GRUPO V - 04/05
CAPÍTULO DO LIVRO (POR UMA OUTRA COMUNICAÇÃO)
MOVIMENTOS EM REDE, SOBERANIA NACIONAL E GLOBALIZAÇÃO; AUTOR: MICHAEL HARDT - XEROX TOLDO AZUL
TEXTO FORNECIDO
LINGUAGENS URBANAS DE PERTENCIMENTO:
O RAP NACIONAL E AS PRÁTICAS IDENTITÁRIAS
Rosana Martins
Docente Doutor do Departamento de
Comunicação Social do Unicentro Belas Artes de São Paulo
Doutoranda em Ciências da Comunicação pela
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo
rosanasantosposse@hotmail.com
Resumo: Em tempos atuais o processo de globalização vem fornecendo
novas configurações identitárias levando como modelo de análise na
interpretação das relações entre o global/local. Partindo deste pressuposto, o
objetivo desse artigo situa-se em abordar a construção do rap produzido em
São Paulo, enquanto projeto artístico de resistência ao sistema hierárquico de
poder e prestígio, como componente musical integrado no fluxo global de
produtos, idéias, estilos, ou seja, enquanto linguagem cultural e consumível.
Diante disso, fica proposto reconstruir o sistema de significações simbólicas
que a mensagem produz, caracterizando pela capacidade de reflexão crítica à
ordem social, articulada pelos jovens consumidores desse gênero artístico
musical, na cidade de São Paulo, que são denominados por “manos” e por
“boys”, tentando apanhar a singularidade que há por trás desse processo.
Palavras-chave: Juventude; sociedade de consumo; conflitos sociais
Abstract: The globalization process has been providing new arrangements to
identity issues on its role as a model to interpret the relations between the
global and the local in current times. From this prospect, this project’s purpose
approaches the construction of the rap made in Brazil as an artistic project of
resistance to an hierarchical power and prestige system as well as a musical
component integrated to the global flux of products, ideas and styles, therefore,
as a cultural and marketable language. This project’s goal is an effort to
rebuild the symbolic system of meanings which is passed on by this message
to the specific public, young consumers of this artistic and musical type, in São
Paulo city, who are denomined and use to call themselves ‘manos’ and ‘boys’,
trying to highlight the uniqueness behind this process.
Key words: Youth; consumption society; social conflicts
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O RAP NACIONAL E AS PRÁTICAS IDENTITÁRIAS
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A construção poético-musical do rap no Brasil - como um dos principais
pilares de um movimento cultural e artístico, o hip-hop1 -, tem se esforçado na
tentativa de denunciar e buscar soluções para fatores que tendem a paralisar a
pretensão de progresso neste país tais como, a pobreza, a violência urbana, a
violência policial, a discriminação racial, o resgate da auto-estima dos afrobrasileiros,
as altas taxas de desemprego, de desigualdade na distribuição da
renda e no uso das drogas, a falência da rede educacional, chacinas, dentre
outros (Andrade, 1999). É nessa visão opressiva que o Rap Nacional vem
retratando a realidade social numa luta pela consolidação das bases
democráticas.
Numa escala global o rap vem se assentando num discurso (lírico e
musical) afirmativo, reflexivo e narrativo da representação de si próprio, das
suas experiências e das suas convicções. Isto o torna uma fórmula acessível
de prática intensiva da identidade. Encarado como um dos elementos das
estratégias culturais da autodefinição e automanutenção, um tipo de
subsistência ideológico-identitária sobre a relação que um indivíduo
estabelece com o mundo ou, melhor, o modo de existir no mundo.
Percebe-se que no Brasil a desigualdade social se dá não apenas pela
péssima distribuição de renda do país, mas também pela distribuição desigual
de conhecimentos sobre os direitos do cidadão e de acesso à Justiça. A rigor,
as diferenças sociais acabam sendo traduzidas, ora na figura do subalterno
que tem como dever a sua obediência cega, ora no papel do inferior aquele
merecedor da tutela, da proteção, mas jamais dos direitos.
Como seria de se esperar, os habitantes dos espaços empobrecidos das
grandes metrópoles brasileiras são tidos como marginais, ou seja, tudo aquilo
que a sociedade considera como impróprio (Caldeira, 2000). O nãoreconhecimento
do outro como sujeito de interesses e aspirações representa
nada mais do que uma forma de sociabilidade que por hora não se completa,
porque regida por uma lógica de anulação do outro como identidade.
1 De acordo com a cientista social Rosana A. Martins Santos (2002), o termo hip-hop na
verdade designa um conjunto cultural vasto que deriva daí seus quatro elementos
artísticos: MC, master of ceremony, mestre de cerimônia ou rapper, a pessoa que leva a
mensagem poética-lírica à multidão, que acresce às técnicas do freestyling, o livre
improviso e o beat-box, que são sons reproduzidos pelas próprias cordas vocais dos
rappers cuja característica de percussão guarda semelhança de efeito com um toca-discos
ao acompanhar o MC; o DJ, disc-jóquei, aquele que coloca a música para dançar; a dança
break, para aqueles que se expressam por meio de movimentos da dança; o grafite, as
artes plásticas e a arte visual no hip-hop. Ver também: Brake, Michael. 1985. Comparative
youth culture: the sociology of youth cultures and youth subcultures in America, Britain, and
Canada; Rose, Tricia. 1994. Black Noise. Rap music and black culture in contemporany
america.
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O RAP NACIONAL E AS PRÁTICAS IDENTITÁRIAS
3 Anais do V Congresso Latinoamericano da
Associação Internacional para o Estudo da Música Popular
Como lógica social, “o sistema” apresenta-se simultaneamente como
moralidade (um sistema de valores ideológicos) e um sistema de comunicação.
Pode-se dizer que a mercantilização estandardizada da vida cotidiana constitui
hoje um dos principais cânones de localização do próprio indivíduo no
processo social, à medida que o consumo é visto como sinônimo de “real”
existência e a identidade passa, então, a ser formada e transformada
continuamente pelos sistemas culturais mundializados que nos rodeiam,
fazendo surgir novas identidades.
Nesse contexto, segundo o sociólogo polonês Zigmunt Bauman (1998),
no mercado são colocados à disposição juntos diferenciados elementos da
“identidade do eu” numa ampla gama de identidades que podem ser usados
diferentemente, isto é, que produzem resultados diferentes uns dos outros e
que são assim personalizados, feitos sob medida para melhor atender às
exigências da individualidade como parte de um estilo de vida especial, de
modo que o consumidor em perspectiva possa conscientemente adquirir
símbolos da auto-identidade que gostaria de possuir.
Nesse âmbito, o Rap Nacional produzido em São Paulo procura a seu
modo desafiar a fragmentação deixada pelo establishment, não obstante,
circunscrevendo uma forma de autoconhecimento e (re)ação dos jovens da
periferia capital paulistana aos processos massificadores que atingem o
mundo contemporâneo, no qual cada um é apenas aquilo que qualquer outro
pode substituir.
É dessa maneira, portanto, que o Rap Nacional reafirma visões de
mundo, posições engajadas dentro das quais os indivíduos desenvolvem a
publicidade de sua ação social expressando e questionando os valores
instituídos socialmente numa leitura crítica com base na reversibilidade do
modo de ser desta sociedade.
Na narrativa do Rap Nacional, podemos encontrar um espaço dividido a
partir de duas construções identitárias: o mundo do mano e o mundo do boy,
permeado por códigos morais em referência ao social.
H. Aço
Ser Homem de Aço é resistir
Não posso dar as costas se o problema mora aqui
Não vou fugir
Nem fingir que não vi
Nem me distrair
Nenhum playboy paga pau vai rir de mim
Tenho uma meta a seguir
Sou fruto daqui
Se for pra somar
Hei mano chega aí
(...)
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(DMN. CD. H. Aço. 1998. Cia. Paulista de Hip-
Hop)
Hey Boy
Tiravam tudo de mim
Arrancavam minha pele
Minha vida enfim
Tenho que me desdobrar
Pra não puxarem meu tapete
E estar sempre quente
Pra não ser surpreendido de repente
Se eu vacilo trocam minha vaga
O que você fizer
Aqui mesmo você paga
(...)
Você faz parte daqueles que colaboram
Para que a vida de muitas pessoas
Seja tão ruim
(...)
Seu egoísmo ambição e desprezo
Serão os argumentos pra matar você mesmo
Então eu digo Hey boy...
(...)
(Racionais MC’S. LP. Raio X Brasil. 1993. Zambia)
Nas duas letras temos exemplos de personagens pertencentes do mundo
paralelo marcado pelos efeitos da violência urbana cujo território, o lugar onde
se mora, emerge na valorização da própria identidade, do caráter, da
dignidade que ainda resiste diante da invisibilidade do mundo. Na verdade,
ocorre duas maneiras de empregar a dicotomia boy e mano: uma consiste em
usar as palavras rico e pobre e sua oposição; a outra, em agregar adjetivos,
advérbios, de modo a estabelecer diferenças. De um modo geral, temos aqui:
Ø manos (geralmente são negros e pobres)
São molestados constantemente pela polícia; sentem-se subordinados,
desprezados; são discriminados pela forma como se vestem; são vistos
como favelados e, por conseqüência, criminosos; são humildes; não são
individualistas; são simples; espertos; valentes; são solidários; são
companheiros.
Ø playboys (geralmente são considerados como sendo ricos e
brancos)
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5 Anais do V Congresso Latinoamericano da
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Geralmente são tratados, na narrativa do rap, por diminutivos no sentido
pejorativo; são vistos como covardes e arrogantes; são aqueles que
ostentam futilidades; são alienados do mundo que os cercam; são
indiferentes; não são incomodados pela polícia; acham que podem tudo;
possuem carros importados; não trabalham; acham-se superiores, melhores
que os outros; individualistas; medrosos; não são solidários, nem
companheiros; orgulhosos; podem consumir tudo o querem; desconhecem
as dificuldades da pobreza; tem poder; protegido pela
sociedade/impunidade; tem facilmente tudo na vida.
Aqui as comunidades imaginadas de manos e boys enquanto existência
individual e social de configurações múltiplas representa os novos
agrupamentos inseridos numa multiplicidade de espaços e tempos prestes a
desdobrar na quebra da sua uniformização. Em todo o caso, os objetos
simbólicos como a música rap, por exemplo, pode servir nesses grupos como
mecanismos através dos quais a identidade passa a ser definida.
Na verdade, a noção de estilo de vida conota uma forma de autoexpressão
e uma consciência de si estilizada, a tendência no qual o indivíduo
reage ao nivelamento social (Featherstone, 1995). O Rap Nacional além de
marcar sua importância na contestação voltada à problemática urbana sugere
um novo espaço de reflexão e denúncia reivindicando para si espaços de
sociabilidades nos quais os indivíduos, impulsionados por interesses diversos
se soldam numa unidade distintiva dentro do corpo social.
A definição desses sujeitos se dá mais por aquilo que se diz deles na
narrativa do rap, ocorrendo a partir daí um conjunto de controle do próprio
discurso. E é por adotar os valores dos boys que o mano aos poucos perde o
controle da sua própria definição de identidade, o abandono das origens e do
projeto histórico de política cultural. A sociedade é assim considerada como
violenta, desigual e injusta. A idéia de uma realidade é construída pela
experiência cotidiana e o tipo de conhecimento do qual a mídia é portadora é
vista como pouco confiável. Ao mesmo tempo em que os rappers atacam a
mídia – nas músicas, nos discursos durante os shows e no dia a dia - eles
precisam dela como canal de divulgação de sua arte e de suas idéias (Santos,
2002).
O rap tenta retratar uma realidade particular tal de onde estão os rappers
paulistanos, de acordo com o contexto sócio-espacial em que se vive e com a
visão de mundo que se tem. A autenticidade refere ao “real” Rap Nacional
aquele cuja construção musical é percebida como tendo uma direta conexão
com o social expressado por uma comunidade de manos.
Portanto, a importância de uma comunidade imaginada segue daí: ela
evidencia um “nós” necessário para constituição de cada ser humano
individual, processo que dá testemunho ao fato de que vidas individuais não
se formam apenas de dentro das estruturas burocráticas institucionais, mas
principalmente de fora, das arenas interacionais, dos espaços públicos de
argumentação.
Nesta perspectiva, a identidade é referência, é o ponto original
relativamente ao qual se define a diferença. A afirmação da identidade e a
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marcação da diferença implicam sempre, as operações de poder, de incluir e
de excluir, significa demarcar fronteiras, significa fazer distinções entre “nós” e
“eles”. Por esse prisma, cada um dos atores enquanto espectadores
desempenham em seus trajetos cotidianos papéis que se mostram
inseparáveis do espetáculo que demarcam para si.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Andrade, Elaine Nunes de (Org.). 1999. “Hip-Hop: movimento negro juvenil”.
Rap e Educação - Rap é Educação. São Paulo: Summus, p. 83-91.
Bauman, Zygmunt. 1998. O mal estar da pós-modernidade. Tradução de
Mauro Gama, Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Brake, Michael. 1985. Comparative youth culture: the sociology of youth
cultures and youth subcultures in America, Britain, and Canada. New York:
Routledge.
Caldeira, Teresa Pires do Rio. 2000. Cidade de muros: crime, segregação e
cidadania em São Paulo. Tradução de Frank Oliveira, Henrique Monteiro.
São Paulo: Editora 34/EDUSP.
Featherstone, Mike. 1995. Cultura de consumo e pós-modernismo. Tradução
de Julio Assis Simões. São Paulo: Studio Nobel. (Série Megalopolis).
Rose, Tricia. 1994. Black Noise. Rap music and black culture in contemporany
america. Hanover, London: University Press of New England/Wesleyan
University Press.
Santos, Rosana Aparecida Martins. 2002. O estilo que ninguém segura: Mano
é Mano! Boy é Boy! Boy é Mano? Mano é Mano? Reflexão crítica sobre os
processos de sociabilidade entre o público juvenil na cidade de São Paulo na
identificação com a musicalidade do Rap Nacional. 274p. Dissertação
(Mestrado em Ciências da Comunicação) – Escola de Comunicações e Artes
de São Paulo, Universidade de São Paulo, São Paulo.
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