo clandestino é substancialmente diferente do fluxo ilegal" (Baganha & Góis 1998/1999, p. 250).
11 Uma discussão sobre a origem e o desenvolvimento dessas representações, por parte da sociedade portuguesa, é realizada em Machado (2003).
12 Na tese de doutorado (Machado, 2003) demonstro que não é apenas o controle do mercado de trabalho que proporciona mais prestígio e poder, mas que esta é uma das dimensões mais relevantes.
13 Refiro-me à tese de doutorado defendida em 2003 (Machado, 2003).
14 Ao contrário do que afirma Sahlins em outro artigo (1997), mais do que continuidade, a cultura é submetida a transformações nos processos migratórios.
15 Para Herzfeld, "orientalism is more relative and negotiable than appears to be the case in Said's textualist, and descontextualizing, perspective; and it is this property that has led me to generate a more agent-oriented view of it" (1997, p. 96).
16 Obviamente, esse consenso em torno das imagens sobre o Brasil convive com inúmeras reações e visões contrárias na sociedade portuguesa, que não são, entretanto, hegemônicas. A preponderância de determinadas imagens sobre o Brasil não se restringe ao Estado, claro, mas se espalha pela sociedade civil. Mas é inegável que foi o Estado o agente da produção dessa representação hegemônica, como a historiografia de Castelo (1998) o demonstra.
17 A idéia do Estado como organizador de um campo discursivo no qual as lideranças imigrantes podem exigir direitos, desde que inseridos neste campo, foi-me sugerida verbalmente por João de Pina Cabral, durante a realização do trabalho de campo.
18 Margarido (2000) sugere que há uma continuidade entre as imagens do pensamento imperial e a lusofonia, que não passaria de uma reatualização daquelas antigas hierarquias coloniais.
19 Chamo de "consumo cultural do exótico" o espaço de entretenimento para o público português, baseado em representações estereotipadas do Brasil na cidade do Porto, como restaurantes, boates, casas de prostituição, aulas de capoeira, aulas de danças "sensuais" brasileiras (como são anunciadas).
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Aprovado em junho de 2004.
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