segunda-feira, 23 de abril de 2007

SEMINÁRIOS ANTROPOLOGIA VISUAL - RTV - GRUPO I E II

14/05 - GRUPO I

Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação
UNESP, Bauru, São Paulo - 6 a 9 de junho de 2006
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RECEPÇÃO MEDIÁTICA COMO LINGUAGEM DE
PERTENCIMENTO: ENTRE O COMUM E O PÚBLICO1
Uma análise crítica da bibliografia a respeito
Mauro Wilton de Sousa2
Resumo: Na perspectiva de buscar compreender as práticas de recepção mediática
como expressão do sentimento de pertencimento a espaços públicos, o presente
texto aponta preliminarmente uma análise crítica de literatura sobre comunicação
visando problematizar caminhos por onde a relação entre pertencimento e
comunicação vem sendo hoje estudada e por onde pode ser aprofundada.
Palavras-Chave: Pertencimento – Recepção Mediática – Público – Comum.
1. Introdução
O tema da Comunidade tem estado presente de forma constante na literatura
contemporânea sobre comunicação mediática. Retomado hoje segundo significações
ampliadas desde sua concepção originária nas Ciências Humanas e Sociais, sua presença não
se vincula apenas a estudos sobre comunicação e cultura, mas também sobre comunicação e
política.
Sua atualidade e diversidade se situam no contexto da modernidade capitalista marcada
pela fragmentação da experiência de vida, pelas mutações do sujeito e da identidade, pela
oscilação dos valores de referência coletiva, enfim, pelas implicações advindas do que se
denomina globalização.
É nesse contexto de uma sociedade desigual que soa intrigante e contraditório entender
vinculações crescentes entre comunicação e cultura desde a perspectiva de comunidade como
que retomando a dualidade tradicional entre comunidade e sociedade. Em contexto recente de
pesquisa sobre recepção mediática no âmbito da cultura e da política, a questão do sentimento
1 Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho “Mídia e Recepção”, do XV Encontro da Compós, na Unesp,
Bauru, SP, em junho de 2006.
2 Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – mwsousa@usp.br
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de pertencimento se mostrou igualmente presente na análise de práticas comunicacionais
derivando daí indagações sobre a característica e a pertinência de seu uso na atualidade. À
medida que temas paralelos como o da emancipação política ou da exclusão social são
também retomados é pertinente a questão de base subentendida – o que motiva o
pertencimento nesse contexto da sociedade contemporânea – em especial, quanto ao papel da
comunicação mediática.
O avanço no estudo dessas questões tem levado à perspectiva de compreensão das
práticas de recepção mediática como expressão do sentimento de pertencimento a espaços
públicos, tema específico de pesquisa acadêmica ora em desenvolvimento3. Enquanto
perspectiva esta é também uma hipótese e, por isso mesmo, é provocativa e complexa.
Embora instigante, esta perspectiva de pesquisa é exigente de cuidados ora quanto a
dificuldade de um trabalho interdisciplinar como tal, ora pelas implicações de
privilegiamento da recepção mediática diante de um contexto conceitual e teórico em
comunicação que a tem trabalhado diferentemente, ora enfim, pelas implicações teóricas e
metodológicas envolvidas.
Uma advertência de Miège (1990, p. 17-22), abre, no entanto, espaço para este estudo
ao assinalar a importância de estratégias metodológicas transversais quando são buscadas
inter-relações conceituais e teóricas sobre uma situação problema, mesmo que sem buscar
proposições de médio alcance, mas que introduzam novos ângulos através dos quais as
questões de investigação possam ser encaminhadas.
Ainda que dentro de objetivos mais amplos, o presente texto apenas se concentra na
análise crítica de bibliografia disponível sobre comunicação na contemporaneidade buscando
indicadores que possam sustentar a perspectiva de compreensão das práticas de recepção
mediática enquanto mediação entre sentimento de pertencimento a espaços públicos.
3 O presente texto se situa dentro de projeto de pesquisa sendo desenvolvido pelo Grupo de Estudos sobre
Práticas de Recepção Mediática da ECA – USP, com o apoio do CNPq, sob o tema da recepção mediática e
linguagens de pertencimento público. A colaboração do bolsista CNPq – PIBIC Ângelo Ravazi na condução do
projeto e do presente texto é aqui reconhecida e agradecida. Vide: SOUSA, M. W. Práticas de Recepção
Mediática como Práticas de Pertencimento Público. São Paulo: Revista Novos Olhares, ECA-USP, n. 03,
1999, p. 12-29; SOUSA, M. W. Recepção Mediática: linguagem de pertencimento. São Paulo: Revista
Latinoamericana de Ciências de la Comunicación, n. 02, Enero/Junio 2005, p. 11-21.
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2. O sentimento de pertencimento
A temática do sentimento de pertencimento não é originária dos estudos de
comunicação. É um conceito que se liga ao de comunidade e nele originalmente se explica,
surgindo nos estudos matrizes de antropologia e de sociologia na explicação de processos de
socialização bem como de formas de organização e funcionamento da sociedade. Em Weber
(1973, p. 140), isso é bem explícito:
Chamamos comunidade a uma relação social quando a atitude na ação social ...
inspira-se no sentimento subjetivo (afetivo ou tradicional) dos partícipes da
constituição de um todo ... Chamamos sociedade a uma relação social quando a
atitude na ação social inspira-se numa compensação de interesses por motivos
racionais (de fins ou valores) ou então numa união de interesses com idêntica
motivação...
A dimensão motivadora subjetiva é o próprio sentimento que quando vinculado à
participação em um todo se realiza enquanto pertencimento. Atente-se para a significação da
motivação subjetiva, enquanto inspiradora da ação social que se realiza na busca mesma de
um todo.
A compreensão de que o sentimento motivador está na esfera subjetiva tem em outros
autores ampliação quando se refere à possibilidade de que interesses, que para Weber estão
presentes na concepção de sociedade, possam gerar sentimento de pertencimento. É o que se
depreende, por exemplo, da afirmação de Warner, citado por Horckeimer e Adorno (1973, p.
156) em texto crítico destes sobre comunidade: “Uma pluralidade de homens com interesses,
sentimentos, comportamentos e finalidades comuns, em virtude de sua pertença ao mesmo
grupo social como estrutura constante em toda e qualquer forma de sociedade antiga ou
moderna.”
A perspectiva da ação social tem a sua expressão para Silverstone (1999) no ato de
fazer parte, de inserção, de ser membro, mas também, como conseqüência, do participar.
Saliente-se que é o vetor comum, o fim da ação social ou da participação, que na verdade se
coloca como um pólo objetivo motivador do sentimento de pertencimento ainda que ao lado
de outro pólo, o da esfera do subjetivo, como adiante será aprofundado.
Essas acepções originais vinculadas à compreensão da comunidade foram sendo
ampliadas na extensão de sua significação e se percebe hoje a pluralidade de acepções com
que vêm sendo trabalhadas: “Comunidade imaginada” (Anderson, 1989, p. 15);
“Comunidade virtual” (Silverstone, 1999, p. 07); “Comunidade de apropriação” (Orozco
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Gómez, 1996, p. 129); “Comunidade interpretativa” (Blanco, 1999, p. 14); “Comunidades
hermenêuticas” (Martin-Barbero, 1996, p. 30), entre outros, ou abordagens a respeito, por
exemplo sobre o espírito comum em comunidade e comunicação (Paiva, 1998), comunidade
e segurança (Bauman, 2003), comunidade e o estar junto social (Touraine, 1998).
O sentimento de pertencimento se amplia e se diversifica em suas significações à
medida que também se amplia o de comunidade, não se restringindo mais à oposição inicial
entre comunidade e sociedade, deslocando-se da visão inicial de um comunitarismo
organizacional e relacional para uma outra presença na sociedade onde hoje se realiza o estar
junto social.
É o que se dá na esfera da socialização política, na esfera da cidadania, na discussão
sobre as próprias condições de acesso e de uso dos direitos, os diferentes processos de
inclusão na vida social disponível:
A reivindicação (e o reconhecimento) de direitos supõe, em princípio, que os atores
sociais se sintam parte de uma sociedade política mais abrangente do que aquela
definida pelo seu pertencimento à rede de sociabilidades primárias (família, etnia,
religião, etc). No entanto, talvez esteja aí um dos nós górdios da questão da
democracia do mundo contemporâneo: o enfraquecimento da capacidade dos
sistemas democráticos de gerar sentimento de pertencimento à coletividades mais
abstratas organizadas em torno do reconhecimento de direitos (Monteiro, 1996, p.
104).
O conceito de pertencimento pode também ser visto como limitado conforme a
compreensão que dele se tem:
... a nova cidadania transcende uma referência central do conceito liberal que é
reivindicação de acesso, inclusão, membership, ‘pertencimento’ (belonging) ao
sistema político na medida em que o que está de fato em jogo é o direito de participar
efetivamente da própria definição desse sistema, o direito de definir aquilo no qual
queremos ser incluídos a invenção de uma nova sociedade (Dagnino, 1994, p. 109).
O objeto que enquanto interesse motiva o pertencer passa a ser fundamental na
caracterização da sua busca ora definida como todo, como comum, ou ainda como fim da
ação social.
3. Pertencimento e o comum - comunidade4
No âmbito dos estudos que aproximam comunicação e cultura na contemporaneidade,
Martin-Barbero e Canclini, Siverstone e Hall são indicativos, entre outros, da oportunidade
atribuída ao sentimento de pertencimento em uma pluralidade de significações: ele se liga,
4 Os itens 3 e 4, a seguir, têm referência anterior em SOUSA, M. W. 1999 e SOUSA, M. W. 2005.
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ora a questões da identidade ou do consumo, ora a expressão na esfera simbólica da
necessidade do estar junto, ou ainda a dimensão política presente nas questões da cidadania.
O tema perpassa vários textos de Martin-Barbero em pelo menos duas direções
complementares, ligadas essencialmente às questões da identidade e do consumo. Da
identidade quando reconhece que a sociedade contemporânea é fragmentada, contexto que
facilita a determinação e transformação de questões como aquelas relativas a povo e nação.
Povo vem sendo substituído por público, base de um novo espaço público à medida que há
um entrelaçamento do público com os novos modos de simbolização e representação que
abrem as redes comunicacionais e os fluxos de informação” (Martín-Barbero, 1997A, p. 91).
Por outro lado, ao reconhecer a des-espacialização das cidades indica que vêm surgindo
“reconfigurações do sentido de pertencimento e identidades cidadãs, num contexto conflitivo
entre povo-público, de uma cidade cada vez mais mediada por veículos de comunicação e de
informação donde a cidade virtual” (Martín-Barbero, 1997A, p. 92).
Esse lugar mediador atual dos diferentes media e especialmente seu lugar na busca da
identidade numa sociedade fragmentada se revela quando se percebe que:
se a televisão atrai é porque a rua expulsa, é dos medos que vivem os meios. Medos
que provêm secretamente da perda do sentimento de pertencimento em cidades nas
quais a racionalidade formal e comercial acaba com a paisagem em que se apoiava a
memória coletiva... (Martín-Barbero, 1996, p. 33).
Numa segunda direção, o sentimento de pertencimento é visto, em textos de Martín-
Barbero, como associado ao consumo, ora como “espaço de integração e comunicação de
sentidos, como modo de circulação e popularização de sentido”, ora como espaço de
objetivação de desejos: “dimensão fundamental (...) a dimensão libidinal, dimensão desejante
(...) consumir faz parte da relação desejante entre sujeitos da interpretação que nos constitui
como sujeitos” (1995, p. 62).
Os meios de comunicação se situam como mediadores desse caos e dessa
fragmentação, ou muitas vezes chegam a ser:
uma compensação nessa desarticulação, produzindo no imaginário das pessoas certas
articulações (...) estão compensando as novas formas de solidão, os novos
isolamentos, através da diferenciação, as convocações tribais que estimulam a
configuração de audiência e de públicos (Martín-Barbero, 1995B, p. 152).
A noção de pertencimento através dos media na busca de uma identidade acaba sendo a
configuração dada por Martín-Barbero ao termo, numa conotação mais para o social do que
para o político. Embora essa noção de identidade exija ser melhor detalhada, observe-se que
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sua dimensão política, caminho através do qual se introduz a temática da cidadania, é chave
nos estudos de Canclini, já pela análise cultural do significado do consumo na vida
contemporânea.
É o que se observa quando ele diz:
ser cidadão não tem a ver com os direitos reconhecidos pelos aparelhos estatais para
os que nasceram em um território, mas também com as práticas sociais e culturais
que dão sentido ao pertencimento e fazem com que se sintam diferentes os que
possuem uma mesma língua, formas semelhantes de organização e satisfação de suas
necessidades (Canclini, 1995, p. 22).
Assume-se que a cidadania não se refere apenas à satisfação dos direitos que levam à
igualdade mas também daqueles que se reportam à diferença como componentes também da
democracia. A questão envolve o debate sobre as ciladas que a questão da diferença pode
assumir quando tomada como discriminação, o que leva à sua denúncia, e seu lugar
transformador, ou então como justificativa conservadora de se buscar a sua manutenção pelo
próprio direito de igualdade (Dagnino, 1994, p. 13 e Pierucci, 1999). Essa direção de
percepção da cidadania, de forma não só mais política e voltada a satisfação de necessidades
e direitos, mas de forma ampliada ao social e ao cultural, é bem expressão das mudanças
sendo vivenciadas em especial na América Latina.
É entre esses novos cenários, como redimensionamento das instituições e dos circuitos
de exercício do público, a reformulação dos padrões de assentamento e de convivência
urbanos, a preocupação com a qualidade de vida, a reelaboração do próprio, que Canclini
indica que:
há a conseqüente redefinição do senso de pertencimento e identidade, organizado
cada vez menos por lealdades locais ou nacionais e mais pela participação em
comunidades transnacionais ou desterritorializadas de consumidores (os jovens em
torno do rock, os telespectadores que acompanham os programas da CNN, da MTV e
outras redes transmitidas por satélite) (Canclini, 1995, p. 28).
Observe-se que a temática do pertencimento, tanto para Martín-Barbero quanto para
Canclini, embora sob arrazoados próximos mas nem sempre semelhantes, têm sua convergência
em três direções, ou seja, identidade, comunidade e cidadania,. Essas três categorias
são recorrentes entre si e também sinalizadoras não só de sua adequação no contexto
histórico da realidade sociocultural de países da América Latina como da pertinência de seu
estudo anteriormente no contexto dos estudos culturais ingleses.
Estas primeiras constatações estão também presentes, por exemplo, nos textos de Hall
quando reconhece que vive-se hoje na sociedade pós-moderna uma crise de identidade.
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Crise porque estaria sendo vivido hoje um duplo deslocamento - “descentração dos
indivíduos tanto de seu lugar no mundo social e cultural quanto de si mesmos... uma ‘crise de
identidade’ para o indivíduo” (Hall, 1999, p. 09). Isso se dá no contexto da sociedade do
século XX onde estão se “fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero e sexualidade,
etnia, raça e nacionalidade que no passado nos tinham fornecido sólidas localizações
como indivíduos sociais” (Hall, 1999, p. 09). Essa situação de crise, na verdade, é a ausência
de referências para viver a vida, donde a dificuldade de sentidos a serem dados a essa mesma
vida, individual e coletivamente.
Esses deslocamentos na esfera da identidade envolvem também o descentramento do
sujeito, diferente da sua desagregação na tardia sociedade moderna. É o que Hall defende
quando aponta que o discurso e o pensamento durante o século XX foram sendo descentrados
pelo impacto de cinco elementos do pensamento formado no século anterior: o pensamento
marxista, o pensamento freudiano, a lingüistica de Saussure, a questão do poder disciplinador
de Foucault e o feminismo. Assim, sujeito descentrado e identidade em crise seriam os
elementos fundamentais que justificam o sentimento de pertencimento como um traço da
sociedade contemporânea na busca de encontros referenciais num contexto que as eliminou.
Uma dimensão simbólica de pertencimento, ampliando sua significação para além da esfera
organizacional e imediata das relações sociais face a face, portanto, numa visão também
ampliada de comunidade.
Justifica-se assim porque Hall, servindo-se do conceito de comunidade imaginada de
Anderson, visualiza a identidade como processo simbólico de busca de algo comum
imaginado, donde a dimensão de pertencimento. Recorde-se que Anderson ao recompor o
conceito de nação como sendo uma narrativa, portanto uma realidade imaginada, marcada
pela continuidade, tradição e intemporalidade, ao mesmo tempo que alimentada pelos mitos
fundacionais, pela invenção e pela idéia de povo, identifica o que denomina de comunidade
imaginada, no caso, a própria concepção de nação (1989, p. 15). Entende-se então, porque
apoiando-se em Anderson, Hall assegure que “as culturas nacionais são compostas não
apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações”, donde a
afirmação de que “a identidade nacional é uma comunidade imaginada” (Hall, 1999, p. 51).
Mas caberia perguntar como tratar a diferença e seu lugar na reinterpretação que marca
a vida cultural numa “comunidade imaginada”. Hall (1999, p. 58) lembra ainda que “em vez
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de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las como constituindo um
dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade. Elas são
atravessadas por profundas diferenças internas, são ‘unificadas’ apenas através do exercício
de diferentes formas de poder cultural. Entretanto, como nas fantasias do ‘eu’ inteiro de que
fala a psicanálise lacaniana - as identidades nacionais continuam a ser representadas como
unificadas” (Hall, 1999, p. 62).
Em Silverstone (1999) a temática do pertencimento se liga à identidade em
comunidades imaginadas, com o concurso do que ele chama de novos media. Ele salienta que
o tema da comunidade ressurge hoje, e reelaborado, em decorrência mesmo da presença e da
expansão dos novos media. E isso é um fator de tensão dado que envolve analisar como as
formas de sociabilidade se sustentam e tornam possível nosso estar junto na tardia moderna
sociedade atual. Comunidade se coloca como mediação entre o material e o simbólico, o
vivido e o imaginado, o local e o global, o público e o particular. Estas mediações são
plausíveis de maior explicação. Primeiro, segundo Silverstone, apoiando-se em Calhoun,
comunidade não é um lugar onde uma parte da sociedade se agrega. Poderia ser aquilo que é
vivido pelo povo de forma densa, múltipla, numa rede autônoma de relações sociais. Mas,
apoiando-se agora em Cohen, entende que comunidade é mais do que a materialidade espaçotempo,
é uma formação simbólica, o produto do investimento de seus membros, um sentido
similar de coisas genericamente colocadas, ou mesmo em seus aspectos específicos. É a sua
vinculação a um corpo comum de símbolos, o cerne do sentimento, algo que reside no pensamento
mesmo das pessoas (1999, p. 09).
Num segundo instante esse caráter mediador se explica porque hoje tem-se a
“comunidade real” (ou comunidade orgânica), a vivida e localizada no espaço-tempo,
inclusiva e exclusiva, sobre a qual somos nostálgicos, e hoje sendo destruída pela
modernidade. Mas tem-se também a comunidade imaginada, composta por práticas ligadas a
uma agenda cultural mediada. E tem-se também a comunidade virtual, uma certa
efervescência de contatos baseados numa rede eletrônica. E nesses caminhos, essas
configurações se reportam à preocupação de pertencer, de ser membro, segundo Silverstone.
Enfim, num terceiro instante, caberia apontar as imbricações políticas, econômicas e de
sociabilidade daí decorrentes. Sob o ponto de vista político estas novas formas de
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participação geradas pelo sentido atualizado de comunidade também envolvem a democracia,
ou, quem sabe, um novo espaço público (1999, p. 13).
Atente-se que em todos os autores citados, embora mais imediatamente se coloquem
frente às questões da identidade, do consumo e da cidadania, há recorrência ao conceito de
pertencimento na mesma proporção em que é apontada a ausência, limitação ou fragmentação
do todo, da ação social (Weber), do comum social, real ou imaginado, que objetivamente
motive o estar junto social. Esse comum ausente é de forma ampliada, tomada na esfera
motivadora do simbólico, como comunidade imaginada. A comunicação, por seus suportes
tecnológicos, exerce exatamente o papel mediador de negociação de demandas que estão
além das necessidades da produção e do consumo, mas que se ancoram na busca de um
comum motivador em nível individual do estar junto coletivo. Retome-se aqui a significação
pois de estudos que advogam a busca do “espírito comum” (Paiva, 1998), ou que sugerem a
mutação na identidade cultural – “identidade líquida” (Gioielli, 2005).
4. Pertencimento e o comum – o espaço público
Na literatura sobre comunicação e cultura, o conceito de sentimento de pertencimento é
também vinculado ao de espaço público. Em Martin-Barbero e Canclini a questão abrange o
reconhecimento da crise do Estado-Nação, as dificuldades contemporâneas de um Estado
fragilizado no contexto de um mercado forte e de uma globalização crescente. Muitas vezes
se envolve com democracia, com lugar aglutinador que cabe aos meios de comunicação com
a necessidade crescente da emancipação pelo exercício da cidadania e da inclusão social e
política.
As questões sobre pertencimento e comunicação na perspectiva do espaço público têm
nos pesquisadores do GRESEC5 contribuições importantes. Beaud (1985) centraliza a análise
do pertencimento na constatação de que na sociedade contemporânea o social vem
encontrando sua autonomização, força e secularização. À medida que aumentam as demandas
sociais e à medida que o Estado se mostra incapaz de atendê-las, não só os atores
institucionais vivem o conflito das demandas propostas e não atendidas, como toda a
estrutura do político passa a depender desse conflito gerado a partir do social salientando-se,
5 GRESEC – Group de Recherche sur les Enjeux de la Communication – Université Stendhal de Grenoble,
France.
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então, a necessidade da estratégia da negociação nas sociedades democráticas. É a esse
processo entre o social e o político que Beaud denomina de ampliação de fronteiras: o social
permeia o político ao mesmo tempo que o cultural e se expressa como constituinte da esfera
pública ao mesmo tempo que da esfera privada, familiar, indo até as novas formas de
socialização e que se colocam como a própria expressão do conflito, ou seja, das bases da
democracia. As possibilidades e a direção do esforço democrático ficam atreladas a essa
capacidade de encaminhamento das tensões sociais, aumentadas pela atuação crescente do
mercado, num jogo onde o social, o Estado e o mercado se colocam como principais agentes.
Então, diz Beaud, “cada um é chamado a pensar enquanto indivíduo social em relação às
novas formas de pertencimento social e de sua integração” (1985, p. 131).
O que é por ele denominado de objetivação de si é exatamente o mecanismo de
realização do pertencimento enquanto objetivação na esfera pública das representações
criadas sobre si mesmo e a sociedade. É essa objetivação que dá sentido as práticas sociais
tanto quanto é através dos meios de comunicação que são legitimados muitos dos seus
elementos. Pertencimento e objetivação de si se aproximam conceitualmente.
Isto está dentro de um contexto interpretativo de espaço público não só político como
social, um contexto que gera não um espaço público único mas espaços públicos plurais e
parciais (Miège, 1995).
O cenário de sustentação dessas indicações repousa desde logo na compreensão de que
hoje se vive uma sociedade marcada não só pela quantidade como pela diversidade de
democracias emergentes frente a outras já consagradas o que justifica a variedade e
multiplicidade de modelos. À medida que essas democracias não se limitam à formações
sociais geopolíticas, à circunscrição ao nacional-físico, o exercício do poder político e das
formas de sua expressão se ligam cada vez mais à capacidade interativa internacional,
levando ao deslocamento dos eixos por onde se estrutura e se legitima o poder. Não só
governos e Estados perpassam esse caminho como o mercado e a sociedade civil. Daí a
simultaneidade de processos entre o nacional e o internacional, o global e o local.
O espaço público nas sociedades de massa perpassaria esse cenário: tem que dar conta
da esfera do poder político, a gestão mesma do poder na extensão de sociedades igualmente
plurais, mas tem que dar conta das demandas sociais e culturais advindas dessas mesmas
sociedades. Seria então reducionista a análise do espaço público vinculado apenas a públicoAssociação
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político, às atividades contemporâneas do poder, quando as demandas sociais se fazem
intensas.
Por outro lado, o espaço público não só político mas a um só tempo político e social,
tem que dar conta da desigualdade de interesses e de posição de atores, das novas
configurações do contexto de uma sociedade democrática definida pelo signo do conflito. A
expressão histórica do jogo de atores, cenários e circunstâncias se altera mas o pressuposto do
conflito numa sociedade regida pelo imperativo da dominação se mantém.
Tem-se ainda que na crítica ao espaço público conforme proposto por Habermas, a
partir do principio da publicidade (1984), ou mesmo ao objetivo discursivo da competência,
como condição para a interlocução argumentada dos atores, que as formas de estar junto já
não são mais só sob a ótica do espaço físico, nem sob a ótica da presença imediata dos atores
em espaços físicos. O objetivo da publicidade burguesa de “pessoas privadas reunidas em
público”, é hoje necessariamente mediado, diz Floris (1995, p. 124). O espaço público não se
define mais só pela argumentação, pela força social do debate, mas também pela presença
dos condicionantes do mundo simbólico, a mediação da cultura, como também pela
pluralidade de instituições que compõem os diferentes campos da vida social, inclusive o das
comunicações.
As perspectivas de um novo espaço público estão exatamente neste campo de
mediações representado pelo Estado e pela sociedade civil, donde as quatro marcas
mediadoras propostas por Floris (1995, p. 125):
1. Ele é o campo da formação simbólica de uma opinião pública através de todas as
formas de comunicação existentes na sociedade.
2. Ele é um campo de formação democrática de uma vontade política por meio de
sufrágio universal, do parlamento e dos partidos.
3. Ele é uma esfera de mediação entre o Estado e a sociedade civil.
4. O espaço público não é um lugar abstrato do consenso democrático ideal, é um
espaço conflitivo exprimindo relações sociais de desigualdade e de dominação.
Nesse contexto de espaço público é interessante retomar a afirmação de Beaud já citada
sobre a ampliação de fronteira entre o político e o social. As necessidades que levam à
autonomização do social não se resumem aos movimentos sociais e pressões sociais por
equipamentos urbanos ou propriedade de bens, mas se referem também ao trabalho, à saúde,
ao consumo, ao sexo, ao lazer, como domínios através dos quais se manifesta a distinção e a
integração sociais (Pailliart, 1995, p. 11). Essas necessidades se revelam ainda pela sua
entrada na esfera política onde passam a ser elemento central dessa mesma política, ou o que
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Beaud denomina de politização do social: “politizado, o social penetra a política, que se torna
seu objeto mesmo, donde o espaço público” (1985, p. 130).
O conceito de espaço público definido por Floris amplia a importância do
pertencimento através da objetivação de si, ou, como também é denominada, a
intelectualização da vida privada. Beaud entende que a objetivação de si é a própria
demonstração de como o espelho muda de mão: ao invés de estar nas mãos do parlamento e
da imprensa, ou do mundo sistêmico, se desloca para as práticas do social onde se realiza. A
objetivação de si através dos meios de comunicação tanto quanto das sondagens de opinião
pública revelaria exatamente esse deslocamento do social, de como “os indivíduos se
representam a si mesmos como ser social”, como se objetivam, como tornam racional a razão
privada de ser social.
Essa dimensão de pertencimento-objetivação de si-espaço público refletiria ainda os
estágios de democracia conseguidos, os suportes educacionais, o desenvolvimento da
urbanização, as características das ofertas culturais contemporâneas. Beaud entende que esta
objetivação de si não é a volta a individualidade, ao narcisismo, ao consumo de bens, à
deterioração do liame social ou enfraquecimento do social e do privilegiamento da vida
privada. É o indicativo por onde hoje as pessoas se colocam no interior das práticas sociais
onde o mais importante é o que as determina, os diferentes níveis de busca do pertencimento
social, para além dos suportes básicos de socialização representados pela família, pela
educação, etc. Essa busca de pertencimento, através da objetivação de si é que dá sentido às
práticas sociais, traço do espaço público plural da contemporaneiadade. É nas práticas sociais
que a busca do pertencimento se realiza porque é ali que se realizam “as diferentes mediações
através das quais os homens se encontram consigo mesmos” (Beaud, 1985, 116).
Entende-se então porque se diz que “os media não são somente um lugar de
confrontação de argumentos, mas também um lugar de simbolização de uma sociedade. Toda
coletividade tem necessidade de um lugar para construir sua imagem” (Salaün, 1990, p. 27).
Enfim, a busca do comum (Pailliart, 1995), a gestão do social (Miège, 1995 e Salaün,
1990), o conflito das relações de dominação (Floris, 1995) são ângulos próximos por onde a
definição do comum se confunde com a de público e a comunicação se coloca como
mediadora de conflitos.
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5. O pertencimento – entre o público e o comum
A análise crítica aqui apontada indica diferentes eixos de estudo. De um lado, é
fundamental compreender os processos que sustentam hoje a utilização renovada de
conceitos originalmente produzidos em outras matrizes conceituais. O conceito de sentimento
de pertencimento, por exemplo, não se limita a uma motivação interior, subjetiva e isolada,
mas se situa entre o subjetivo e o objetivo permeado pelas motivações derivadas do coletivo,
como que em um fluxo de negociações onde objetivação de si e pertença expressam as
semelhanças e a dinâmica desse mesmo jogo. É o que Williams (1979) aponta ao sinalizar as
fronteiras entre o social e o fixo frente ao instável e o subjetivo, contexto da estrutura de
sentimento, ou ainda, o que em outra perspectiva ele também sinaliza enquanto cultura
comum. Não é distante a consideração anteriormente apresentada por Beaud sobre as
fronteiras do social e do político determinando o estar junto social público.
A relação entre sentimento de pertencimento e o todo da ação social, o comum social, o
mundo do comum, o público, o espaço público oculta sob acepções conceituais e teóricas
diversas a tensão apontada há pouco por Williams e Beaud.
O pertencimento pois se não depende isoladamente desses processos é mediador entre
eles, razão por que sob a denominação antiga de sentimento de pertencimento são expressos
níveis e âmbitos mais amplos de socialização, como indicados anteriormente por Monteiro,
tanto quanto os conflitos que o envolvem (Miège, 1995).
A compreensão mais aprofundada do que sustenta esse comum-público acaba sendo um
vetor por onde o conceito de sentimento de pertencimento hoje se fundamenta, atualiza-se e
se explica.
Chambat (1995, p. 71) adverte que é importante qualificar a natureza do liame que faz
as pessoas realizarem a experiência do estar junto, donde a distinção entre comunidade e
mundo comum. Para ele, enquanto comunidade se apoiava sobre uma identidade preexistente
(língua, etnia) que define a fronteira do espaço público e o que determina o objetivo da
decisão coletiva (manter a identidade comum), o mundo comum é marcado por uma
identidade a ser construída através da participação no espaço público. Seria uma dimensão
conceitual ampliada tanto de comunidade como de comum.
Nessa acepção o comum se distingue pela própria concepção com que comunidade e
espaço público diferenciadamente o assumem. Uma conceituação mais restrita de
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comunidade, delimitada na tradição e na concretude de relações face a face, incorporaria de
forma igualmente restrita a percepção do que lhes é comum, diferente de sua acepção no
âmbito do espaço público marcado pela pluralidade de pessoas e de interesses. É como se a
extensão de atores no tempo e no espaço delimitassem igualmente a amplitude do que é
comum.
Isso envolveria outra conotação entre público e privado, lembrando Arendt (1983, p.
67), quando assinala que “embora o mundo comum seja o terreno de todos ... acaba quando é
visto somente sob um aspecto e só lhe permite uma perspectiva”.
Ângulo igualmente complexo está na vinculação entre o comum e o público a partir da
noção habermasiana de espaço público. De um lado, em sua acepção, o espaço público
contemporâneo está diluído, logo o mundo comum igualmente, já pela impossibilidade
mesma da argumentação e da participação na esfera pública. Esta mesma complexidade da
sociedade contemporânea gerando a impossibilidade do estar junto coletivo único, um mundo
comum único, um espaço público único, passa a ser buscada nos espaços públicos parciais
como que em justaposição conflitiva que possibilita a retomada ampliada da comunidade,
espaço de visibilidade do comum, do pertencimento, na tensão e nos limites entre o global e o
local, entre o público e o comum, o real concreto e o imaginado.
Tassin (1991, p. 23) entende estar aí o antagonismo entre comunidade e público, o
público e o comum, onde há espaços públicos que não são comum e vice-versa, cabendo
apontar como o que é comum se torna público e se constitui em “coisa pública”. Perspectiva
igualmente nova se dá quando se desloca do conteúdo-fim imediato que determina o comum,
para a percepção da forma como se realiza o público, enquanto expressão coletiva de ação, e
não na percepção que distingue o público do privado. O pertencimento não se verificaria
necessariamente só ao assumir a intencionalidade de um objetivo comum, publicamente, mas
na experiência de ações que se tornam públicas porque são comuns, são experiências de
participação. O estar junto pode expressar o pertencer, pelo próprio fato de estar junto, e
como tal ele é o público, o comum. Esta questão se coloca como objeto necessário de mais
aprofundamentos buscando os caminhos por onde o pertencimento se dá em diferentes
formações sociais.
Uma outra problemática que permeia a hipótese aqui em questão, e já apontada em
vários instantes, é a da qualificação dos novos media ante o sentimento de pertencimento ao
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espaço público-comum. Como se realiza seu papel mediador, em específico de como a
recepção mediática é linguagem mediadora dessa relação.
Na verdade, as mutações tecnológicas em constante processo na área da informação e
da comunicação, não alteram o quadro de análise que aqui se coloca: a comunicação
mediatizada exerce seu papel de mediação entre o indivíduo e a sociedade, em espaços
públicos plurais, onde formas distintas de acesso, individual ou coletiva, de alguma forma
interferem na criação e na circulação de sentidos, na configuração de práticas, donde seu
lugar, enquanto comunicação mediatizada, na construção dessas práticas, e por isso mesmo,
práticas públicas com apropriações e canais de acesso diferenciados. São mediações
presentes e em mudança que se colocam em outro eixo de investigações a ser aprofundados.
Evidencia-se, pois, que a hipótese aqui objeto de indagação, apesar de contextualizada
em tradições diversas de pesquisa, e ainda que exija a análise de uma série de questões que
lhe são postas como problemáticas, nem por isso deixa em segundo plano sua pertinência.
Afinal, vale lembrar Vattimo quando propõe que:
a sociedade dos media, em vez de um ideal de emancipação modelado pela
autoconsciência completamente definida, conforme o perfeito conhecimento de quem
sabe como estão as coisas ... abre caminho a um ideal de emancipação que tem antes
na sua base a oscilação, a pluralidade, e por fim o desgaste do próprio princípio da
realidade…Viver neste mundo múltiplo significa fazer experiências de liberdade
como oscilação contínua entre pertença e desenraizamento (1992, p. 13/16).
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mutações do espaço público: comunicação, territórios e organização 3.A inserção social de novas
tecnologias da informação e da comunicação 4.Informática e comunicação. Entre seus pesquisadores
estão: Bernard Miège, Isabelle Pailliart, Bernard Floris, Jean Caune, Paul Beaud, Jean-Michel Salaün,
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GRUPO II - 14/05




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v
A emergência das comunidades virtuais
Alex Fernando Teixeira Primo1
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
alex.primo@terra.com.br
Resumo: A internet está revolucionando a comunicação humana. Com ela abrem-se
novas formas de intercâmbio de informações, de forma interativa, assíncrona ou
síncrona, com significante intimidade mesmo que sem proximidade física. Sendo
assim, além do correio eletrônico, a internet abre canais de diálogo que permitem a
conversa simultânea de dezenas de pessoas. Os serviços de BBS e chat (como o IRC),
verdadeiros pontos de encontro on-line, têm contribuído para a formação de
comunidades virtuais. Este trabalho pretende investigar como as pessoas relacionam-se
entre si nessas emergentes comunidades.
Ao fazer citações deste artigo, utilize esta referência bibliográfica:
PRIMO, Alex Fernando Teixeira. A emergência das comunidades virtuais. In: Intercom 1997 - XX Congresso
Brasileiro de Ciências da Comunicação, 1997, Santos. Anais… Santos, 1997. Disponível
em:.
Introdução
O conceito de comunidade tem evoluído. É costumeiramente usado para descrever um
conjunto de pessoas em uma determinada área geográfica. Também inclui a idéia de que esse
conjunto possui uma estrutura social. Isto é, existe algum tipo de relacionamento entre essas
pessoas. Além disso, pode existir um espírito compartilhado entre os membros da comunidade e um
sentimento de pertencer ao grupo. Em 1887, o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies criou uma
dicotomia para descrever dois tipos de organização social: gemeinschaft (ou comunidade) e
gesellschaft (ou associação). O primeiro conceito descreve uma sociedade tradicional, de cultura
homogênea, onde os indivíduos tem relacionamentos interpessoais e valorizam as relações sociais. Já
o segundo conceito, caracterizado pela sociedade urbana industrializada, descreve o conjunto de
indivíduos com relações impessoais, distantes, individualizadas e que usam as relações sociais como
meios para um fim (Persell, 1987).
Este trabalho visa discutir um novo tipo de comunidade que emerge da atual sociedade
informatizada. Comunidades virtuais que acabam possuindo características de gemeinschaft
(relações amistosas e íntimas e senso comunitário), mesmo sem coincidência geográfica ou contato
físico.
1 Professor de Comunicação Social (Fabico/PPGCOM//UFRGS), Doutor em Informática na Educação (PGIE/UFRGS),
Mestre em Jornalismo pela Ball State University; Coordenador do Laboratório do Núcleo de Pesquisa em Informação e
Novas Tecnologias (PPGCOM/UFRGS).
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I - Comunidades virtuais
Para Ávila (1975), uma comunidade apresenta as seguintes características:
a) uma certa contigüidade espacial, que permita contatos diretos entre seus membros;
b) a consciência de interesses comuns, que permite aos seus membros atingirem
objetivos que não poderiam alcançar sozinhos;
c) a participação em uma obra comum, que é a realização desses objetivos e a força de
coesão interna da comunidade.
O conjunto de pessoas que se reúne e interage através de conferências eletrônicas
experimenta circunstâncias equivalentes às citadas acima. Com uma pequena diferença, o local de
contato é o ciberespaço2.
FernBack e Thompson (1995, p. 8) definem comunidades virtuais como as “relações
sociais formadas no ciberespaço através do contato repetido em um limite ou local específico (como
uma conferência eletrônica) simbolicamente delineado por tópico ou interesse”. Para eles, os
diversos indivíduos reúnem-se por um senso comum, e não por mera agregação geográfica.
Rheingold (1993) entende comunidade virtual como agregações sociais que emergem
na Internet quando um número de pessoas conduz discussões públicas por um tempo determinado,
com suficiente emoção, e que forma teias de relações pessoais no ciberespaço. Ele defende que a
diminuição das possibilidades de encontros reais nas cidades motivou o surgimento e o crescimento
dos encontros virtuais.
Porém, existe o temor de alguns teóricos que a hiper-realidade condicione o
desaparecimento de comunidades reais. “Comunidade só pode existir em uma sociedade
mediatizada através do meio porque nenhuma outra existe”. Esse receio aparece no texto
“Baudrillard in Cyberspace: Internet, Virtuality and Postmodernity”, de Nunes (1995, p. 8).
Baudrillard (1997, p. 71) receia que o espaço virtual transforme, e até aniquile, as
representações que temos do mundo, do político, do real e do social.
Hoje, não pensamos o virtual; somos pensados pelo virtual. Essa transparência
inapreensível, que nos separa definitivamente do real, nos é tão ininteligível quanto
pode ser para a mosca o vidro contra o qual se bate sem compreender o que a separa do
mundo exterior. Ela não pode nem sequer imaginar o que põe fim ao seu espaço.
Porém, contra o temor que realidade virtual conste de um lugar asséptico, de
informações precisas e pouco espontâneas, que possam destruir a sociabilidade, Lemos (1996, p. 21)
afirma que o interesse sociológico e antropológico do ciberespaço reside justamente no vitalismo
social que os chats permitem canalizar.
O interesse está no fato de que todas as formas de sociabilidade contemporâneas
encontram na tecnologia um potencializador, um catalisador, um instrumento de
conexão. (...) O ciberespaço não é uma entidade puramente cibernética (no sentido
etimológico de ‘controle’ ou ‘pilotagem’), mas uma entidade abstrata, efervescente e
caótica.
E sobre o dilema realidade virtual X real, Lemos aponta que o ciberespaço não é
desconectado da realidade. Pelo contrário, trata-se de um espaço intermediário que faz parte da
cultura contemporânea. No ciberespaço todos são atores, autores e agentes de interação.
Para Wark (1992), o ciberespaço seria uma alternativa para fugir da chatice do subúrbio,
sem precisar se expor aos perigos da cidade. Outra idéia interessante que esse autor levanta é que o
2 Por ciberespaço entende-se o lugar onde se está ao entrar em um ambiente virtual, e como o conjunto de redes de
computadores, interligados ou não, ao redor do globo (Lemos, 1996).
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ciberespaço recria a idéia de comunidade. As comunidades virtuais não tem um lugar real para se
encontrar como toda comunidade. Não costumam se encontrar em uma boate ou em uma praça. Os
participantes integram-se na comunidade através de um modem em conferências eletrônicas.
Outra circunstância interessante é a formação de subúrbios virtuais no ciberespaço, já
que os usuários de serviços de chat habitualmente freqüentam canais temáticos.
Comunidades virtuais, construídas em volta de interesses e não de proximidade física,
sugere um movimento para longe da vitalidade tensa da vida em cidade. Quando todo
grupo tem seu próprio chat room, porque se aventurar fora deste estreito quadro de
referência? Desse ângulo, a ascensão da comunidade virtual parece seguir a lógica da
suburbanização, já que cada grupo social recua para trás das novas comunidades
fechadas do ciberespaço(Public Life in Eletropolis, 1995, p. 1).
De fato é o que ocorre nas diversas conferências eletrônicas espalhadas pelo
ciberespaço. Os usuários desses serviços se conectam habitualmente aos chat rooms, ou salas de
encontros virtuais, que tem por título assuntos que lhes são relevantes. É nesse convívio que
desenvolvem suas personas, que desenvolvem um senso comunitário e que fazem e desfazem
amizades.
Hebdige, citado por Meyer e Thomas (1990, p. 6), refere-se ao conceito de homologia
para descrever os laços estruturais que unem os participantes. “Homologia refere-se a afinidade e
similaridades que os membros de um grupo compartilham que os dá uma identidade particular”. Os
usuários habituais desses serviços defendem que há sempre alguém no ciberespaço para
compartilhar idéias e anseios.
A partir do seu próprio uso da Internet e das relações que desenvolveu nela, Rheingold
(1993) afirma que as pessoas de comunidades virtuais se utilizam de palavras na tela do monitor
para trocar experiências, discutir, participar de discursos intelectuais, trocar suporte emocional,
desenvolver amizades e amores, flertar, jogar, produzir arte, etc. Os participantes “deixam para trás
seu corpos” e, logo, não há como se tocar, beijar ou agredir fisicamente. Mas essas comunidades,
segundo ele, se tornaram atrativas e até um vício. E segundo seu testemunho, muitas relações
virtuais se desenvolvem até relações reais. A experiência dele no chat WELL, de San Francisco, o
levou a participar de casamentos, nascimentos e até funerais ligados aos membros que ele conheceu
naquela comunidade. Na verdade, é comum às comunidades virtuais promoverem encontros reais,
para que os participantes possam conhecer-se fisicamente.
Rheingold, citado por FernBack e Thompson (1995, p. 7) sugere que se as
comunidades virtuais respondem às necessidades sociais das pessoas elas devem sofrer um
significativo crescimento nas próximas décadas:
Quando um grupo de pessoas permanece em comunicação com outro por períodos
estendidos de tempo, a questão se isso constitui uma comunidade aparece.
Comunidades virtuais podem ser comunidades reais, elas podem ser pseudocomunidades,
ou podem constituir um tipo de contrato social completamente novo, mas
eu acredito que sejam em parte uma resposta a necessidade de comunidade que seguiu à
desintegração das comunidades tradicionais no mundo.
Rheingold (1993) ainda lembra que Licklider e Taylor, criadores da ARPANET (que
antecedeu a Internet), já em 1968 haviam previsto a formação de comunidades lincadas por
computador. Segundo eles, essas comunidades consistiriam de pessoas separadas geograficamente,
organizadas por interesses comuns e não por localidade.
Sendo assim, as comunidades virtuais seriam baseadas em proximidade intelectual e
emocional em vez de mera proximidade física. Os participantes de chats reconhecem-se parte de um
grupo e responsáveis pela manutenção de suas relações. Dessa forma, pode-se inferir que essa
percepção é, muitas vezes, maior nesses grupos que em situações de comunidades baseadas
geograficamente, como um bairro ou condomínio. Baseadas na proximidade física, muitas dessas
comunidades freqüentemente carecem de qualquer aproximação emocional.
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Por outro lado, Fernback e Thompson (1995) lembram que a noção de comunidades
virtuais também recebe muitas críticas. A entrada para uma conferência eletrônica depende
inicialmente da possibilidade financeira de aquisição de um computador, manutenção de uma conta
telefônica e de serviços do provedor de Internet, capacidade de leitura e redação, além de
familiaridade com o léxico informatizado. Logo, as comunidades virtuais seriam pré-selecionadas e
elitizadas e iriam contra a retórica de democracia e liberdade da Internet.
O debate “Public life in Eletropolis” (1995), patrocinado pela conceituada revista Wired,
discutiu a autenticidade das relações on-line. Para os novatos na rede, uma dúvida humanista surgia:
como pode um laço social se desenvolver num meio frio e impessoal como a Internet? Para uns
debatedores, esses laços realmente existem e podem ser tão fortes como nas relações reais. Outros
se preocuparam com a validade dessas relações, e com o declínio de intimidade no mundo real. Os
dois lados, porém, aceitam que intimidade e comunicação são cruciais para a vida social, on-line ou
não.
Nesse debate lembrou-se que uma comunidade não é apenas sobre interesses
compartilhados e interações cívicas e humanas. É também sobre conflito e contradição. Horn, um
dos debatedores, comenta que o uso do canal cresce quando há algum conflito. E sugere que as
pessoas não estariam on-line se não houvesse tensão. Mais além, Horn aponta um interessante
direcionamento: o de preferir canais que reúnem pessoas por proximidade geográfica, e não por
assunto. Isso é comum em conferências eletrônicas, onde os usuários buscam conversar com pessoas
da sua própria cidade. Essa situação vai contra o temor de alguns intelectuais de que a Internet
afastaria o interesse das pessoas por sua realidade local.
É importante salientar que diferentemente das comunidades geográficas, que sempre
existirão, as comunidades virtuais podem ser efêmeras. A comunidade de um bairro sempre existirá,
pois o bairro não deixará de existir. Por outro lado, um chat só existe quando o sistema está
funcionando. Ocorrendo algum problema, ele deixa de existir.
Um usuário de um chat fará parte da comunidade enquanto se conectar habitualmente
a ele. Assim que ele deixe de freqüentar o canal, ele deixa de fazer parte daquela comunidade. Bem,
o mesmo pode ocorrer em uma situação real. Uma pessoa que deixe de morar no bairro (de nosso
exemplo hipotético) e não freqüente mais o mesmo, não é mais percebido como parte daquela
comunidade. Por outro lado, em uma ciber-comunidade, um usuário de nick (apelido usado na
conferência) “Fulano” pode aparentar que deixou de fazer parte da comunidade ao mudar o nick
para “Sicrano”. Mudando o nick sem comunicar a mudança, o usuário virtualmente se transforma
em outro “indivíduo”, mas continua fazendo parte da mesma comunidade. A mesma situação não
ocorreria em situações reais.
Reid (1991) aponta que a comunicação midiada por computador (CMC), por trabalhar
com um sistema particular de signos e significados, afeta a maneira como os participantes analisam a
realidade. Para ela, trata-se de um fenômeno pós-modernista, à medida que os usuários
desconstróem os limites sociais convencionais e constróem suas próprias comunidades e culturas.
Finalmente, December (1993) afirma que a emergência da comunicação midiada por
computador deu finalmente existência a visão de McLuhan de uma aldeia global. Segundo ele, a
televisão, o rádio e as redes telefônicas se estenderam globalmente no decorrer do século XX.
Porém, eles sofrem de limitações de tempo, espaço e características do meio. A TV e o rádio
trabalham com comunicação unilateral, o que funciona bem para transmissões massivas mas não
para contatos interpessoais. O telefone e o rádio-amador permitem o diálogo entre indivíduos, mas
apenas se eles estiverem conectados ao mesmo tempo. Sistemas de gravação de voz (fitas e discos,
por exemplo) possibilitam uma comunicação assíncrona, sem limitações temporais, mas devem ser
transportados fisicamente pelo espaço. Mesmo a comunicação interpessoal face-a-face exige a
simultaneidade espacial e temporal dos participantes. Isto é, trazem limitações à realização do
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conceito de aldeia global. Já a CMC permite a realização do conceito de McLuhan pois transcende
limitações de tempo e espaço.
II - Conferências eletrônicas
Existem três tipos de comunicação midiada por computador (CMC): e-mail, news e
chat. O primeiro tipo constitui a modalidade de correio eletrônico, sistema utilizado para remeter
mensagens textuais entre usuários da Internet. News são listas de discussão temáticas, onde os
assinantes do serviço remetem mensagens a um banco de dados que se encarrega de remetê-las
para os outros usuários cadastrados. Esses dois tipos de serviços são assíncronos, isto é, existem
significativos espaços de tempo separando a emissão e recepção de mensagens. Nesses casos, o
usuário escolhe quando quer ler e responder as mensagens. O terceiro tipo de CMC é o chat. Esse
tipo de serviço transmite diretamente as mensagens escritas a todos os participantes do grupo
conectados naquele momento.
Segundo Reid (1991), esse tipo eletrônico de comunicação síncrona, o chat, desafia o
entendimento convencional das diferenças entre a linguagem escrita e falada. A sincronia
comunicacional existente nessa modalidade permite interações que antes eram apenas atribuídas às
relações face-a-face.
A BBS (Bulletin Board System3) foi um dos primeiros tipos de conferências eletrônicas,
de modo assíncrono, a se popularizar e permitir a interação de diversos usuários acerca de um tema
específico. Nesse sistema, o usuário escolhe uma BBS que lhe interessa, a partir de seu tema.
Quando se conectar a ela, receberá todas as mensagens que foram remetidas para o banco de dados.
Após a leitura, poderá responder àquelas que desejar, sendo que suas mensagens serão distribuídas
aos demais assinantes.
Como diz o nome, quadro de avisos é onde as mensagens são deixadas para que todos
leiam. Disso resultam conversas públicas, à medida que as pessoas respondem às
mensagens. São as ‘conferências eletrônicas’. Esse intercâmbio é, em geral, assíncrono.
Geralmente, as conferências eletrônicas são organizadas por tópicos para atender a
determinadas comunidades de interesses. Com isso, tornam-se meios eficazes de atingir
grupos específicos. Serviços comerciais oferecem conferências eletrônicas para pilotos,
jornalistas, professores e comunidades muito mais restritas. Na Internet, conferências
eletrônicas abertas são chamadas Usenet newsgroups. Existem milhares de comunidades
dedicadas a tópicos tão específicos quanto cafeína, Ronald Reagan ou gravatas. Você
pode ler todas as mensagens a respeito de um tópico, ou só as mais recentes, ou todas
de uma determinada pessoa, ou só aquelas que respondem a alguma outra mensagem
particular, ou que contenham uma determinada palavra sobre o assunto, e assim por
diante (Gates, 1995, p. 122).
A conferência eletrônica contribuiu muito para a popularização da Internet. Para
participar delas basta digitar suas idéias e enviá-las para um endereço determinado. Por outro lado,
Gates (1995) afirma que existe muito “lixo” na Internet, mas defende que também muitas “jóias” se
encontram na rede. Uma simples mensagem pode interessar a milhões de pessoas que recebem as
contribuições daquela conferência, e pode motivar uma acalorada discussão acerca do tema. Por
outro lado, ela pode ficar por lá e ter nenhum impacto.
Nem sempre as contribuições são sérias. Muito dos textos intercambiados são irônicos.
E muitas dessas mensagens motivam a sua duplicação e envio para outros internautas que podem
entrar na discussão e prolongar a graça do debate.
Storch e Cozac (1995), em sua pesquisa qualitativa sobre o uso de BBS (Bulletin Board
System), identificaram que pelas conferências eletrônicas passam uma diversidade de pessoas. Pela
3 Significa sistema de quadro de avisos. Funciona como um mural eletrônico, onde os visitantes podem visualizar as
diversas mensagens que foram postadas.
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tarde, o sistema reúne os adolescentes. A partir das 18 horas, os canais vão ficando cheios de
estudantes e jovens profissionais, que acessam a BBS em busca de companhia. Os assuntos variam
entre música, cinema, matérias escolares, fofocas, professores, enfim, os mesmos assuntos que os
atraem quando estão juntos fisicamente. Alguns adultos entram também nos fins de tarde, após
chegarem do trabalho. Esses encontros virtuais atingem seu pico de público durante à noite,
principalmente das 21 horas até a meia noite. Para muitos, a BBS e os chats constituem uma forma
de relax, de brincadeira despreocupada, e podem ficar conectados até a madrugada.
O IRC (Internet Relay Chat) é outro sistema de conferência eletrônica4. É um serviço
chat síncrono através do qual dezenas de pessoas podem se comunicar ao mesmo tempo. Existem
diversos “canais” que podem ser acessados5. Cada canal tem um título que normalmente demonstra
o seu tema. Cada nome de canal carrega à sua frente o símbolo # (que representa a palavra “canal”).
O tema de um canal pode ser um assunto específico, como canais dedicados à discussão de futebol,
piadas, homossexualismo, etc. Pode também ser o nome de uma localidade geográfica. Esses canais
normalmente reúnem pessoas que residem na área descrita pelo título do canal. O #Pelotas, por
exemplo, reúne basicamente usuários que residem na cidade de Pelotas ou cidades vizinhas. Esse
canal também recebe visitantes de outras cidades mais distantes e de outros estados. Canais
dedicados ao encontro de pessoas de uma mesma cidade comumente acabam motivando o encontro
real de pessoas que se conheceram virtualmente (através de festas ou encontros organizados online).
Para acessar o IRC é necessária a utilização de um computador ligado à Internet. Além
disso, um dos programas (padrão Windows) mais usados para o acesso a esse sistema é o MIRC.
Através dele a pessoa pode conversar simultaneamente com diversas pessoas e acompanhar a
conversa de outros (podendo até engajar-se nessa conversa)6. A interface do MIRC apresenta uma
janela maior onde o usuário pode acompanhar a discussão. Essa janela, chamada de canal, apresenta
sucessivamente a contribuição de cada usuário. Cada frase da conversa vem antecedida pelo nick
(apelido) do usuário que a remeteu. Dessa forma, sabe-se quem está dizendo o quê. Também na
janela do canal recebe-se informações de quem está entrando ou saindo do sistema. Ao lado dessa
janela principal, uma outra lista todos os nicks de usuários conectados. Clicando com o ponteiro do
mouse sobre o nome de uma dessas pessoas inicia-se o modo PVT (privado). Uma pequena janela se
abre para possibilitar o diálogo privativo entre esses dois usuários. Nenhuma outra pessoa conectada
pode acompanhar uma conversa em PVT. A pessoa que foi convidada para um diálogo privado pode,
ao perceber que uma nova janela se abriu na interface (com o nome de quem a convida para a
conversa na barra de título da janela), aceitar ou não o diálogo. Se caso recusar o convite, basta
fechar essa janela ou ignorá-la.
Por um lado, as pessoas que acessam os canais do IRC apresentam uma série de traços
comuns. Primeiramente, ao ingressarem em um canal temático (como por exemplo o canal futebol)
elas encontrarão pessoas com interesses no mesmo tema (no caso, futebol). Reid (1991, p. 3)
acrescenta que essas pessoas tem também equivalentes posições na pirâmide social no que se refere
a educação e possibilidades econômicas, pelo simples fato de ter acesso à tecnologia. “Essa
‘igualdade’ não é intrínseca ao IRC, mas um produto das estruturas sociais cercando a tecnologia da
informática”.
Por outro lado, os encontros virtuais são bastante heterogêneos. Reúnem pessoas de
diversos países e culturas diferentes. Os participantes são bastante tolerantes com a dificuldade de
alguns indivíduos em utilizar o inglês ou outra segunda língua. Isto é, existe um senso de
4 Trata-se de um programa cliente-servidor desenvolvido na Finlândia por Jarkko Oikarinem, em 1988.
5 Esse recurso foi criado para agrupar o imenso número de participantes em grupos menores, reunidos em torno de
temas que são relevantes aos participantes.
6 O serviço de IRC pode também ser acessado em plataformas com sistemas operacionais sem interfaces gráficas, como o
DOS e o UNIX.
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comunidade transcultural. Na verdade, as diferenças culturais são celebradas, devido ao pressuposto
que o IRC é um local de aprendizagem e exercício social bem como para divertimento.
Segundo Fernback e Thompson (1995), o IRC é uma importante e rica cultura ligada ao
computador, que foi desenvolvida para encontros sociais, e não comerciais. Consta de encontros
sincronizados em diversos canais que indicam o tema que discutem. E para sublimar a dificuldade de
demonstração de emoções não-verbais algumas pistas textuais são usadas (por exemplo, a
mensagem “cai no chão de tanto rir” indica que o participante está achando graça do que foi dito
anteriormente).
Kiesler, Siegel e McGuire, citados por Reid (1991), ao analisar a comunicação midiada
por comutador, concluíram que ela apresenta quatro diferenças fundamentais em comparação às
formas convencionais de interação. São elas:
a) falta de feedback regulador: as pessoas se comportam de maneira mais espontânea,
mesmo com estranhos, já que não existem limitações contextuais como aparência e
status social;
b) apresentação anônima: permitindo a qualquer indivíduo apresentar-se como quiser
e até fantasiar novas identidades, e formar fortes amizades mesmo sem conhecer o
outro fisicamente;
c) fraqueza dramatúrgica: falta de informações não-verbais;
d) poucas pistas de status social: nos chats não se sabe quem é executivo ou estudante,
jovem ou adulto, chefe ou empregado, a não ser que a pessoa informe.
Essas duas últimas características motivam a construção de um novo universo simbólico
que permite a substituição de pistas não-verbais por convenções criadas e legitimadas nos grupos.
Entendendo que cultura significa um sistema de significados que dão sentido a
comportamentos que devem ser interpretados na perspectiva do grupo, e que se constitui de um
sistema de mecanismos de controle — planos, receitas, regras e instruções — para o governo de
atitudes, Reid (1991) conclui que a criação de novos universos simbólicos nos chats constitui a
criação de novas culturas e comunidades.
Storch e Cozac (1995) apresentam algumas pistas textuais que fazem parte da CMC e
que permitem a informação de emoções — que estariam perdidas pela falta de informações
contextuais não-verbais. O “hahaha” é utilizado como uma gargalhada, o “hehehe”, uma risadinha
irônica, e o “hihihi” um riso tímido. Palavras em maiúsculas indicam que se está GRITANDO. E
aquelas com suas letras separadas por espaços indicam que se está falando D E V A G A R. Além
disso, é comum o uso de emoticons. Tratam-se de ícones criados com texto para a representação de
expressões faciais de emoção ou de um ato. Elas devem ser normalmente visualizadas com a cabeça
inclinada para a esquerda:
:-) — sorriso
:-( — fisionomia triste
:-))) — um grande sorriso
;-) — feliz e piscando
?:-( — pessoa confusa
:-x — beijo
@>->->--- — uma rosa
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<><><> — palmas
Reid (1991) afirma que para se ter sucesso em CMC é preciso usar símbolos como esses
e demonstrar atitudes verbalmente7. Além disso, sugere que no IRC é importante a rapidez de
pensamento e resposta. Aquelas pessoas que precisam de tempo para refletir antes de responder e
aquelas que apresentam dificuldades de digitação levam uma desvantagem no sistema.
III - Nick
Ao entrar em um sistema de chat o usuário é impelido a escolher um nick ou alias, ou
seja, um apelido curto que identificará a autoria das mensagens enviadas.
Cada usuário presta uma atenção fundamental à escolha do nick, pois ele o
representará e, talvez, até o qualificará. Muitos usam seu próprio nome, outros escolhem um apelido
real (como Cris para Cristina). Outros, ainda, se identificam pelo nome de personalidades,
personagens de estórias em quadrinhos, qualidades ou até símbolos. O nick é levado à sério, pois
ele se transforma em uma máscara que representa o usuário. A esse nick agregar-se-á — com o tempo
ou instantaneamente (se o nick tratar-se de um signo que o qualifique) — uma personalidade
(percebida pelos outros) que pode ser real ou inventada.
Um “usuário” de nome Adolf Hitler pode descarregar sua agressividade e preconceitos
impunemente. Por mais que os outros o agridam, a pessoa que se esconde por trás do
nome está protegida e as agressões não a atingem. (...)Este exercício da mudança de
nomes e, portanto, de identidades, permitirá ao indivíduo experimentar novos papéis,
que até então encontravam-se contidos ou adormecidos de acordo com as exigências de
seu meio ambiente. Jung nomeia a esta ‘máscara’ como persona (sic). A persona
representa as diversas maneiras de um indivíduo se comportar frente ao mundo e às
solicitações do mesmo, muitas vezes deixando de lado seus reais desejos, sonhos e
fantasias, ganhando na BBS um espaço para a experimentação de tais elementos. Assim,
o inseguro se torna BATMAN, o frágil se torna Asterix, o solitário se torna Alone. A garota
inexperiente se traveste em CINDERELA ou ataca sexualmente de madrugada, usando o
nome de LADY IN RED. Esconde-se o sexo para liberar a sexualidade. Francisco se torna
MARIA para se envolver com outros homens, vivenciando o desejo reprimido. Uma
Denise tímida e carente se torna RAIO DE SOL, para com esse nome jogar um jogo que
na realidade não se permite: o jogo da sedução, escondido, inconseqüentemente. Vidas
paralelas se desenvolvem à procura de aventuras (Storch e Cozac, 1995, pp. 159-160).
Por outro lado, conversar com uma pessoa que está usando um nick pode gerar
insegurança para alguns, uma vez que não se conhece até que ponto o outro pode estar sendo
verdadeiro ou não. “ É uma faca de dois gumes. Um jogo que pode ser perigoso, a depender das
intenções de quem se esconde. O que deveria ser uma forma de proteção que liberasse a expressão,
às vezes se torna um jogo perverso” (p. 158). Para outros, o anonimato de quem está por detrás do
nick constitui toda a graça do jogo.
As pessoas acabam desenvolvendo um estilo próprio de comunicação que os
caracterizam e que pode até tornar-se típico na comunicação de todo o grupo (muitas gírias são
criadas e utilizadas amplamente nessas congregações). Quando uma abordagem não dá certo, há
sempre a chance de tentar-se de novo. E se a pessoa passa a ser estigmatizada pelo grupo, ela pode
voltar ao chat com outro apelido, o que virtualmente a transforma em uma nova pessoa.
Para se tornar reconhecido e valorizado no grupo virtual os usuários engajam-se em um
jogo de sedução. Para sobressair-se cada um utiliza-se das armas que conhece e valoriza. Para a
conquista dos outros, uns utilizam-se do humor, da simpatia, outros apresentam frases
7 É comum os usuários descreverem ações na terceira pessoa. Por exemplo, “Barney está com sono”. Ou até descreverem
ações metafóricas para passar um determinado conteúdo: “Barney vai até a cozinha tomar um copo d’água para se
acalmar”.
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intelectualizadas ou até apresentam comportamentos virtuais bastante sexualizados escondidos atrás
de um nick que pode ser, por exemplo, Tom Cruise ou Amante.
Através do monitor todos são bonitos, espertos, inteligentes. É um jogo, um grande baile
de máscaras, em que se vivenciam personas e fantasias. Aos poucos, as máscaras vão
caindo e as pessoas vão se mostrando mais cruamente, despidas, desnudas. Nesse
momento, as relações, que estavam protegidas pelo distanciamento podem se tornar
mais profundas que qualquer outra. Afinal, a primeira coisa que se mostra nas relações
virtuais é o que mais se esconde nas relações físicas: o interior das pessoas (Storch e
Cozac, 1995, p. 13).
IV - Netiqueta
Como toda comunidade, os canais de conferência eletrônica tem suas regras de
conduta, que emergem naturalmente. Esses roteiros de bom comportamento tem o intuito de
maximizar o diálogo e proteger os usuários de ofensas e atrasos na comunicação. Por exemplo,
devido às conexões telefônicas ruins, mensagens repetidas ou demasiadamente longas prejudicam o
intercâmbio de informações.
Essas regras são apresentadas e aprendidas com o uso da Internet. Assim que algum
usuário negligencie a netiqueta (a chamada etiqueta da Internet) os próprios participantes se
encarregam de censurar o procedimento. Em caso de comportamentos considerados mais graves
(como no caso de ofensas e palavrões) o usuário pode ser desconectado por algum administrador
do canal.
Storch e Cozac (1995) avisam que a regra básica é lembrar que existem pessoas com
sentimentos e emoções por trás do texto na conferência eletrônica. Antes de engajar-se em um
debate, os novatos devem estudar como os participantes se comportam, como é o fluxo de
informações. Deve-se, no início, ler mais que escrever.
Não é bem aceito que um participante utilize o espaço de diálogo para fazer anúncios
comerciais ou que faça comentários fora de propósito. Essa pessoa pode receber uma “chuva de
insultos” ou até ser desligado da conferência. Muitos canais de news possuem moderadores que
filtram as mensagens enviadas, antes de serem distribuídas aos assinantes do serviço. Por outro lado,
muitos usuários posicionam-se contra esse expediente, pois consideram que isso limita a liberdade
de expressão (Gates, 1995). Muitas páginas na Internet hoje apresentam a ilustração de uma fita azul
que representa a defesa da total liberdade de expressão na rede.
A seguir, descrever-se-á uma série de condutas prezadas nas conferências virtuais. Devese
evitar as maiúsculas pois significam que o usuário está gritando. Ao entrar no canal deve-se
cumprimentar as pessoas, e despedir-se antes de sair (não se deve abandonar um interlocutor). Além
disso, as conversas pessoais devem ser conduzidas em modo privativo (o que permite que apenas
duas pessoas dialoguem).
Costuma-se copiar trechos da mensagem de outro usuário quando se quer comentá-la.
Porém, não é de bom tom comentar questões privadas em mensagens públicas.
Deve-se, também, evitar termos grosseiros, preconceituosos e mensagens repetidas que
atrapalham o fluxo da informação e forçam os usuários a lerem uma seqüência de mensagens
idênticas.
Em casos de debates eletrônicos assíncronos, como os conduzidos em BBS e em listas
de discussões, é de bom tom remeter mensagens curtas. Negroponte (1995, p. 166) afirma que basta
uma tecla para despachar quinze ou 50 mil palavras indesejadas.
Esse simples ato transforma o e-mail de um veículo pessoal e dialógico numa enorme
enxurrada de palavras, o que é desgastante, sobretudo se sua conexão se vale de um
canal de baixa largura de banda”. Para esse autor, a brevidade é a alma das discussões via
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correio eletrônico. Por outro lado, lembra que o extremo oposto é ainda pior, como
responder uma mensagem com um curto “claro”. Claro o quê?.
V - Desvios de conduta no ciberespaço
Toda comunidade tem os seus desvios de conduta e grupos marginais que se rebelam
contra as normas estabelecidas. No mundo virtual isso não é diferente. Mesmo porque os rebeldes
no mundo real acabam demonstrando esse comportamento no ambiente virtual.
(...) sabe-se que participantes em fóruns eletrônicos por vezes têm comportamentos antisociais
e até ilegais. Cópias piratas de propriedade intelectual registradas, inclusive
artigos, livros e programas de computador, são distribuídos livremente. Negócios
fraudulentos pipocam aqui e ali. A pornografia floresce ao alcance fácil de crianças. Vozes
obsessivas arengam quase sem parar sobre produtos, empresas e pessoas de que não
gostam. Participantes de fóruns recebem insultos horríveis por causa de algum
comentário que fizeram. A facilidade com que alguém pode compartilhar suas opiniões
com os membros de uma imensa comunidade eletrônica não tem precedentes. E quem
berra tem condições, graças à eficácia do correio eletrônico, de destilar seu ódio em
vinte conferências eletrônicas. Assisti a conferências eletrônicas que caíram na insensatez
depois que as pessoas começaram a ficar estridentes. Os outros participantes da
discussão não sabem o que fazer. Alguns respondem gritando; uns poucos tentam dizer
coisas racionais. Mas os comentários estridentes continuam e isso destrói o sentido de
comunidade (Gates, 1995, p. 204).
Meyer e Thomas (1990, p. 3) entendem que isso é uma demonstração pós-moderna.
Segundo eles, a
cultura moderna é caracterizada especialmente por racionalidade, desenvolvimento
tecnológico, valorização do poder centralizado e comunicação massiva. (...) Por
sociedade pós-moderna nós nos referimos a uma reação a ‘cultura moderna’ e a
destruição dos limites da presente ‘sociedade de segurança máxima’ que reflete uma
tentativa de ganhar controle de um futuro alternativo.
Este estilo de rebelião divertida, subversão irreverente, e justaposição de fantasia e
realidade high-tech, impele esses pesquisadores a interpretar o computer underground (o
submundo da informática) como uma cultura pós-moderna.
O computer underground é tanto um estilo de vida e uma rede social. Como um estilo
de vida, ele proporciona identidade e regras, uma ideologia operacional, e guia rotinas
diárias. Como uma rede social, ele funciona como um canal de comunicação entre
pessoas em uma de três atividades básicas: hacking, phreaking e pirating [grifo meu].
Cada sub-grupo possui um estilo explícito que inclui uma ética e um ‘código de honra’,
normas coesas, pistas de carreira, e outras características que tipificam uma cultura
(Meyer e Thomas, 1990, p. 6).
Os hackers tem como intenção constante penetrar em sistemas de computadores a que
não tem autorização. Para eles a informação deveria ser livre e o poder descentralizado, e justificam
sua “hackeadas” (termo abrasileirado comum entre os aficcionados por informática) como uma
forma de buscar conhecimento. Os phreaks, por sua vez, tem como intuito penetrar nos serviços de
telecomunicação e conseguir ligações gratuitas. E, finalmente, os piratas ocupam-se da distribuição e
duplicação ilegal de programas de computador8. A literatura tem chamado esses rebeldes virtuais de
cyberpunks.
O termo cyberpunk surgiu da fusão de duas correntes aparentemente inconciliáveis.
Cyber vem da teoria da cibernética desenvolvida no final da segunda guerra pelo matemático Norber
Wiener. Muito dos pressupostos dessa teoria inspiraram o desenvolvimento da informática. O
8 Os autores, em nota ao final do artigo, ainda lembram a existência de anarquistas virtuais que ocupam-se de disseminar
técnicas de vandalismo, como confecção de bombas, via Internet.
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segundo termo, punk, vem do movimento social, musical e ideológico homônimo, surgido nos anos
70 como uma reação pessimista ao mundo massificado.
Wark (1992) compara os cyberpunks com participantes de outras subculturas como os
mods e os punks. Os mods, nos anos 50, buscavam a liberdade através das viagens sem rumo de
scooter. Já os punks pregavam a liberdade através da destruição de todo o establishment. Os
cyberpunks lutam também pela liberdade, a partir da democratização de toda informação. E como os
outros movimentos, influenciam a moda, a música, o cinema, etc.
Segundo Freitas Jr. (1994, p. 40), a filosofia desse movimento rebelde é “se não
controlamos a tecnologia, ela nos controlará. Vamos usar a tecnologia contra ela mesma”. Em debate
on-line alguns líderes do movimento definiram o ideário cyberpunk:
a) a informação deve ser livre;
b) a tecnologia pertence à civilização, e todos tem o direito de a usar como entender;
c) defesa da descentralização e multiculturalismo. A massificação é vista como crime
contra a humanidade;
d) promover a ação ininterruptamente;
e) viver o futuro já.
Porém, Wark (1992) vê uma contradição na comunidade cyberpunk. Para esse autor,
cyberpunk pulou de subcultura para uma nova categoria de marketing. Se de um lado os seus
participantes defendem a liberdade através da apropriação de tecnologia, de outro eles se
transformam em um novo mercado consumidor de novos artefatos da grande indústria.
VI - Sexo Virtual
Outra ocorrência comum no submundo virtual é um tipo de diálogo que se
convencionou chamar de sexo virtual. Trata-se de uma forma de sexo verbal, onde uma parte tenta
excitar a outra através de palavras. Isso ocorre em PVT e em acordo entre as duas partes.
É a descoberta de uma nova forma de sexo seguro, onde adolescentes ensaiam os
contatos com o sexo oposto e adultos realizam fantasias sem culpa. A palavra de ordem,
principalmente entre adolescentes, é o CYBER-SEXO, ou sexo virtual. Esta nova forma de
relacionamento se traduz numa masturbação simples, com nova idealização profunda do
objeto, porém sem uma imagem concreta e visual. A pessoa está livre para formar a
imagem que quiser, idealizando e podendo realizar um desejo sexual para o qual nunca
havia tido coragem e disposição (Storch e Cozac, 1995, p. 11).
Segundo Gates (1995, p. 170), tem havido mais especulação sobre sexo virtual do que
sobre qualquer outro assunto de realidade virtual.
O conteúdo sexual é tão velho quanto a própria informação. Nunca demora muito para
se descobrir como aplicar qualquer tecnologia nova ao mais velho dos desejos. Os
babilônios deixaram poemas eróticos em escrita cuneiforme sobre pranchas de barro e a
pornografia foi uma das primeiras coisas a que a imprensa se aplicou.
No sexo virtual o que importa é a excitação. A fantasia é levada adiante mesmo que por
trás do nick “Gatinha” esteja um homem fingindo ser uma mulher. Em alguns sistemas de chat os
participantes de sexo virtual também remetem fotos pornográficas, que visam trazer pistas visuais
para a relação virtual. Percebe-se que a pornografia encontrou no caótico ciberespaço uma forma de
se disseminar impunemente, mesmo entre adolescentes e crianças. Nesses casos, a liberdade da
Internet se transforma em libertinagem virtual, com conseqüências reais e implicações éticas e legais.
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VII - Considerações finais
Os usuários de chat mantém um senso de comunidade e linguagem compartilhada.
Reconhecem seu universo simbólico particular que os caracteriza e os une, apresentam um senso de
respeito pelas convenções do grupo, de responsabilidade pelo chat, e aqueles que não o respeitam
são marginalizados pelo grupo.
Não se pode porém supor que as comunidades virtuais sejam agregações redentoras,
que venham trazer soluções para os problemas do mundo contemporâneo. Como qualquer outra
comunidade, as virtuais apresentam qualidades e problemas. A tão propalada liberdade na Internet
pode ser tanto positiva quanto negativa. Pode proporcionar amizades duradouras, tolerância e até
amor. Por outro lado, há também ódio, violência, culpa, pornografia e vergonha. Para Reid (1991), a
liberdade na CMC deve ser entendida em termos de falta de controles sociais convencionais e não
em termos utópicos.
Deve-se reconhecer também que os chats tem importantes implicações na vida de seus
participantes. Nas conferências eletrônicas pessoas carentes podem encontrar suporte emocional e
respostas para suas angústias, pessoas tímidas podem engajar-se em frutíferas conversações e
desenvolver fortes relações. Para muitos, a realidade virtual influencia significativamente a maneira
como vêm os outros e a si mesmos. Para eles, “‘virtualidade’ é realidade” (p. 23). Mas, os chats
podem também motivar algumas pessoas a se confinarem no mundo virtual e as levar a crer que
suas relações virtuais são mais importantes que as reais. E para demonstrar ainda mais os paradoxos
do mundo virtual, sabe-se que para uns o IRC pode ser uma forma de aprendizagem transcultural,
para outros pode ser um espaço para manifestações etnocêntricas e preconceituosas.
Por ser um fenômeno social ainda bastante recente, as comunidades virtuais
apresentam mais desafios do que respostas para aqueles que as estudam hoje. Talvez, por que se
insista em estudá-las com pressupostos convencionais e discretos. Como as comunidades virtuais
misturam ingredientes que pareceriam insolúveis, como a realidade e a fantasia, misturam
características de comunicação síncrona e assíncrona, e desenvolvem relações íntimas com ou sem
proximidade física, será preciso desconstruir os pressupostos convencionais de investigação. Deve-se
estudar esse novo fenômeno como sendo um acréscimo às possibilidades interativas, e não como
uma ameaça às relações convencionais. Novas comunidades estão sendo construídas com novos
aparatos simbólicos. E para estudar-se esses novos universos virtuais será preciso entendê-los em
seus próprios termos ou corre-se o risco de cair-se no vácuo entre o real e o virtual, onde não se
enxerga nem um nem o outro.
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VIII - Referências bibliográficas
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8. MEYER, Gordon e THOMAS, Jim. A postmodernist interpretation of the computer underground.
Manuscrito eletrônico:
http://www.eff.org/pub/privacy/security/h...cyberpunk/baudy_world_of_byte_ban.article. 1990.
9. NEGROPONTE, Nicholas. Vida Digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
10. NUNES, Mark. Baudrillard in cyberspace: internet, virtuality, and postmodernity. Manuscrito
eletrônico: http://www.dc.peachnet.edu/~mnunes/jbnet.html. 1995.
11. PERSELL, Caroline Hodges. Understanding Society. 2. Ed. Nova Iorque: Harper & Row, 1987.
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16. WARK, McKenzie. Cyberpunk from subculture to mainstream. Manuscrito eletrônico:
http://www.Eff.org/pub/privacy/security/h...punk/cpunk_subculture_to_mainstream.paper. 1992.

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